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Revisitando o nosso processo de independência
(Allan Claiton de Oliveira, 200-09-07)

Ao comemorarmos o feriado de 7 de setembro, dificilmente debruçamo-nos sobre questionamentos acerca do verdadeiro sentido da independência brasileira e o que ela significou como um processo de derrocada do sistema colonial-imperialista para a ascensão da liberdade e democracia para uma sociedade; ou se somente atendeu a interesses políticos e econômicos decorrentes da consolidação do capitalismo industrial na Europa do século XIX

Foram três séculos de colonização, da produção açucareira à exploração de metais preciosos. O sistema de produção baseado na agricultura de exportação e no trabalho escravo eliminava a possibilidade do surgimento de um mercado interno na colônia. A economia brasileira dependia das relações com a metrópole e esta com o resto da Europa. Por vezes, a expansão do mercado consumidor de café na Europa e na América do Norte teve como conseqüência um crescimento da produção e uma retomada do trafico de escravos no Brasil 

Com a submissão de Portugal a Inglaterra e a fuga da corte portuguesa para o Brasil, as relações Inglaterra-Portugal-Brasil começaram a mudar. A aliança comercial possibilitou o fim das tarifas alfandegárias no Brasil para os comerciantes da Inglaterra, entretanto os interesses ingleses, principalmente da industria têxtil de algodão, não eram favoráveis à preservação do domínio político e econômico de Portugal sobre o Brasil: eles queriam Portugal fora formalmente do comércio com o Brasil.

O domínio do mercado colonial português constituía um empecilho aos interesses da maior potência do mundo no século XIX: a Inglaterra. O relacionamento com a Inglaterra, através de acordos comerciais como "o tratado Anglo-Brasileiro de 1810, que impunha, no Brasil, tarifas mais altas aos portugueses do que aos próprios britânicos, uma imposição que discriminava a 'mãe-pátria' e representava um severo golpe as já frágeis chances de reconciliar Portugal com o Brasil e seu novo status enquanto sede da monarquia"

Em outras palavras, Portugal e posteriormente o Brasil se viram obrigados a sacrificar sua independência econômica, pois dependiam do apoio e do relacionamento militar e político com a Inglaterra. Esse foi o preço pelo reconhecimento internacional da sua independência, para o Brasil 
Sobre o mercado de trabalho escravo, a pressão inglesa para o fim da escravatura divergia enormemente com os interesses dos proprietários de terra. Muitos estudiosos argumentavam que "o motivo principal para o baixo crescimento econômico do Brasil durante o século XIX era o setor agrícola, onde as baixas rendas e a demanda inelástica intrínsecas ao trabalho escravo, restringiram o ritmo do crescimento no resto da economia" . Entretanto as forças externas, como conseqüência da Revolução Industrial na Inglaterra, fortaleceram o trabalho escravo ao impulsionar a demanda de produtos como o açúcar e café exportados para a Europa. 

A condição de Reino-Unido com o Brasil e o domínio comercial inglês, intensificou o descontentamento de portugueses que viviam na metrópole. Como conseqüência, a "Revolução do Porto" em 1820 reivindicava a volta do Rei e a recolonização do Brasil. Esse sentimento de insatisfação nasceu em Portugal, para a elite brasileira a situação parecia ser cômoda e muitos defendiam a manutenção da parceria com Portugal. 

A continuidade do sistema monárquico culminou com a independência do Brasil, através das mãos do próprio colonizador: o príncipe português D. Pedro, após a partida do Rei D. João VI do Brasil. Cabe observar que a Inglaterra desejava o Brasil independente e também que o sistema monárquico se mantivesse. "A única questão é se o Brasil, independente de Portugal, será uma monarquia ou uma republica [...]. A preservação da monarquia numa parte da América é objetivo de vital importância para o Velho Mundo", dizia um escritor inglês da epóca. 

O sentimento anti-monarquista no Brasil não foi suficiente para provocar o movimento republicano, a base social predisposta a mudanças, a favor da independência e do republicanismo se resumia em pequenas revoltas regionais; diferentemente do que ocorreu na América do Norte em 1776 e na América espanhola em 1818.

A sociedade, que se forma após a nossa emancipação, preserva as mesmas características da sociedade colonial com uma diferença: agora, o Brasil era uma nação politicamente independente. A escravidão é mantida, o latifúndio agro-exportador ainda é a base da nossa economia . No mercado econômico mundial, o Brasil não mudou de papel: o de produtor de matéria prima, continuando na periferia do capitalismo mundial, como bem convinha aos interesses das nações industriais. 

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Allan Claiton de Oliveira, economista, é editor da EconomiaNet www.economiabr.net
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