A exclusão digital é uma praga. Limita o
mercado de tecnologia da informação no Brasil. Cria um novo padrão de
desigualdade. Impede o acesso da maioria da população a uma inesgotável fonte
de conhecimentos. Estimativas mostram que somente 10% dos lares dispõem de um
computador, mas nessa base instalada o acesso à internet é ínfimo. Um grande
potencial de desenvolvimento e de negócios tem sido pouco aproveitado.
O quadro vem mudando gradualmente. Há
casos de sucesso envolvendo a iniciativa privada ou até mesmo governos. Mas a
renovação é lenta. Um levantamento feito pelo professor Fernando Meirelles,
vice-diretor da Fundação Getúlio Vargas e Escola de Administração de
Empresas de São Paulo (FGV/Eaesp), aponta que 10 em cada 100 computadores do País
têm acesso à internet, número igual à média mundial.
Entre 2000 e 2001, quando Meirelles fez o último
levantamento, o índice brasileiro era de 8 em cada 100 computadores e o
mundial, 7. A média mundial cresceu mais rápido. A venda de computadores no
Brasil e no mundo apresentou uma queda inédita no ano passado. Mas os efeitos
dessa retração são mais graves nessa parte do planeta, onde se espera que
novos consumidores entrem no mercado.
Preços em queda
O preço dos computadores, em dólar, está em
queda, mas o equipamento, segundo Meirelles, ainda está longe de se tornar uma
commodity, como a televisão e o telefone. O preço médio dos computadores caiu
15% ao ano nos últimos 15 anos. “Em reais essa queda não é equivalente,
principalmente em função da desvalorização cambial, mas o preço vem
caindo”, diz. O problema é o baixo índice de nacionalização das máquinas
- a maioria dos componentes é importada. Em fevereiro de 2002, um computador
com processador Intel Celeron de 1.3 GHz, 128 MB de memória e sistema
operacional Windows XP, custava entre R$ 1.890 a R$ 2.300 no grande varejo
convencional ou online. Hoje, um computador da mesma marca, com configuração
semelhante, chega a custar R$ 2.899. Ou seja, um aumento de 53%, enquanto o real
desvalorizou 31,53% frente ao dólar no mesmo período. Enquanto isso, o projeto
do computador popular de R$ 500, lançado há pouco mais de dois anos, não saiu
da prancheta. Alguns protótipos chegaram a ser feitos, mas não foram
comercializados, informa o Ministério das Comunicações.
De acordo com dados do Comitê para Democratização
da Informática (CDI), com base em um levantamento da Fundação Getúlio Vargas
(FGV/RJ) com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), 26,496
milhões de brasileiros têm acesso à internet de alguma forma, ou seja, 17,7%
da população. Conclui-se, com isso, que 149,445 milhões de cidadãos ainda não
estão incluídos digitalmente. “A inclusão digital envolve uma mudança
cultural e para isso um longo tempo é necessário. Nada é imediato”, diz o
gerente de tecnologia e de projetos da consultoria Roland Berger & Partners,
Alessandro Fontenelle.
Essa realidade foi sentida pela Stefanini com a
experiência na comunidade da favela Vila Dalva, na Zona Oeste de São Paulo. A
empresa investiu na criação de um centro de profissionalização em informática
dentro da favela voltado para atender crianças pobres há 1,5 ano. Com a convivência,
o instituto descobriu a necessidade de prestar outros tipos de serviços além
da formação profissional. Hoje a entidade oferece também cursos de inglês,
português e até de etiqueta além de palestras para melhorar a autoestima dos
alunos. Não é só o preço do computador que separa o brasileiro do mundo
digital. Há também antigos problemas de educação básica.
Conforme dados levantados pela Roland Berger, a
penetração da internet gira em torno de 6% da população, o que dá ao Brasil
a 33o posição no ranking mundial. Enquanto isso, a liderança está com o
Canadá - país com a população menor que o estado de São Paulo -, com cerca
de 50% da população conectada, seguida de perto pela Suécia (49,6%) e Estados
Unidos (48,8). No Brasil, São Paulo detém 36% dos usuários, e, em segundo
lugar está o Rio de Janeiro, com 15%.
Distribuição de renda
“Um crescimento acima de 10% na base de usuários
é esperado, mas concentrado nas classes A e B, porque o custo da internet
discada representa cerca de 13% do orçamento das classes C e D”, diz
Fontenele. “O crescimento da penetração deverá depender, em parte, de uma
melhor distribuição de renda e do aumento ao acesso a PCs por parte da população”.
Alguns trabalhos vêm sendo feitos por grandes
multinacionais do segmento de TI, como Hewlett-Packard, Microsoft, Sun
Microsystems, EDS, Intel e IBM, que contam, hoje, com executivos cuja preocupação
é definir investimentos em programas de inclusão social. Há casos de experiências
frutíferas com Organizações Não-Governamentais (ONGs), como CDI, Instituto
Ayrton Senna, Projeto Aprendiz e Meninos do Morumbi. Essas iniciativas garantem
uma imagem de responsabilidade social para as empresas e têm efeitos práticos
positivos. “Essas iniciativas visam não somente reduzir a exclusão digital
mas também assegurar um mercado futuro”, diz Meirelles. Trata-se, afinal, de
um trabalho de desenvolvimento de mercado.
A HP conta com a premiada Garagem Digital, que
formou 120 jovens da favela do bairro do Morumbi, em São Paulo, no ano passado,
mas teve problemas em sua formatação. “No início não nos preocupamos em
buscar empregar os alunos, apesar de alguns terem conseguido emprego ou mesmo
montado uma microempresa de webdesign, diz o coordenador do comitê de
responsabilidade social da HP, Juarez Zortea.
Segundo Zortea, a segunda versão da Garagem
Digital, que começou em março, terá essa preocupação. A primeira garagem
consumiu R$ 600 mil e a previsão de Zortea é de a empresa investir R$ 1 milhão
no projeto este ano.
A Microsoft investe mundialmente nada menos que
mais de US$ 200 milhões por ano em programas de inclusão digital em países
subdesenvolvidos ou em desenvolvimento, lembra o gerente de relações públicas
da companhia, Carlos Ximenes. No Brasil, a empresa desembolsou R$ 15 milhões
nos últimos três anos.
O parque de computadores pessoais (PCs) no País,
em torno de 13 milhões de unidades, de acordo com dados da International Data
Corporation (IDC) e parte dele é obsoleta. Em 2002, o desempenho do mercado de
PCs foi fraco, registrando queda de 7,6%, totalizando total 3.059.546 unidades,
entre desktops e notebooks.
No momento, o programa mais abrangente com relação
à inclusão digital que está sendo tocado pelo Ministério das Comunicações
é o governo eletrônico. A empresa vencedora, Gilat do Brasil, fez uma proposta
de fazer todo o serviço (fazer quiosques, comprar CPUs, pagar acesso à
internet, treinar monitores, etc) por R$ 78 milhões. O contrato, assinado no
final de 2002, foi suspenso pelo atual Ministro Miro Teixeira e a Gilat ainda
está no prazo de estudo das novas prioridades pedidas pelo ministro. Ainda não
há data marcada para a próxima reunião.
O governo do estado de São Paulo desenvolve
desde setembro de 2001 o Programa Acessa São Paulo visando a inclusão digital
da população carente das classes D e E. Atualmente existem 127 Infocentros --
66 na capital, dois na Grande São Paulo e 59 no interior do estado. São 57
Infocentros Comunitários, 57 Infocentros Municipais e 13 Postos Públicos de
Acesso – estão em funcionamento. O programa cria espaços - conhecidos por
Infocentros - e instala computadores com acesso à Internet em entidades comunitárias
na periferia da capital paulista (Infocentro Comunitário), em locais de grande
fluxo (Postos Públicos de Acesso – Poupatempo, Bom Prato), e em cidades do
interior do estado.
Todos Infocentros contam com monitores da própria
comunidade capacitados para orientar os usuários no uso da Internet e estimular
a criação de conteúdos. A previsão é de que até o final de abril existam
137 Infocentros segundo o coordenador do programa, Fernando Guarnieri. O secretário
de política tecnológica empresarial do Ministério da Ciência e Tecnologia,
Francelino Grando, registrou que a principal ação do ministério é estimular
a produção de softwares por empresas nacionais para atender com maior eficiência
e menor custo as redes que serão montadas pelo Ministério da Educação nas
escolas públicas, ou pelo Ministério das Comunicações com os recursos do
Fundo de Universalização dos Serviços de Telecomunicações (Fust), que tem
como objetivo colocar cerca de 300 mil computadores nas escolas públicas do País.
O secretário de Educação a distância do
Ministério da Educação, João Teatini, disse que a orientação do novo
governo é intensificar o ProInfo, Programa Nacional de Informática na Educação
criado pela administração anterior com ênfase na criação de Núcleos de
Treinamento Educacional (NTE) gerando capacidade educacional para dar suporte técnico
e pedagógico ao programa. “A inclusão digital é uma prioridade do MEC para
proporcionar avanço da educação com novas tecnologias”, afirma.
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Rosana Hessel e Cristina Guimarães
publicado originalmente na Gazeta Mercantil
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