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O Capitalismo Autoritário
(José Lucas Alves Filho, 2002-04-22)

A existência do Capitalismo Autoritário não seria possível sem antes haver sido desenvolvida toda uma Superestrutura legal autoritária, um sistema de leis e normas que regulassem o Poder do Capital Financeiro, verdadeiro gestor dessa nova etapa do Capitalismo, onde a especulação, a jogatina financeira, a movimentação intensa dos capitais de uns países para outros, de acordo aos juros mais atraentes e à maior segurança de resgate de títulos são os requisitos indispensáveis para o surgimento, em toda plenitude, do domínio do capital financeiro – especulativo sobre o capital produtivo, baseado principalmente na indústria de bens e no consumo desses bens.

Para tanto foi que assistimos durante o século passado, a instauração em quase todos os países da Política Autoritária, espelhada nos regimes mais opressivos e repressivos que a Humanidade já conheceu, fato indispensável ao estabelecimento da Superestrutura Legal, e de sua aceitação pelos mais diversos povos e Nações. Não seria possível a aceitação de uma Política Econômica tão artificial e contra os interesses individuais e coletivos, que busca, em lugar do progresso social o - retrocesso social; em lugar do aumento constante do poder aquisitivo e do conforto material - a dispensa desses valores e sua troca pelo conformismo, pelo fatalismo e pelo mínimo vital que garanta apenas a sobrevivência humana. 

Será que a Humanidade enlouqueceu, perdeu suas referências históricas e submeteu-se passivamente às regras impostas por um Contrato Social que beneficia apenas a mais ínfima camada social contemplada pelo Capital Financeiro – Especulativo em prejuízo da esmagadora maioria da população trabalhadora e daqueles grupos de empresários que ainda acreditam no desenvolvimento econômico como passo indispensável ao progresso social? E porque a adesão tão completa a tal sistema por uma enorme quantidade de intelectuais e pessoas pensantes, formadores de opinião, políticos conservadores ou políticos liberais, e ainda a atitude passiva, de lideranças trabalhistas, sindicatos e partidos, que se dizem de esquerda ou progressistas? 

Existe um aparente “consenso” na aceitação do Capitalismo Autoritário, chamado por eles de “Neoliberalismo”, como se fosse algo inevitável, fatal, independente da vontade dos homens, conseqüência lógica do desenrolar da história, e daí a impossibilidade de lutar contra os fatos, acostumar-se ao desemprego geral, à falta de alternativas econômicas produtivas, ao baixo nível de consumo da população e assistir inermes ou complacentes, ao destino das massas empobrecidas, às grandes mortandades, aos genocídios, como coisas normais de uma época “além da história”.

No máximo, parte-se para a denúncia, para as campanhas filantrópicas contra a fome e a miséria, para as manifestações contra a violência diária e pela Paz no mundo. Tudo dentro de uma religiosidade hipócrita, que repete a hipocrisia da burguesia e da aristocracia em seus tempos de glória.

É como se hoje o Poder estivesse nas mãos da “Classe Média”, ou pequena – burguesia intelectual e ela fosse a responsável pelas guerras, pela fome, pela violência, daí a atitude de “mea culpa”, a divisão de responsabilidades entre todos (“somos todos responsáveis”).

Talvez, por saber que a administração do aparelho do Estado se encontra mais diretamente nas mãos dos tecnocratas, o que é uma das características do Capitalismo Autoritário e já que os efeitos das políticas econômicas estabelecidas pelas normas dos Bancos Centrais e pelo FMI chegam a ser calamitosos e quase sempre desastrosos para a Sociedade, estes mesmos tecnocratas e a intelectualidade que lhes dá apoio e teoriza sobre os planos mirabolantes de equilíbrio das economias nacionais na corda bamba do controle fiscal e estabilidade monetária, e por isto sintam-se realmente no Poder, vendo o efeito de suas normas, de suas portarias, de suas “invenções” econômicas para a preservação do Capitalismo Autoritário.

Por isso nos perguntamos: Qual a chave para explicar uma inação tão grande, frente a um poder tão arbitrário? Que causas contribuíram para o domínio tão completo do Capitalismo Autoritário? Serão várias, as respostas. Mas duas, ou melhor, três, se sobressaem por sua evidência: a primeira, a repressão havida durante todo um século, generalizada por toda a Humanidade que, tanto contribuiu para forjar, implantar e fazer prevalecer a Superestrutura legal e jurídica autoritária e sua aceitação tácita pela Sociedade, ante a força das armas e o medo da violência; e a segunda, o sistema de comunicações implantado mundialmente, que permitiu os surgimento de uma mídia todo – poderosa, desde a invenção do rádio, passando pelo cinema e chegando à televisão, que se tornaram instrumentos de uma massa de propaganda diária e permanente, generalizada e dirigida a exaltar um país, um sistema de vida, um Império, que era capaz de absorver as mentes e torná-las, através de uma força hipnótica, ideologicamente submissa, seguramente alienada.

A terceira causa, decorrente de ambas causas já nomeadas, por sua vez mais técnica e menos ideológica, também deve sua base ao desenvolvimento das comunicações, dando ao Capitalismo Autoritário a sua ferramenta de operação: a informática, que permitiu a movimentação instantânea de capitais através do mundo, permitindo assim o jogo, a especulação, em escala nunca esperada, e tornando o dinheiro, aquele símbolo da riqueza, na própria riqueza, em lugar da produção, dos produtos das fábricas, dos bens de consumo duráveis ou não.

Para manter o Capitalismo Autoritário dominante é necessária ainda a existência de uma força de ocupação interna, em cada país, vez que todo este sistema, arbitrário e antipopular não pode ser exercido democraticamente. Mas, para tanto, e após tantas ditaduras, não seria um exército de ocupação regular a melhor forma de estabelecer esse domínio, mas a própria polícia interna, civil e militar, ou a guarda nacional, as polícias municipais, e finalmente as polícias privadas, os guardas de segurança de empresas e indivíduos, todos assalariados, como se fossem simples trabalhadores exercendo suas funções em tempos de paz.

Esta função de “exército de ocupação” contra o povo tornou-se óbvia e tão explícita e declarada como aceita sem discussão pela Sociedade, quando o desemprego geral, a miséria multiplicada, também multiplicou a população marginalizada, criando no Exército Industrial de Reserva – População Estancada, de acordo à teoria marxista, um verdadeiro Exército Marginal, armado e disposto a resistir individualmente, sem pretender o Poder de Estado, mas na busca de participar da euforia do Capital Financeiro que é a classe dominante do Capitalismo Autoritário. As experiências mafiosas do século passado nunca pensaram em ter tanta força, gente e armas como as gangues atuais do Narcotráfico e do Contrabando como viemos a conhecer no final do século XX.

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José Lucas Alves Filho
- Economista pernambucano, formado na Faculdade de Ciências Econômicas de Montevideo. É professor de Metodologia Dialética em cursos de 'pós-graduação'nas universidades de Pernambuco, Consultor de Empresas, escritor e dramaturgo, entre outras atividades. Publicou trabalhos de economia como "Não à Teoria do Subdesenvolvimento" (Kairós, SP, 1983); "S.O.S., Homem do Campo"(Kairós, SP, 1984); "Capital Ilusão"(Ed. Coragem, SP, 1986); "O Fim do Desemprego ou A Jornada de Seis Horas"(Ed. do Autor, Recife, 1999)
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