Governo dos EUA e sua relação com o Mercosul

Um dia depois de o FMI anunciar um novo pacote de ajuda financeira à Argentina, no valor de US$ 8 bilhões, o governo norte-americano desafiou os quatro países do Mercosul a retomar as negociações bilaterais com vista à criação de uma área de livre comércio - seria o embrião da futura Alca (Área de Livre Comércio das Américas). A exortação foi feita por meio de um comunicado da representação comercial dos EUA (USTR), chefiada pelo negociador da Alca, Robert Zoellick.

Além dos empresários brasileiros, do Itamaraty e do embaixador do Brasil em Washington, a reação mais contundente ao desafio da administração George W. Bush partiu da União Européia (UE). Enquanto o governo Bill Clinton nunca conseguiu do Congresso o fast track, e o governo Bush patina até hoje para conseguir dos parlamentares o TPA (Trade Promotion Authority), que vem a ser o mesmo que o fast track, a UE lembrou nesta quarta que os 15 países do bloco concederam um mandato à Comissão Européia para negociar uma área de livre comércio com o Mercosul.

Mais que isso. Os europeus lembraram nesta terça, para contra-atacar os EUA e pressionar o Mercosul a não reabrir negociações bilaterais com a USTR, que até fizeram uma proposta concreta e fora das regras diplomáticas. Foi em julho passado, em Montevidéu, sem que o Mercosul tenha apresentado qualquer contraproposta. "Isso, normalmente, não se faria pelas regras tradicionais da diplomacia. Mesmo assim, decidimos que faríamos a nossa proposta", afirmou à Agência Estado um alto funcionário da UE.

A USTR "convidou" os quatro países do Mercosul (Brasil, Argentina, Uruguai e Paraguai) a se reunir com os EUA já em setembro, caso as agendas dos negociadores permitam. "O propósito do encontro é buscar nossos interesses comuns no livre comércio como um motor de crescimento econômico global, regional e bilateral", afirmou Zoellick.

O natureza do "convite" da representação comercial não agradou aos empresários brasileiros. O diretor da associação dos exportadores (AEB), José Augusto de Castro, foi claro: "É visível que a Argentina está se tornando um posto dos EUA na América Latina para tentar levar o Brasil para a Alca". Pelo calendário acertado em abril deste ano, na cúpula das Américas, em Quebéc (Canadá), a Alca só deve encerrar as negociações em dezembro de 2005 e entrar em vigor em 2006.

"Os Estados Unidos não são bobos. Eles procuram se aproveitar de um momento de crise e de fragilidade do Mercosul e da América Latina para conseguir um ganho na sua estratégia comercial", avaliou o diretor-adjunto do Departamento de Pesquisas e Estudos Econômicos da Fiesp, Roberto Faldini. Para o empresário Carlos de Paiva Lopes, presidente da Abinee (Associação Brasileira da Indústria Elétrica Eletrônica), não há condições para fazer nenhuma negociação entre blocos comerciais antes das eleições legislativas na Argentina.

O comunicado do USTR propõe que sejam retomadas as negociações por meio do fórum de consultas bilaterais denominado Rose Garden Agreement. As consultas entre Mercosul e EUA foram feitas nesse fórum entre 91 e 95.

Ministro e embaixador

O ministro brasileiro das Relações Exteriores, Celso Lafer, disse nesta quarta, em São Paulo, que, se houver oportunidades para o Brasil ampliar o acesso de seus produtos ao mercado norte-americano, o país vai explorá-las. Lafer afirmou que o comunicado da USTR é uma resposta à proposta feita pelo Mercosul aos EUA, em junho, na Cúpula do Mercosul, de reabrir o fórum de negociações dentro de um esquema que os diplomatas apelidam de "discussão 4+1" - os quatro do Mercosul mais os EUA. O ministro não acredita que o FMI tenha vinculado o empréstimo à Argentina ao apoio do país nas negociações da Alca.

Lafer foi contraditado pelo seu embaixador em Washington, Rubens Barbosa. Para o embaixador, não se trata de coincidência o fato de os EUA anunciarem neste quarta que estão dispostos a reativar o fórum de discussões bilaterais em torno do comércio. Na opinião de Rubens Barbosa, o gesto norte-americano está ligado à aprovação da ajuda financeira de US$ 8 bilhões. "Foi deliberada e para demonstrar apoio à Argentina", disse o embaixador.

Lafer e Barbosa deram as opiniões diferentes no mesmo local, durante o seminário "A América do Sul e a Nova Rodada do Milênio na OMC", no Memorial da América Latina, em São Paulo. A nova rodada de negociações da Organização Mundial de Comércio está marcada para novembro, em Doha, no Qatar. Lafer disse que a negociações multilaterais na OMC são um foco importante para o Brasil, uma vez que somente lá serão discutidos alguns dos temas de interesse vital para o país como legislação antidumping, liberalização do comércio de produtos agrícolas etc.


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