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A globalização do duplo mergulho
(Stephen Roach, 2002-11-11)
Com a globalização, surge um ciclo de negócios mundial com flutuações cada
vez mais sincronizadas. Ligações transfronteiriças no comércio, capital e informação atam juntos, como nunca acontecera antes, países e regiões aparentemente
autônomos. Os sinais dessa convergência cíclica são inconfundíveis.
Foi certamente o que se verificou no último Outono, na sequência do choque induzido pelo terrorismo nos EUA. E pode bem ser o caso de hoje, com as probabilidades de um duplo mergulho nos EUA a aumentarem. Quais são as probabilidades de que um duplo mergulho (double dip) dos EUA possa transformar-se num duplo mergulho mundial?
A resposta, é claro, repousa decisivamente na extensão em que a economia global está sob a dependência da economia dos EUA. A esse respeito, verifica-se que o mundo hoje centrado nos EUA não proporciona um panorama tranquilizador. Pelos nossos cálculos, o crescimento da economia americana representou 40% do aumento cumulativo do PIB mundial a partir de 1995. Isto é essencialmente o dobro da participação americana de 21% na economia global (com base no esquema da paridade do poder de compra, PPC, do FMI). Este
fato reflete um surpreendente desequilíbrio na composição do crescimento global. Nos últimos cinco anos concluídos em meados de 2000, o crescimento da procura interna real foi em média de 5% ao ano nos EUA – mais que duplicando os anémicos ganhos de 2% atingidos em outros lugares do mundo. Goste-se ou não, os EUA tornaram-se os consumidores de primeira e última instância. E é precisamente isso que agora constitui um problema para o mundo como um todo. Ignorado a possibilidade da emergência imediata de uma nova fonte de crescimento – em jargão de economista, uma revitalização
espontânea da procura não-EUA – uma perda de dinamismo do crescimento americano pode demonstrar-se excessivamente perigosa para a economia global mais vasta.
Os impactos serão certamente desiguais ao redor do mundo. Os parceiros americanos da NAFTA (Área de Livre Comércio da América do Norte) – Canadá e México – serão atingidos duramente. Em 2001, as exportações do Canadá para os EUA foram responsáveis por pelo menos 34% do seu PIB total; no México, essa proporção foi de 24%. O próximo nessa contagem é a região asiática, excluindo o Japão. Para o conjunto dessa região, as exportações para os EUA foram responsáveis por pelo menos 9% de seu PIB. Hong-Kong (29%), Singapura (27%), e Malásia (23%) estão no topo da lista das vulnerabilidades. A China e a Índia, entretanto, são
exceções importantes no outro extremo da escala, pois as exportações para os EUA representam apenas 4,5% do PIB chinês e por apenas 2,1% do da Índia. Como estas são as duas maiores economias da região – representando dois terços do PIB baseado na PPC da área – a China e a Índia poderiam absorver razoavelmente o choque de um duplo mergulho americano nos seus agregados regionais. Mas com o resto da Ásia,
exceto o Japão, muito mais dependente do ciclo de procura dos EUA, é difícil imaginar que um duplo mergulho americano não os prejudicasse.
Nos demais lugares do mundo, o impacto direto de um duplo mergulho americano seria mais nuançado. Para a Eurolandia, a taxa de exposição agregada aos EUA é de 2,6%, com altas na Irlanda (13%) e Bélgica (5%), compensadas por baixas na Espanha (1%), Itália (2%), França (2%), e Alemanha (3%). O Japão também está no extremo inferior na tabela de exposição aos EUA. Em 2001, suas exportações com destino aos EUA representaram uns meros 3,5% do seu PIB. Essas medições do impacto
direto podem ser enganosas, entretanto. Mesmo que algumas regiões do mundo não estejam
diretamente expostas aos EUA, elas podem estar ligadas a outras regiões que sejam muito dependentes das condições da procura nos EUA.
Conseqüentemente, na medida em que a Ásia fosse prejudicada pelos EUA, a Euroland também sofreria – apenas de um modo mais
indireto. Isto foi, de fato, o que sucedeu na queda global do comércio (global trade crunch) de 2001.
E é aí que surge o lado escuro da globalização. O 'problema' é que a globalização elevou a importância do ciclo comercial como motor do crescimento do PIB mundial. O comércio global – que atingiu um recorde de 25% do PIB mundial em 2000 – agora desempenha um papel mais importante do que nunca ao transmitir rapidamente impulsos
econômicos por todo o mundo. Assim, quando o ciclo de negócios cai, o PIB mundial segue logo atrás. Este é precisamente o risco no clima de hoje, visto que começamos a cortar as nossas previsões mundiais quanto ao comércio mundial a um ritmo rápido e frenético. Nossas últimas estimativas apontam para um
anêmico aumento de 1,9% no volume de comércio mundial em 2002. Isto é drasticamente inferior ao crescimento de 3,2% que fora estimado em Março último e representa uma subida muito insatisfatória após um raro declínio absoluto em 2001 (-0,2%). Além disso, nós apenas começamos a rebaixar as nossas previsões comerciais para 2003 – com nossa
atual estimativa de um aumento de 7,3% muito inferior à estimativa feita em Março de um ganho de 8,6%.
Tudo isto pinta um quadro de um mundo muito centrado nos EUA que seria pressionado a evitar um suave remendo cíclico se a economia americana experimentasse uma recessão de duplo mergulho. Sinais antecipados de tal resposta global por simpatia já estão no ar. A Europa está a enfraquecer primeiro, com a Alemanha – de longe a maior economia da região – a abrir o caminho. Mas a confiança nos negócios deteriorou-se para todos na Euroland, e em Junho a taxa de desemprego na zona Euro atingiu a maior alta em dois anos: 8,4%.. Além do mais, um Euro mais forte, combinado com uma
atividade global em perda de velocidade, significa problemas mais à frente para o potencial de exportação da região. A
refletir essas tendências, já reduzimos nossa previsão para o crescimento do PIB da Euroland para apenas 1,1% em 2001 (de 1,4%) e para 2,8% em 2003 (de 3,2%). A Ásia também está a demonstrar sinais de queda. As exportações taiwanesas estiveram abaixo das expectativas em Julho, com um declínio
seqüencial de 0,9% em relação a Junho. Também em Junho a produção industrial do sector
manufatureiro da Malásia caiu 9% em relação ao mês anterior. Além do mais, há indicações recentes de um pico de
atividade industrial na Coréia e de um enfraquecimento da procura doméstica em Singapura e em Hong Kong. Estes são sinais inconfundíveis, a meu ver, de uma notável sincronização de um ciclo de negócios centrado nos EUA.
O debate acerca do duplo mergulho está longe, é claro, de estar superado. Enquanto a maior parte dos analistas estão afanosamente a rever em baixa os seus números relativos ao segundo semestre de 2002, poucos têm admitido a possibilidade de uma reincidência total – um declínio real do PIB. De minha parte, continuo a atribuir uma probabilidade de 60-65% nesse resultado para os EUA no segundo semestre deste ano. E o fluxo de dados continua a parecer cada vez mais ameaçador – os sinais mais recentes são uma acumulação de stocks entre os grossistas maior do que o esperado, seguido de vendas mais fracas do que o esperado entre os retalhistas no mês de Julho. Trata-se de sinais clássicos que precedem os perigos cíclicos. Neste contexto, minha opinião é de que ainda temos muito trabalho pela frente com o rebaixamento das nossas previsões dos negócios mundiais. Se isto for
correto, a maior parte dos atores na economia global centrada nos EUA provavelmente vai estar no mesmo barco. Se os EUA derem um duplo mergulho, suspeito que o resto do mundo iria segui-lo rapidamente.
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Stephen Roach, analista do Morgan
Stanley.
Tradução de Marisa Choguill.
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