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Terror põe globalização
sob ameaça
(The Financial Times*, 2001-10-14)
As pegadas da globalização deixaram uma trilha óbvia na paisagem
mundial ao longo da década passada. Mas os ataques terroristas de 11 de
setembro e suas consequências podem causar o fim delas.
Na esfera econômica e financeira, a globalização envolve basicamente
uma maior conectividade entre as fronteiras. A rápida expansão do comércio
e dos fluxos de capital, cadeias de suprimento cada vez mais globalizadas
e a rápida expansão das atividades transnacionais de empresas
multinacionais tornaram o mundo um lugar menor. Novas tecnologias de
informação se tornaram a cola da globalização, tornando a
conectividade entre as nações mais rápida, barata e reduzindo seus
atritos.
As evidências de globalização da economia são inconfundíveis. De
acordo com o banco de investimentos Morgan Stanley, o comércio mundial
atingiu o recorde de 26% do produto bruto do planeta no ano 2000, ante 18%
em 1990. As transferências entre afiliadas estrangeiras de multinacionais
aumentaram em ritmo duas vezes superior ao do comércio internacional, ao
longo da década passada.
Zonas de livre comércio como o Nafta (entre EUA, Canadá e México)
criaram novos elos entre os países industrializados e seus fornecedores
externos. As exportações aos EUA respondem por 25% do PIB (Produto
Interno Bruto) mexicano, por exemplo. A Ásia, excluindo o Japão, também
se ligou de maneira mais estreita aos EUA. Perto de 40% do crescimento
econômico da região pode ser atribuído à alta das exportações de
produtos de tecnologia da informação aos norte-americanos. De muitas
maneiras, o mundo está-se unindo como nunca.
Mas as regras do jogo mudaram. O terrorismo sabotou as engrenagens da
conectividade internacional, e o mundo da globalização, onde as fricções
vinham diminuindo, está sob ameaça. Os acontecimentos trágicos do dia
11 de setembro na verdade impuseram um novo tributo a esses fluxos. A
segurança das fronteiras nacionais terá de ser reforçada, agora uma
empreitada custosa. Isso afetará mais que os aeroportos e portos. As
porosas fronteiras dos EUA com Canadá e México, que conduziam os elos do
Nafta aparentemente sem nenhum obstáculo, também terão controles mais
severos.
Como resultado, as transferências internacionais agora demorarão mais e
terão custos mais altos, e os seguros sobre esses carregamentos se tornarão
consideravelmente mais dispendiosos. Além disso, como indica o recente
ataque do vírus de computador Nimbda, não será mais possível aceitar
como axioma a transferência instantânea de informações e capital.
Os ataques terroristas também instilarão o medo, elevando o ágio por
risco para a conectividade global. Subitamente, esse admirável mundo novo
parece muito menos integrado.
A economia básica diz que um imposto sobre as conexões internacionais
reduz o fluxo dessas transações. Ao optar por terceirização no
exterior de preferência à produção nacional, o cálculo das vantagens
relativas de custo pode ter sido permanentemente alterado. Mas existe também
uma dimensão psicológica: as empresas talvez se tornem introspectivas. O
apetite por criar novas alianças internacionais talvez se reduza. A aversão
a riscos pode assumir importância cada vez maior.
Existe outra dimensão importante nesse imposto sobre a globalização.
Ela reflete o impacto de uma mudança na produção nacional, com o
abandono parcial dos investimentos que reforçam a produtividade. Os
ganhos de produtividade e a globalização sempre andaram de mãos dadas.
O surto de terceirização externa da produção foi crítico para
estimular a eficiência empresarial.
Um imposto sobre a globalização mudaria tudo isso. Não se trata apenas
do aumento dos custos de negócios que talvez surja devido às despesas de
segurança, transporte e seguro aumentadas. Envolve igualmente as
potenciais ramificações de uma mudança nos gastos públicos, rumo à
defesa nacional, revertendo uma das mais importantes tendências da era
posterior à guerra fria. O dividendo da paz reduziu os gastos com defesa,
como proporção do PIB norte-americano, de 7% para menos de 4%, nos últimos
15 anos. No mínimo, uma reversão dessa tendência expulsaria do mercado
parte dos investimentos privados.
O crescimento da produtividade já estava fadado a um declínio durante os
próximos cinco anos, à medida que os excessos causados pela expansão
dos investimentos de capital relacionados à tecnologia da informação
eram eliminados. Os custos do combate ao terrorismo mundial talvez
resultem em acréscimo adicional. Uma desaceleração acentuada na tendência
de crescimento da produtividade colocaria pressão concomitante sobre o
poder de ganho das empresas e, por inferência, sobre os retornos
esperados sobre o capital. Os investidores sofreriam um despertar
particularmente doloroso.
Novas alianças entre os governos são prováveis, justapostas ao apetite
potencialmente diminuído do setor privado pela globalização. As
principais potências mundiais agora parecem estar unidas de forma
extraordinária, como consequência dos ataques. Uniram-se em torno da
meta de combater o terrorismo mundial, e outras queixas, como as disputas
comerciais, estão sendo deixadas de lado pelo menos por enquanto.
Mas essas novas alianças podem fracassar quanto a um aspecto crucial.
Podem impor separação ainda maior entre o mundo desenvolvido e os países
em desenvolvimento. Um obstáculo geopolítico desse cunho poderia reforçar
as diferenças econômicas já antigas e isolar os países em
desenvolvimento.
A ampliação das disparidades de renda entre os países ricos e pobres
foi uma das marcas inconfundíveis do século 20. De acordo com pesquisa
do FMI (Fundo Monetário Internacional), os 25% mais riscos da população
mundial tiveram aumento de renda per capita da ordem de 600% nos cem anos
passados. Em contraste, os 25% mais pobres tiveram ganho inferior à
metade do mencionado. E essas disparidades vêm sendo exacerbadas pela
barreira digital da era da informação, o contraste em oportunidades econômicas
entre as pessoas que sabem operar computadores e aquelas que não sabem.
Essas tensões não representam um bom augúrio para a "aldeia
global" como uma imagem apropriada quanto à orientação do processo
de globalização. Os benefícios econômicos da conectividade
internacional há muito mostram forte contraste com as disparidades
sociais entre países ricos e pobres. Novas alianças políticas que
surjam de uma frente unidade entre os países ricos, contra o terrorismo
mundial, podem bem agravar essa barreira.
Fragmentação crescente como essa significa que o mundo talvez esteja
dando as costas à globalização. O recente cancelamento das assembléias
anuais do FMI e do Banco Mundial em Washington é particularmente
perturbador, quanto a isso. Embora ambas as instituições tenham sofrido
críticas por administrarem mal o processo, especialmente durante a crise
asiática de 1997-98, as reuniões ofereciam um fórum para o estudo dos
pontos fortes e fracos da globalização.
Marcha à ré
A globalização já sofreu reveses. A integração da economia atlântica
no século 19 prometia poderosa integração econômica na Europa e entre
a Europa e os EUA. No entanto, essa tendência aparentemente imbatível
deu origem a uma tremenda reação, causada pela convergência entre o
aumento das disparidades de rendas mundiais e a instabilidade política
que desempenhou seu papel na origem da Primeira Guerra.
Uma nova onda de globalização aconteceu nos anos 20, mas foi
abruptamente encerrada pela Grande Depressão e por uma nova guerra. As
condições prévias desses reveses (disparidades de renda cada vez
maiores e crescentes tensões geopolíticas) parecem particularmente
pressagas hoje. Não só a história nos revela que a globalização não
oferece estabilidade inerente como também aponta para a tendência de a
globalização semear sua própria queda. Infelizmente, talvez o mesmo
aconteça agora.
As forças da globalização, que pareciam invencíveis, subitamente
encontraram resistência. E o mesmo vale para a base de ganhos de
produtividade que sustenta o crescimento econômico dos EUA e do mundo.
Talvez estejamos vendo o início de uma virada.
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*Stephen Roach é economista-chefe e diretor de economia mundial do
banco de investimentos Morgan Stanley.
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