A tecnologia e o fim do
emprego (André Ferrari, 2002-03-03)
Há uns 20 dias atrás escrevi um artigo
chamado “O fim da concorrência”, no qual discuti a evolução da
concorrência entre as corporações. A concorrência no futuro será
entre cadeias produtivas, entre grupos organizados, e não mais uma
disputa pontual entre empresas. Portanto, a empresa que melhor se
relacionar com seus parceiros terá vantagem competitiva. Recebi uma
tonelada de e-mails que em sua maioria acabavam chegando a um mesmo ponto,
ou seja, a preocupação com os empregos. Os leitores estavam mais
interessados em se manterem nas organizações do que entenderem a
dicotomia de conceitos da concorrência empresarial. Então resolvi
escrever este artigo.
De quem é a culpa pela falta de empregos? Que lei invisível é essa que
leva miríades de profissionais a rua? Alguns nem pestanejam e “rasgam o
verbo” dizendo que a culpa é do governo. Outros são mais holísticos
em colocar a culpa no sistema. A acusação também pode ser mais direta,
com algo como “a culpa é do F.H.C” ou do ministro ”X” ou “Y”.
Até Arminio Fraga já tem culpa no cartório, e isso sem falar do FMI ou
dos Estados Unidos. De qualquer forma, em tempos que George Bush é
indicado para o prêmio Nobel da Paz, até Jorge Amado pode ter sua
parcela de culpa na escassez de empregos. Mas, dentre todos e-mails um
chamou-me a atenção. Essa missiva digital acusava a tecnologia de vilã
da história.
Não! A tecnologia não é responsável pela diminuição no número de
empregos. Na Revolução Industrial aconteceu o mesmo movimento, ou seja,
as máquinas acabaram com milhares de empregos na agricultura, mas abriram
outras tantas oportunidades na indústria recém-surgida. O que ocorreu,
na verdade, foi a migração do emprego e não a sua extinção. Os
ciclos econômicos são preponderantes na criação e extinção dos
empregos e estamos passando por um deles.
O emprego está se sofisticando e com isso algumas posições, antes
essenciais, estão deixando de existir. A modernização está suprimindo
empregos antigos com a mesma velocidade com que cria novos. Além
disso, os novos empregos criados são, geralmente, mais bem remunerados. O
maior problema da tecnologia é exigir uma mão-de-obra mais qualificada,
ou seria melhor dizer um “cérebro-de-obra” mais qualificado.
É nesse ponto que mora o perigo! Em países como o nosso, infelizmente, o
que causa a escassez de empregos não é a tecnologia em si, mas o baixo nível
de educação. Sem dúvida, a educação melhora a empregabilidade. O
balanço da modernização é positivo! Não nos esqueçamos que a
tecnologia foi responsável pela criação de aproximadamente 12 milhões
de novos postos de trabalho nos EUA onde só o mercado de software é três
vezes maior do que o setor industrial automobilístico, considerado um dos
maiores empregadores dos EUA.