Equilibrio do mercado
externo – a chave para o desenvolvimento (José Lucas Alves Filho, 2003-11-10)
“Um Ideário da Balança Comercial”
A Balança Comercial brasileira tem demonstrado nestes últimos cinqüenta
anos períodos alternados de déficits e superávits, acompanhando a política
de mercado exterior implementada pelos sucessivos governos, conforme
sintetizamos no quadro abaixo:
Comportamento da Balança Comercial entre 1947 e 2000 (bilhões de dólares)
Período
Importação
Exportação
Comercio Total
Saldos da Balança
% de Saldo sobre Total
1947-1956
38,35
45,18
83,53
+ 6,83
8,00%
1957-1962
21,25
21,96
43,21
+ 0,71
1,64%
1963-1967
15,70
20,26
35,96
+ 4,56
12,69%
1968-1973
40,61
40,82
81,43
+ 0,21
0,26%
1974-1980
134,83
111,18
246,01
- 23,65
9,60%
1981-1994
266,60
416,70
683,30
+ 150,10
22,00%
1995-1999
271,32
246,61
517,93
- 24,71
4,77%
Verificando os resultados de períodos determinados, escolhidos pelo
comportamento similar da economia brasileira nos vários anos desses períodos,
encontramos algumas coincidências singulares, capazes de se reconhecer
com facilidade, caracterizando esses períodos.
Vemos, por exemplo, que os períodos de evidente crescimento da economia
como um todo apresentou, na balança comercial, saldos próximos a zero,
como no chamado período JK, cujos efeitos começaram a se fazer sentir no
ano de 1957 e se estenderam ate o governo de Jango, em 1962 e no chamado
período do “milagre brasileiro”, da ditadura militar que se costuma
localizar entre os anos de 1968 e 1973.
No período JK a soma dos saldos da balança apresentam apenas, em seis
anos um superávit para as exportações de 710 milhões de dólares, o
que representa apenas 1,64% do total do comercio exterior brasileiro no
mesmo período; no caso do “milagre”, também em seis anos, o saldo
favorável as exportações é ainda menor, de 210 milhões de dólares, o
que representou tão somente 0,26% do total do nosso comercio exterior
nesse período. Nos dois períodos as importações significaram a
modernização de nossa industria e a incorporação de novas tecnologias
e as exportações representaram o crescimento produtivo e a conquista de
novos mercados. Não foram períodos de alta inflação, que provocasse
exportações pela desvalorização de nossa moeda.
Naqueles períodos onde o crescimento foi modesto, oferecendo índices próximos
ao aumento vegetativo da população, os saldos positivos, ou negativos, não
importando aqui se houve superávit ou déficit, apresentam uma relação
com o total do comercio exterior entre 4% e 13%, o que é relativamente
significativo, mas se coloca como um resultado também modesto.
Estes períodos ocorreram entre 1947 e 1956 (dez anos) e 1963/1967 (cinco
anos), com saldos positivos para a exportação, e com índices de saldos
em relação ao total do comercio, respectivamente, de 8% e 12,69%; ou nos
períodos entre 1974/1980 (sete anos) e 1995/1999 (cinco anos), com saldos
negativos para a exportação, mas mantendo índices em relação ao total
do comercio de 9,6% e 4,77%, respectivamente.
Os anos onde a economia mais sofreu com a estagnação, crise e inflação,
foram aqueles que apresentaram a maior diferença de saldos entre importação
e exportação, curiosamente beneficiando as exportações com uma media
de superávit anual de 10,7 bilhões de dólares, mas que significava
apenas o resultado da desvalorização de nossa moeda, enquanto a economia
estagnava, o desemprego aumentava, e as crises se sucediam um após outra.
Foi o período recente mais longo, entre 1981 e 1994, catorze anos,
portanto, reconhecidamente “perdidos”.
Nestes anos, o saldo de 150 bilhões de dólares positivos representou 22%
do total de nosso comercio exterior, que foram enterrados inexplicável e
absurdamente para custear o pagamento de juros da divida externa, sem
nenhum beneficio para a produção ou consumo da população brasileira.
Certamente que grande parte desse crescimento das exportações e sua
diferença com o volume de importações correspondia a uma desvalorização
acentuada de nossa moeda, que tornava nosso produto exportável muito
barato e, por outro lado, a retenção de importações que demonstrava a
falta de crescimento produtivo, a estagnação da economia interna.
Devemos lembrar que o cenário atual denota outra vez uma acentuada
diferença entre exportações e importações, também pelo estancamento
da economia e a falta de atualização tecnológica de nosso parque
industrial. Nosso Ministro Mantega, do Planejamento, não deve deixar-se
levar pela euforia do Ministro Furlan, do Desenvolvimento, responsável
pelas exportações, que vibra com os resultados favoráveis pois, a médio
e longo prazos quem sai perdendo é o planejamento estratégico de nossa
economia.
Assim, a política de grandes exportações sobre pequenas importações não
é uma política que deva ser seguida por um governo que deseja provocar o
desenvolvimento da Nação, mas a busca do equilíbrio da balança
comercial, sempre com números crescentes, certamente, deve ser a melhor
opção de política de mercado externo, como tem sido demonstrado
historicamente em nossa vida econômica. Não são os superávits da Balança
Comercial que determinam a saúde da economia nacional mas a competência
de sua industria aliada a fortes índices de crescimento, tanto das
importações como das exportações.
Uma política que priorize tanto o crescimento das exportações, a expansão
dos mercados já conquistados e a expansão de novos mercados, mas que
priorize também a atualização tecnológica produtiva, sem o que o pais
deixa de ser competitivo perante as economias mais desenvolvidas. Uma das
razoes do fracasso econômico da ex - União Soviética que gerou sua
dissolução foi justamente o abandono do acompanhamento tecnológico que
daria maior diversidade e qualidade a seus produtos. A proposta na época
tomou a palavra “Perestroika”, ou reestruturação no sentido de
atualização e modernização da economia produtiva.
Nossa política de firme disputa do mercado internacional exige
posicionamentos de equilíbrio, mais coesão latino-americana, como se
desenha agora. O Brasil passa a ocupar o lugar de liderança que lhe é
devido, tornando-se porta-voz dos menos afortunados no concerto mundial.
A moeda forte que favorece as importações ou a moeda fraca, que favorece
as exportações é outra falácia da economia capitalista absurda.
Qualquer ganho neste aspecto trás os dois lados contrários, na mesma
moeda: ou beneficia uma casta de latifundiários modernos, pela exportação
de soja, açúcar e outros produtos, elevando os preços internos e
prejudicando a produção industrial, ou beneficia apenas os grandes
industriais causando a miséria no campo.
Já esta na hora do bom senso imperar na economia brasileira. Tentamos
demonstrar que o cambio é resultado da capacidade industrial, agropecuária
e de serviços, da qualidade desses produtos e do uso de tecnologias
modernas que nos torne competitivos diante das outras moedas, e não o
respeito religioso a uma moeda superpoderosa por sua convertibilidade e
poderio militar imposto a ferro e fogo sobre um mundo estarrecido e
impotente.
Nossa capacidade e auto-sustentacao produtiva nos indica que nossa moeda
é superior as demais, inclusive ao dólar, porque precisamos menos das
importações, porque somos capazes de produzir 95% do que consumimos,
enquanto paises como Estados Unidos e Alemanha e outros mais, ditos
desenvolvidos, importam cerca de 30% do que consomem. E porque, no
conjunto dos preços dos produtos, o saldo é favorável a nossa produção
interna, quiçá em torno de 18% a maior, o que coincide com o saldo de
nossas exportações sobre as importações no computo de mais de meio século,
que ficou em 14,5% maior.
Mas não queremos que isto seja a norma: buscamos o equilíbrio da balança
comercial, como ocorreu no melhor período econômico mais recente, o dos
anos JK, onde parece que havia um senso valido tanto para o
desenvolvimento da produção industrial como para o crescimento das
exportações, e ainda uma perspectiva de busca da igualdade regional como
forma de dar ao pais todas as oportunidades de crescimento de seu mercado
interno.
Da mesma forma, não buscamos uma moeda mais valorizada que as demais,
procuramos a identificação das varias moedas latino-americanas entre si,
para a formação de um vasto mercado regional, como primeiro passo para a
ambição maior – a queda de todas as barreiras tarifarias na economia
global, onde os paises possam comercializar seus produtos livremente,
segundo suas capacidades, recursos e grau de desenvolvimento tecnológico,
o que permitira aos poucos uma integração das varias regiões do mundo,
um desenvolvimento mais homogêneo, como queremos para as varias regiões
de nosso pais.
É um pouco do que Lula declarou recentemente na Suíça, na cúpula dos
paises mais desenvolvidos onde o Brasil busca assento e voz, na
perspectiva de um dia obter também o direito de voto. A queda de
barreiras comerciais faz parte de uma proposta maior, de mercado comum
mundial, sem entraves burocráticos e sem predominância de paises
imperiais. Passa pela queda do prestigio norte-americano, pela derrota de
sua política de inviabilizar a ONU ou as decisões em grupo, como
demonstrou cabalmente com a guerra contra o Iraque e agora no abandono da
reunião do G8, esvaziando a cúpula, para mostrar que quer se isolar em
uma política imperialista unilateral.
Passa pela união dos grandes paises do mundo, como a China, a Índia, o
Brasil, a África do Sul, a Indonésia que, por sua vez são lideranças
naturais em cada continente, expressando as necessidades e interesses dos
paises em desenvolvimento, ao mesmo tempo em que expressa os anseios da
maior parte da população mundial. Estes paises juntos representam cerca
da metade da população mundial, mas podem representar, como lideranças,
77% dos povos da terra. A unificação de uma política comum para
enfrentar os graves problemas da humanidade, como a fome, o desemprego e a
violência, podem ter efeitos incalculáveis na política mundial e na
divisão de poder entre as Nações.
O mercado internacional poderá ser uma das armas com que os povos em
desenvolvimento se enfrentarão com as grandes potencias. Eles terão a
maior parcela de mercado de consumo, se a fome for abolida, e o poder
aquisitivo aumentar com a jornada menor de trabalho, reduzindo assim também
os índices de violência nesses paises. Com a capacidade de consumo
ampliada, as trocas entre os paises em desenvolvimento, principalmente dos
produtos agrícolas e matérias primas, serão intensificadas, tornando inócuas
as barreiras alfandegárias da Organização Mundial do Comercio e o
autoprotecionismo dos paises mais ricos. Então eles serão obrigados a
abrir seus portos aos paises em desenvolvimento, pois não se sustentarão
sozinhos.
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Jose Lucas, 63 anos, economista
Jaboatão dos Guararapes -PE
joselucasalvessbr@yahooo.com.br www.temppolivreseishoras.org.br
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