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A fragilidade do real
(The
Financial Times - Inglaterra - 2001-08-16)
"Toda vez que um país em
desenvolvimento sofre uma crise econômica, o Brasil sente os efeitos. Foi
assim com o México em 1995, aconteceu durante a crise asiática em 1997 e
novamente quando a Rússia declarou moratória em 1998", afirma o
Financial Times em uma análise de seu correspondente Geoff Dyer.
"Agora está acontecendo com a
Argentina e o fato de o país em questão ser um vizinho e parceiro
comercial só piora as coisas.
Este era para ser o ano do Brasil, quando
o país mostraria que estava no caminho do crescimento sustentável. Em
vez disso, a economia está caindo em um círculo vicioso. Uma desvalorização
do real causou pressões inflacionárias que levaram ao aumento nos juros.
O aumento do peso da dívida que resultou disso enfraqueceu ainda mais a
moeda.
Agora, a economia está desacelerando
rapidamente. A taxa de crescimento anual do PIB no segundo trimestre
anunciada na quarta foi de apenas 0,79 por cento, enquanto no primeiro
trimestre tinha sido de 4,28 por cento. Temendo que a crise argentina
agrave a situação, o FMI anunciou um novo pacote de US$15 bi para o
Brasil - o segundo em três anos.
Desde o início dos anos 90, o Brasil
passou por uma série de abruptas transformações; a economia abriu-se às
importações e ao investimento e uma reforma monetária culminou com a
criação de uma nova moeda, o real. O resultado foi inflação baixa pela
primeira vez em décadas e 10 mihões de pessoas tiradas da pobreza.
Mas as reformas deixaram dois graves
problemas. A inflação alta ajudava a mascarar a fragilidade das contas
fiscais do Brasil que logo se tornou aparente. Ao mesmo tempo, a abertura
da economia, ao mesmo tempo que ajudou a combater a inflação, levou a
grandes déficits em conta corrente.
É a interação desses dois déficits
que desde 1995 vem causandoxa vulnerabilidade da economia e seu
decepcionante crescimento. Antes da crise monetária brasileira, de 1999,
a preocupação era com o lado fiscal. Agora muitos economistas acreditam
que o sapato está no outro pé.
A raiz dos atuais problemas está na
balança de pagamentos. Logo depois da desvalorização, o Brasil anunciou
um rígido programa de austeridade fiscal - com o selo do FMI - que o país
cumpriu em todos os trimestres subseqüentes. Ao mesmo tempo, o Brasil foi
inundado de investimentos das multinacionais, o que cobriu grande parte do
buraco na conta corrente.
Isso deu ao país tempo para resolver sua
fraca performance no setor de exportação, o principal obstáculo para
alcançar um crescimento alto e sustentável. Mas isso não aconteceu e
apesar da grande desvalorização monetária de 1999, o déficit em conta
corrente se aproxima agora de 5 por cento do PIB.
O desafio de longo prazo do próximo
governo é reduzir a vulnerabilidade externa do Brasil. No topo da lista
de quase todo mundo está a reforma do sistema fiscal que o atual governo
prometeu mas não fez.
A solução mais falada entre os políticos
é algum tipo de política industrial, mas isso é um termo elástico.
Para alguns, significa mais treinamento e uma maior presença em feiras de
comércio internacionais, criando 'pools' de pequenas empresas que
poderiam vender seus produtos conjuntamente, além de pesquisa e
desenvolvimenro de bens de exportação.
Para outros, significa uma volta a uma
economia mais fechada, protecionista e de substituição de importações.
Em alguns setores há até uma certa nostalgia das políticas econômicas
da ditadura que resultaram em vários anos de crescimento espetacular na década
de 70. Se a Argentina quebrar, as vozes protecionistas vão falar mais
alto ainda".
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Nesta edição, veja também:
» Brasil,
o aluno modelo do FMI
» No
Brasil os consumidores pagarão mais pela eletricidade
» O que afugentam os
investimentos estrangeiros no Brasil?
» A fragilidade do real
» Aperto
fiscal pode levar o Brasil à mesma situação da Argentina
» Empresas
de energia não têm condições de investir, diz FGV
» A receita
dos países desenvolvidos
» Entrevista com o economista Luiz
Carlos Bresser
» O crepúsculo da economia sul-americana
» Brasil busca ajuda do FMI e amplia dependência
externa
» Um presente de grego:
Pedro Malan anuncia meta de inflação de 3,25% para seu sucessor em 2003
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