Inovar é o caminho
(Antonio Barros Castro, 2001-09-08)

Os economistas costumam supor que o caminho para a melhora do bem-estar de uma população consiste em deixar que as empresas se ajustem aos preços livremente estabelecidos pelo mercado. Para tanto o mais importante é que os preços dos fatores de produção reflitam fielmente a sua escassez ou abundância relativas. Isso pode requerer o desmonte de instituições e políticas que estejam distorcendo preços -e com isso induzindo o uso de fatores em combinações que não seriam as escolhidas se os preços fossem livremente determinados. Segundo os adeptos dessa visão, a correção, aliás, se faria de forma rápida e indolor.

As chamadas reformas de estrutura que varreram o mundo nos anos 80 e 90 foram propostas tendo em vista este tipo de melhoria: levar as empresas a combinar fatores de acordo com os preços ditados pelo mercado -e não como consequência de políticas, sob pressões corporativas, por corrupção etc.

Um segundo caminho para o crescimento consiste na reprodução de soluções desenvolvidas em economias mais avançadas. Esse tem sido o caminho, desde a Alemanha de Bismarck, dos países que, vislumbrando nos mais adiantados a imagem do seu próprio futuro, tratam de promover o transplante, para o seu próprio contexto, de soluções consagradas em outras partes.

Pode-se afirmar que o Brasil teve dois grande surtos de imitação de soluções adotadas nos países mais avançados. O primeiro (que poderia ter por símbolo Volta Redonda) se estendeu até o início dos anos 1980, quando cessaram os transplantes promovidos pelo 2º PND.

Uma nova onda de imitações ocorreu nos anos 1990, a qual ainda não foi devidamente estudada e entendida. Nesse caso, no curto espaço de uma década, foram replicadas no Brasil soluções capazes de mudar completamente a organização das empresas e do trabalho. Além disso, numerosas técnicas produtivas foram também transplantadas para o país.
Em ambos os casos, o papel do Estado foi decisivo. Na primeira experiência, protegendo, financiando ou, genericamente, fomentando decisões por parte das empresas (públicas e privadas). No segundo caso, mudando radicalmente as instituições e o contexto, seja por meio da exposição do mercado interno à competição internacional, seja mediante a estabilização monetária. Certamente, não se pode afirmar que, por intermédio das mudanças recentemente ocorridas, as práticas mais avançadas foram efetivamente implantadas no país. Mas já se pode afirmar, a estas alturas, que o atraso acumulado de 1980 a 1994 foi bastante reduzido.
É curioso assinalar que os que comandavam a política econômica, ao promover as reformas, supunham que estavam avançando por meio do primeiro caminho, ou seja, o do ajuste das empresas aos preços relativos livremente determinados. Mas as evidências que vão se acumulando apontam uma direção muito diversa. O que aqui ocorreu foi imitação, em massa, de soluções estabelecidas nos países avançados -caracterizados por preços relativos notoriamente diferentes dos nossos. Completa a ironia o fato de que, ali onde efetivamente se verificou ajuste aos custos dos fatores (como no caso da transferência de fábricas trabalho-intensivas para o Nordeste), a mão visível do Estado se mostrou decisiva.

Há, no entanto, um terceiro caminho para o crescimento, pouco explorado no Brasil: a inovação. Por meio dela, a empresa muda para avançar. Não exageremos: pequenas melhorias, ditas incrementais, foram, sim, introduzidas pelas empresas brasileiras, na medida em que acumulavam experiência. Inovação, porém, tem alta dose de ruptura -e, há que insistir, esse foi o caminho menos explorado, neste país, até o presente.
Uma economia com a complexidade da brasileira, com graves problemas herdados do passado e, contraditoriamente, também moderna, não deveria abrir mão de nenhum dos três caminhos aqui esquematizados.
De fato, explicitar a ampla disponibilidade de mão-de-obra e recursos naturais subutilizados (nas regiões atrasadas) mediante o seu barateamento relativo faz enorme sentido. É mesmo possível que essa seja a forma mais eficaz de reduzir as desigualdades que, reconhecidamente, dilaceram o tecido social e político do país.

Quanto a promover novas ondas de imitação, buscando trazer para o país setores ou atividades aqui praticamente inexistentes, convenhamos que as possibilidades são bastante limitadas. Primeiro porque não se dispõe dos recursos necessários, segundo porque isso requereria uma reconcentração de poderes nas mãos do Estado, hoje inviável.

Chegamos por fim ao terceiro e último caminho: o da inovação. Para justificar a sua importância, digamos apenas que, sem inovar e no ambiente intensamente competitivo com que agora se defrontam, as empresas nacionais serão obrigadas a se refugiar em nichos de mercado -ou cair na vala comum dos mercados de baixo retorno. No primeiro caso, as chances de crescimento são quase nulas e o emprego não se expande. No segundo, o crescimento é lento e os salários tendem a ser achatados.

Faltou, evidentemente, indagar sobre a relação entre multinacionais e o caminho das inovações. Trata-se, porém, de um tema no mínimo controverso e, sobretudo, jamais seriamente discutido.

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Antonio Barros Castro é professor-titular da UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro) e ex-presidente do BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social)

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