Greenspan diz que política monetária não evita a recessão
(Economiabr.net, com informações do The Financial Times*, 2001-10-22)

O presidente do Fed, Alan Greenspan, admitiu  que a política monetária não pode alterar radicalmente o ciclo econômico dos Estados Unidos. No depoimento que faz periodicamente à Comissão Econômica Mista do Congresso, Greenspan reafirmou sua confiança nos fundamentos da economia do país, mas disse que há muitas incertezas no curto prazo.

"Eu sempre argumentaria que a política monetária é efetiva, que a política fiscal, sob certas condições é efetiva, mas sob nenhuma circunstância eu jamais argumentaria que a política monetária e fiscal perfeita eliminará o ciclo econômico. Não eliminará". Para Greenspan, a política monetária, ou seja, a administração da taxa de juros, pode "melhorar" os altos e baixos da economia.

Greenspan respondia a uma pergunta do deputado Lamar Smith, republicano do Texas, sobre o real alcance da política monetária diante das expectativas do público em geral. O presidente do Fed saiu-se com uma explicação histórica algo tautológica, mas mesmo assim interessante: "há uma visão por aí de que a política monetária e a política fiscal podem evitar a ocorrência de qualquer recessão... Mas antes de 1913 não havia banco central... e eu não creio que a expressão 'política monetária' significasse algo para alguém.... assim, não havia política econômica, mas mesmo assim houve muitas recessões e alguma outra coisa deveria estar causando-as. E o que obviamente as estava causando é, de fato, o que é o problema principal hoje: as pessoas".

Para Greenspan, o que a política monetária pode fazer é "melhorar" o processo de expansão e contração, ou seja, tentar torná-los o mais curtos e menos dramáticos possível. Respondendo à pergunta do presidente da Comissão de Economia, Jim Saxton, republicano de Nova Jersey, Greenspan disse que não sabe em que medida ainda há impactos significativos que possam ser verificados na economia, decorrentes das quedas nos juros. "São avaliações difíceis de fazer".

Mesmo assim, ele diz que os impactos da agressiva redução de juros conduzida pelo Fed desde o início do ano são facilmente visíveis. A atual política monetária "é responsável, ao menos parcialmente, pelo fato de que, após um forte declínio no fim do ano passado, a economia... tem estado decididamente estagnada... Mesmo diante da extraordinária contração de riqueza no ano passado, a economia, suportando tremendas pressões, tem se mantido em pé".

Para o presidente do Fed, ainda é muito cedo para avaliar o verdadeiro impacto que os atentados de 11 de setembro tiveram na economia. Os dados mostram uma situação que "de forma alguma" é tão ruim quanto muitos chegaram a prever, mas que ainda não conseguiu se levantar. Segundo Greenspan, já existem alguns indícios de recuperação, em relação à queda forte de todos os indicadores logo depois dos atentados. O setor automobilístico teve uma forte recuperação, graças, principalmente, a uma política de generosos descontos e financiamentos a juro zero. A ocupação dos vôos já está quase igual aos níveis de antes de 11 de setembro. Mas, alertou, o ritmo de recuperação tem sido desigual ao longo dos diversos setores da economia.

Quanto aos aspectos negativos, Greenspan destacou uma percepção mais acentuada do risco de negócios no país, "naquilo que agora reconhecemos como um mundo mais hostil".

A principal conseqüência seria sobre o ritmo de crescimento da produtividade. Ao dificultar a circulação de mercadorias, que ficaram presas em aeroportos e fronteiras, os atentados contra os EUA evidenciaram o grau de risco de empresas que trabalham com níveis de estoques próximos de zero e cadeias logísticas de fornecimento baseadas nos princípios do just in time, ou seja, direto do caminhão do fornecedor para a linha de montagem. O risco de operar dessa forma disparou e as empresas terão novamente que incorporar o custo de estoques maiores às suas composições de preço. Além disso, será necessário mais investimento em segurança e em sistemas alternativos e backups que permitam continuar operando mesmo diante de circunstâncias trágicas ou emergências.

Isso certamente causará uma queda nos níveis de produtividade. Mas será uma queda única, ou seja, de impacto restrito no tempo e que não deve afetar os fundamentos de longo prazo da economia, segundo Greenspan. 

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