Greenspan faz análise sobre benefícios e problemas da globalização

O presidente do Fed, Alan Greenspan, fez diversas críticas à maneira como muitos países emergentes financiam seu crescimento e perdem controle de suas dívidas. Em um recado que serve perfeitamente ao Brasil e sobretudo à Argentina, Greenspan disse que o uso excessivo de recursos de curto prazo para financiar obrigações de longo prazo são "um combustível aguardando a explosão". Tanto pior, destacou, "se as reservas de moeda estrangeira são inadequadas, e as taxas de câmbio são fixas". Tal vulnerabilidade pode aumentar a probabilidade "de default e potencial contágio em mercados emergentes", disse o presidente do BC dos EUA, em um discurso na quarta-feira à noite, em Washington, durante a inauguração da nova sede do Instituto Internacional de Economia.

Mas, num pronunciamento de grande alcance político, Greenspan vai muito mais longe. Faz o que é provavelmente a mais lúcida análise, em tempos recentes, dos benefícios e problemas da globalização. É evidente que, como presidente do banco central do país mais rico do mundo e aquele que mais se beneficiou do aumento do comércio internacional e da integração das economias, Greenspan é a favor da globalização. No entanto, ele não vê o fenômeno econômico mais importante do pós-2ª Guerra apenas como uma panacéia, o remédio que vai curar todos os males ou o deus ex machina que resolverá todos os conflitos.

Ao contrário, Greenspan reconhece que a globalização carrega em si um potencial enorme de criar novos conflitos e que é preciso lidar com eles. Ou corre-se o risco de que os verdadeiros benefícios da globalização sejam perdidos. "A globalização (...) precisa ser vista como reflexo da liberdade humana em termos econômicos por uma vasta maioria de seus participantes. Tem que ser vista oferecendo oportunidades para elevar os padrões de vida de todos os participantes no sistema de comércio mundial", afirma.

Primeiro, Greenspan situa os três principais grupos que comandam o debate: os que acreditam que só o capitalismo é consistente com a liberdade política e individual; aqueles que reconhecem o capitalismo como melhor forma de se elevar os padrões de vida, mas que se sentem incomodados com "a aparente incivilidade das práticas de mercado e seus resultados; e os que consideram as sociedades organizadas a partir da busca por lucro fundamentalmente imorais.

Nesta última categoria ele situa os milhares de manifestantes que protestaram nas ruas de cidades do Primeiro Mundo, durante reuniões do FMI e do G-7. "Ainda que guiados pelo desejo de promover uma melhor sociedade global, a maioria dos que protestam mantém visões errôneas sobre o funcionamento dos mercados e sobre como interpretar seus resultados", embora ressalve que "certamente, esses resultados podem às vezes parecer perversos ao observador ocasional", diz.

Após notar que esses opositores da globalização freqüentemente "parecem preferir regimes politicamente impositivos", Greenspan diz que "ao contrário de muitas opiniões correntes, os países em desenvolvimento precisam de mais globalização, não menos". E no mesmo parágrafo emenda: "a ação provavelmente mais efetiva que os países industrializados poderiam implementar para aliviar o terrível problema da pobreza em muitos países em desenvolvimento seria abrir, unilateralmente, seus mercados para as importações desses países".

A seguir, ele reconhece que as turbulências que a economia global atravessou nos últimos anos são fragilidades inerentes ao sistema. "Apesar da capacidade patente que a globalização tem de elevar padrões de vida (...) a crise financeira de 1997-98 e o estresse aparente em algumas economias emergentes no ano passado sublinham evidentes deficiências estruturais em nosso sistema global".

Essa é a deixa para criticar as opções feitas por economias que "não conseguem isolar suas posições financeiras internacionais das pressões políticas domésticas". Nenhuma nação, observa, "busca deliberadamente se expor ao estresse financeiro e à falência. Mas as pressões políticas podem levar a ações que aumentam os riscos". Essas pressões são difíceis de administrar. De fato, nota, "o caminho de menor resistência tem sido o de empréstimos externos ao invés da confrontação de negociações politicamente difíceis".

Ao caracterizar uma crise financeira como um repentino desaparecimento da credibilidade de um país, Greenspan caracteriza como uma condição necessária para a estabilidade do sistema financeiro global a "manutenção de uma significativa capacidade de empréstimos não utilizada".

Depois de argumentar que a capacidade de empréstimo de um país não pode ser conhecida a não ser em retrospecto, Greenspan afirma que "na raiz, a capacidade de levantar empréstimos não é uma questão técnica; é profundamente política, o que significa que é dirigida pelos valores e cultura de uma sociedade".

Greenspan reconhece os benefícios que a globalização trouxe para os EUA, entre eles o de ter atraído grande volume de capital, que ajudaram a construir a poupança interna do país e aumentar a produtividade dos trabalhadores.

E finaliza: "A globalização (...) precisa ser vista como reflexo da liberdade humana em termos econômicos por uma vasta maioria de seus participantes. Tem que ser vista oferecendo oportunidades para elevar os padrões de vida de todos os participantes no sistema de comércio mundial. Se falharmos em defender este ponto, renovadas barreiras ao comércio poderão preencher o espaço, e os avanços associados à globalização poderiam ser reduzidos ou mesmo revertidos. Se isso acontecer, uns poucos vão se beneficiar. O mundo, certamente, não."

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