Capital tem Pátria
(Antoninho Marmo Trevisan, 2001-08-28)

A globalização parecia necessária e inevitável, mas, passados alguns anos, sobrou aquela sensação de que entramos numa fria. Para justificar a globalização, construiu-se até mesmo o jargão de que o empresário brasileiro era antiquado e incompetente e que precisava tomar uma lição para aprender.

O próprio presidente FHC repetia nos jornais, com certa ironia, que "empresário brasileiro só sabe chorar". Quem saiu lucrando foram analistas e investidores estrangeiros. Com essa ajuda, ganharam força para depreciar o inegável valor da empresa natural do Brasil. Que bom negócio para eles!

Em linha com o discurso oficial, as instituições públicas correspondiam apoiando com financiamentos os investidores estrangeiros, desmotivando ainda mais o empreendedor nacional. Justamente esse empresário caboclo que, alvo de tantas bordoadas, manteve o produto interno bruto brasileiro crescendo a estupenda taxa média de 5,7% ao ano, durante 40 anos.

Essa atitude colonialista do governo foi deixando seus mortos pelo caminho. A conta está vindo agora. Empresas médias e pequenas quebraram ou simplesmente fecharam, desalentadas com a falta de apoio ou castigadas pelos tropeços da política econômica. Como numa espécie de matadouro, entravam no corredor da competitividade pagando juros escorchantes de mais de 70% ao ano enquanto a empresa do lado, porque vinha de fora, convivia com taxas dez vezes menores.

O resultado veio rápido: desemprego, miséria, aumento da criminalidade e da violência cadenciado com dependência crescente do financiador externo, o qual, como todo credor poderoso, leva o devedor contumaz a se entregar a quem o tem na coleira.

Uma dívida líquida de mais de R$ 500 bilhões - qualquer contador sabe - custa quase R$ 100 bilhões ao ano só de juros. Haja superávit fiscal para cobrir isso! E parem de dizer que essa dívida não é o problema. É. Têm de relacioná-la com os investimentos correspondentes, que simplesmente não existiram. Nesse caso, os pagamentos são feitos com desvios orçamentários da educação, saúde, segurança e de outros projetos sociais.

É preciso denunciar isso com todas as letras de um auditor. A dívida constituída nos últimos cinco anos não gerou ativos fixos, logo, não vai gerar renda para pagá-la.

Recentemente o Banco Mundial concluiu aquilo que tantos alertaram. Como agora o estudo veio com uma assinatura "de fora", ganhou a atenção das autoridades. O documento "Entrando no Século 21" conclui que "a globalização e a descentralização podem revolucionar ou levar ao caos e aumentar o sofrimento humano".

O erro dramático do governo brasileiro ao desqualificar e desvalorizar a empresa natural do país se contrapunha ao que o próprio mundo desenvolvido reconhecia. Que são as empresas, e não mais os governos, que exercem pressões poderosas nos países e sobre seus mandatários. Quem resiste à pressão de uma GM ou da IBM, para citar duas das melhores e maiores multinacionais?

Por outro lado, é preciso alertar os brasileiros de que a entrada de capitais para investimento produz a permanente demanda por remessas futuras de lucros e dividendos.

Antes esses capitais entravam à razão de minguados US$ 1 bilhão ou US$ 2 bilhões ao ano: em 1999, chegaram a US$ 30 bilhões. É bom, mas precisa vir com o aviso de: Perigo, capital tem pátria! Retorna para a pátria do acionista, na forma de dividendos. Essa conta de remessa ao exterior já bateu a casa dos US$ 7 bilhões e deve chegar a US$ 10 bilhões em 2000. Isso nos coloca numa dramática dependência de superávits comerciais obrigando-nos a exportar a qualquer custo.

Nossa saída é criar empresas transnacionais brasileiras fortes para produzir o movimento contrário: o da vinda de lucros e dividendos para o Brasil. De quebra difundimos nossas marcas, nossa cultura e ganhamos poder para influenciar decisões de nosso interesse. Afinal, se as nações fortes são fortes e permanecem poderosas é porque possuem empresas fortes e poderosas espalhadas pelo mundo

 

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