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Entrevista :: Luiz Carlos Bresser A sobrevalorização cambial praticada entre 1994 e 1999 “foi um erro grave". Quando deixamos o câmbio valorizar-se e com isso prejudicamos as empresas nacionais e a indústria, foi uma política antinacional. Folha de S.Paulo, 16.4.2001 Quase dois anos depois
de sair do governo, o ex-ministro Luiz Carlos Bresser Pereira reconhece
que a sobrevalorização cambial praticada entre 1994 e 1999 “foi um
erro grave”, que causou “um enorme prejuízo para a indústria
brasileira e para a economia brasileira de modo geral”. De acordo com
Bresser, José Serra, Pérsio Árida e ele próprio perceberam a gravidade
do problema desde o início do mandato de Fernando Henrique Cardoso, em
1995. “Falei com o presidente muitas vezes sobre o assunto”, diz. Diante da hipótese de
que tenha faltado ao presidente coragem para mudar, Bresser adota uma saída
diplomática. “Prefiro não entrar em julgamentos morais.” No entanto, o
ex-auxiliar de FHC não poupa críticas à área econômica do governo.
Acha que há um “elemento liberal” no Ministério da Fazenda, o que
dificulta a tomada decisões mais favoráveis aos interesses nacionais. Defende que o PSDB
realize prévias para definir o candidato à Presidência em 2002, de modo
que ocorra uma forte discussão programática. Faz elogios a Serra, hoje
ministro da Saúde. Mas, questionado sobre o apoio a sua candidatura, diz
que ainda quer esperar para tomar uma decisão. Responsável pela
reforma administrativa realizada no primeiro mandato de FHC, o advogado,
administrador e economista Bresser Pereira, hoje com 66 anos, dedica-se em
tempo integral a projetos acadêmicos, nos quais busca consolidar o que
chama de ideologia social-liberal. Trata-se de um ponto intermediário
entre o neoliberalismo, que ele prefere denominar ultraliberalismo, e o
que rotula de “o velho estatismo”. Depois de passar seis
meses na Universidade de Oxford, Inglaterra, onde aprofundou os estudos
políticos, área que lhe interessa cada vez mais, Bresser está em plena
forma. Nada 800 metros sem parar, todos os dias, e depois assume uma
agenda pesada de cursos, conferências e atividade editorial. No segundo semestre,
ministrará um curso de pós-graduação em teoria da democracia no
Departamento de Ciência Política da Universidade de São Paulo.
“Concluí que não existe convergência entre os países em
desenvolvimento e os desenvolvidos por deficiências na governança democrática
dos primeiros”, diz Bresser. Em outras palavras, as
dificuldades para suscitar um crescimento sustentado nas nações pobres
devem ser procuradas nas formas de tomar decisões e não na economia em
si. A economia, contudo, não
está abandonada na pauta de Bresser. Além dos cursos regulares na Fundação
Getúlio Vargas, ele dirige a “Revista de Economia Política” e
promete editar, até o fim do ano, um volume de ensaios em homenagem a
Celso Furtado. Bresser conversou com a Folha
na semana passada, em amplo e iluminado escritório que mantém no
Morumbi, zona sul de São Paulo. A seguir, os principais trechos da
entrevista. Folha - Em ensaio
publicado alguns meses atrás o sr. defende uma posição nacionalista.
Para alguém que, como ministro da Fazenda [do governo Sarney, em 1987”,
iniciou a abertura comercial, e que, como ministro da Administração
[1995-98”, reduziu o tamanho do Estado, tal postura é surpreendente.
Poderia explicá-la? Luiz Carlos Bresser
Pereira - A surpresa só pode decorrer de um pensamento linear. Sou
nacionalista, como aliás todos os americanos, franceses e ingleses que
conheço. Não passa pela cabeça deles que não seja função do governo
defender o trabalho e o capital nacionais. Aqui no Brasil é que existe
muita gente das elites que acha que não é função do governo defender
os interesses nacionais. Quando defendi a
abertura comercial, eu o fiz porque acho que é interesse nacional do
Brasil ter um país mais aberto. Temos vantagens no comércio
internacional, muito mais do que desvantagens. Quem está preocupado em se
defender é a Europa, muitas vezes os EUA, e o Japão. Quando fiz a reforma
gerencial do Estado, no governo FHC, o fiz porque achava que era do
interesse nacional do Brasil não ter um Estado inchado e com funções
que não lhe são próprias. Mas, quando nós não
temos uma política ativa no sentido de defender o trabalho e o capital
brasileiros, estamos completamente equivocados. Quando deixamos o câmbio
valorizar-se e com isso prejudicamos as empresas nacionais e a indústria,
foi uma política antinacional. Quando não fazemos a reforma tributária
e não aumentamos a nossa competitividade, estamos agindo
antinacionalmente. Quando não temos uma atitude mais ativa em participar
da Alca, em vez de ficar numa resistência irracional, nós não estamos
defendendo os interesses nacionais. Folha - No entanto, a
abertura comercial produziu uma desnacionalização da indústria, não? Bresser - A profunda
desnacionalização da indústria não se deve em absoluto à abertura
comercial. Ela se deveu à valorização do câmbio em 1994, que foi
mantida, de forma equivocada, até 1998. Só desvalorizamos em janeiro de
1999. Esses quatro anos de atraso causaram um enorme prejuízo para a indústria
brasileira e para a economia de modo geral. Folha - Por isso o
sr. qualifica a valorização do câmbio de “política antinacional”? Bresser - Sem dúvida.
Foi um erro grave. Melhor chamar desse jeito, porque não foi feita de
propósito. Foi uma atitude passiva de não mexer no câmbio e que nos
trouxe esse prejuízo. Quando eu era membro do
Conselho Econômico da Fiesp, entre 1992 e 1994, dizia aos empresários
industriais que protestavam contra a abertura comercial: vocês estão
equivocados, a abertura é fundamental, mas precavenham-se, porque vem a
estabilização e poderá haver a valorização cambial, como ocorreu no México
e na Argentina. Isso é um desastre para o Brasil. Como os industriais
estavam brigando contra a abertura, o que era uma tolice, eles ficaram
fracos para lutar contra a valorização. Nos países em desenvolvimento,
quando houver alguma dúvida, você deve optar pelo câmbio desvalorizado.
Em dúvida, pró réu. Folha - Mas, no período
da sobrevalorização, o sr. estava no governo... Bresser - Dentro do
governo, eu, que estava fora da equipe econômica, e o José Serra, que
estava dentro da equipe econômica, e o Pérsio Árida, que também estava
nos primeiros meses, percebemos esse fato. Eu falei com o presidente
muitas vezes sobre o assunto. Folha - Por que se
persistiu no erro? Bresser - Desvalorização
cambial é uma decisão sempre difícil de ser tomada. A tendência é a
inércia. Veja o que está acontecendo com a Argentina. Veja o que
aconteceu com o México anteriormente, no governo Salinas. Quando você
desvaloriza, não só existe o risco da inflação como existe a certeza
de que todos os patrimônios e rendas em dólares diminuem. Ninguém gosta
disso. Isso não é popular. Mas temos mantido o
Brasil com taxas de juros incrivelmente altas porque temos um câmbio que
ainda continua relativamente valorizado. Nos últimos três meses houve
uma desvalorização adicional, que aconteceu por acaso, em função da
crise argentina. São males que vêm para bem. Folha - Faltou
coragem ao presidente da República para mudar? Bresser - Prefiro não
fazer julgamentos morais. O presidente da República é meu amigo. É um
homem da melhor qualidade e tem feito um bom governo. Minhas críticas ao
seu governo estão fundamentalmente na área econômica. Estão
relacionadas ao câmbio, à reforma tributária e à falta de uma política
ativa de defesa da empresa nacional. Folha - Mas o sr.
defende as privatizações? Bresser - Sempre fui um
defensor da privatização. Agora estou contra a privatização das
empresas hidrelétricas de produção. Folha - Por quê? Bresser - Sou contra a
privatização de Furnas e da Copel e acho que vamos ter um problema sério
nas privatizações que já ocorreram. Folha - No setor elétrico? Bresser - Sou 100% a
favor de todas as outras. Mas, no setor elétrico, não se trata apenas de
um monopólio natural. O problema é que no Centro-Sul a capacidade de
produção de energia elétrica por meio de hidrelétricas esgotou-se. De
forma que a produção adicional terá de vir de termelétricas. Elas têm
um custo de produção substancialmente mais caro, e o preço nacional vai
ser determinado por elas. Quando o preço subir, vai haver um lucro
monumental por parte das empresas hidrelétricas. Em linguagem econômica,
isso se chama “renda monopolista”. Essa renda só pode ficar com o
Estado, não pode ser entregue ao setor privado. Tem de ficar com o
Estado, até para ele poder subsidiar a transição para os preços mais
altos. Não faz sentido os que compraram a Cesp de repente terem lucros
monumentais porque os preços tiveram de ser aumentados. E ninguém vai me
dizer que no preço da privatização já foi incorporado o lucro que eles
vão ter. Não é verdade. Folha - No caso do
Banespa, o sr. se pronunciou contra a venda a estrangeiros. Por quê? Bresser - Há setores,
como os bancos de varejo, que criam moeda e não podem ir à falência,
devem ser controlados pelo capital nacional. Os grandes países
desenvolvidos têm esses bancos controlados nacionalmente. Folha - Eles são
estratégicos? Bresser - Eles são
bancos quase públicos. Sabem que estão realizando uma tarefa que é
quase pública. Eu não acho que isso deve ser transferido para
estrangeiros. Folha - O mesmo
raciocínio não se aplica às telecomunicações? Bresser - Aí o Estado
tem suficiente poder regulatório para garantir a sua política sem risco. Folha - Ao abrir a
economia, o Brasil obteve a contrapartida em abertura nos países
desenvolvidos? Bresser - Não. Mas nem
toda abertura comercial se faz na base da barganha. A redução de nossa
tarifa média de 45% para 15% era necessária e devia ser feita
unilateralmente. Graças a ela é que nossa indústria aumentou sua
produtividade de maneira extraordinária e hoje é uma indústria
internacionalmente competitiva. Além disso, o
nacionalismo moderno é defender o interesse nacional negociando. Enquanto
nós resistimos à Alca, o México entrou no Nafta e sua economia está
crescendo de maneira rápida. As exportações deles estão explodindo,
enquanto nós temos um sério déficit em conta corrente. O Itamaraty preferiu, de
maneira equivocada, tentar um acordo com a União Européia. Pois bem, o México,
depois de entrar no Nafta, fechou um acordo com a UE e hoje tem uma situação
preferencial em relação ao Brasil. Folha - O sr. não
acha que o preço pago pelo México é não ter autonomia para realizar
política econômica autônoma? Bresser - Não. É
exagero. Quem está sem política autônoma é a Argentina, que está sem
moeda. O México continua tendo a sua moeda. O fato de ter 80% das suas
exportações para os EUA gera uma relação de interdependência. Acho
isso aceitável. O problema é saber se o governo é capaz de promover o
desenvolvimento da economia mexicana e a distribuição de renda. O Nafta
tem sido um instrumento de desenvolvimento muito positivo. Há seis meses,
participei de uma conferência nos EUA. Havia dois economistas mexicanos.
Eles estavam muito meus amigos, exceto no último dia, quando eu disse a
eles que achava que o Brasil precisava entrar na Alca. Um fechou a cara. O
outro riu e disse: “Espera um pouco, Luiz Carlos, espera a gente tirar
todas as vantagens, aí vocês entram”.
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