BID prevê período difícil para AL, com recessão e recuos na estabilização
(Agência Estado, 2001-10-20)

Em estudo sobre competitividade, o banco aponta a educação e a qualidade das instituições como as duas áreas mais críticas no Brasil

O presidente do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), Enrique Iglesias, disse que a América Latina está entrando num dos períodos mais difíceis dos últimos anos. Os riscos não são apenas de recessão ou de crescimento do desemprego, mas de um recuo no processo de estabilização macroeconômica e de reforma estrutural iniciado na década passada. Em um estudo sobre competitividade, o banco revela que os latino-americanos vão demorar um século para alcançar os países desenvolvidos. A educação e a qualidade das instituições são apontadas como as duas áreas mais críticas, especialmente no Brasil.

Iglesias afirmou que os países latino-americanos necessitam urgentemente de mudanças institucionais para enfrentar os perigos da recessão. De acordo com o presidente do BID, os ataques terroristas contra os Estados Unidos afetaram duramente a economia da região, razão pela qual os desafios agora são maiores. "Para o nível de desenvolvimento que a região alcançou, é inaceitável estar com 45% de pessoas na pobreza e 70 milhões na indigência. É muito para uma população de 500 milhões", lamentou o presidente do BID. Para Iglesias, a América Latina é a região mais desigual do mundo.

O crescimento obtido na última década, segundo Iglesias, foi insatisfatório e extremamente volátil. Ele disse ainda que os Estados precisam fazer mais reformas, já que as que foram empreendidas até agora se mostraram insuficientes. "A corrupção é o principal mal a ser extirpado."

Iglesias constatou que as nações latino-americanas continuam vinculadas ao ciclo econômico internacional sem ter conseguido gerar defesas. Prova disso é o baixo nível de poupança e a dependência exagerada da poupança externa. O presidente do BID disse que vários países sentirão falta de recursos em decorrência de uma menor demanda mundial de produtos de exportação e redução de investimentos diretos.

Os ataques terroristas, de acordo com o presidente do BID, provocaram mudanças profundas nos planos políticos e sociais do mundo. As dificuldades na América Latina devem resultar em taxas menores de crescimento, maiores déficits em conta corrente, retração nos fluxos financeiros e de investimentos externos em comparação com os últimos anos. Para ele, esses fatores terão inevitáveis repercussões sobre a situação social da região, principalmente em seus níveis de pobreza e desemprego.

Competitividade

Um estudo do BID divulgado no fim de semana, intitulado Competitividade: O Motor do Crescimento, endossa as declarações do presidente da instituição. O relatório mostrou que os níveis de produtividade e competitividade da América Latina continuam muito abaixo da média dos países desenvolvidos e das economias emergentes da Ásia, do Oriente Médio e do Leste Europeu.

Na década passada, quando a região promoveu reformas liberalizantes, a renda per capita cresceu, em média 1,5% por ano, abaixo da média dos países ricos (2%) e dos chamados "tigres asiáticos" (3,5%). Naquele período, o grau de concentração de renda na América Latina aumentou em praticamente todos os países. Atualmente, 170 milhões de latino-americanos - uma em cada três pessoas - vivem abaixo da linha de pobreza, portanto, com renda inferior a US$ 2 (cerca de R$ 5,60) por dia.

Os únicos países onde a produtividade total dos fatores (critérios estabelecidos pelo BID, como crédito, recursos humanos, novas tecnologias etc) cresceu de forma significativa nos anos 90 foram Chile, Argentina e Uruguai. No Brasil, a taxa média de crescimento da produtividade total dos fatores foi negativa. O estudo avaliou que o Brasil possui um índice "deficiente" de instituições públicas. Nesse indicador, o Brasil ocupa a 47ª posição mundial e a 7ª entre os países latino-americanos, sempre atrás do Chile. No índice de tecnologia, está em 49º lugar no ranking mundial e em 8º na região, atrás do México, Chile e Argentina.

O cenário é ainda pior no capítulo que trata da produtividade: o índice por trabalhador põe o Brasil em 38º lugar, num grupo de 47 economias. Ao analisar o chamado "estoque de capital humano", o estudo conclui que, dentro da América Latina, o Brasil, com 16% da população sem escolaridade e mais de 30% apenas com o primário, aparece no grupo que possui estoque "intermediário".

O levantamento do BID revela que o ingresso no sistema educacional não é o principal problema da região. O problema é a incapacidade de manter as crianças nas escolas. "Para os grupos nascidos em 1970, praticamente todas as pessoas em Taiwan completaram a escola primária, sendo que, em Honduras, El Salvador, Brasil, Nicarágua e República Dominicana", 30% do mesmo grupo não completou, informou a instituição. "O único país (da AL) onde a conclusão do curso primário é quase universal é a Argentina."

Na área financeira, o BID apurou que quase 30% dos empresários brasileiros consideram a carência de crédito um obstáculo ao crescimento de seus negócios. Quanto a impostos e regulações, o Brasil aparece disparado em primeiro lugar no ranking latino-americano: quase 70% dos empresários reclamam desse obstáculo. No caso chileno, pouco mais de 10%, o menor índice da região. Os empresários brasileiros também reclamam da instabilidade das regras do "jogo": quase 70% crêem que as constantes mudanças das políticas são obstáculos ao crescimento. Nesse item, o Brasil só perde em desconfiança para Venezuela e Equador.

IBGE

Para o pesquisador inglês David Gordon, da Universidade de Bristol, que participou nesta segunda-feira de um fórum mundial sobre pobreza, na sede do IBGE, no Rio, as noções de mercado livre e de preços baseados em oferta e demanda foram importantes pilares da economia, mas não colaboraram em nada para a grande preocupação mundial do século 21: a diminuição da pobreza.

O consenso entre os participantes do fórum é de que fracassou a teoria das últimas quatro décadas do século 20, de que a redução da miséria seria conseqüência da expansão econômica. "A maioria das agências das Nações Unidas e o Fundo Monetário Internacional (FMI) não tiveram sucesso em noções como a de crescimento econômico amplo. Há mais pobres hoje do que há 40 anos", disse David Gordon, citando como exemplo muitos países africanos e repúblicas que constituíam a antiga União Soviética.

O presidente do IBGE, Sérgio Besserman, afirmou que a desigualdade social brasileira é "uma cicatriz que deveria servir para o mundo mirar-se, porque o Brasil, neste aspecto, é muito parecido com o mundo". Besserman sustenta que o Brasil, assim como o mundo, é desigual "porque tem riqueza e pobreza". Ou seja, não está nos casos em que a desigualdade é pequena, porque a miséria e a fome predominam. "O Brasil não é um país pobre, apesar do tamanho da população pobre", disse.

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