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Absolutismo
global
Cesar Boschetti
Após a derrocada do comunismo, alguns tolos de plantão ousaram proclamar o
fim da história e a morte das utopias. Passados pouco mais que uma década,
é cada vez mais evidente que o atual sistema é tão utópico quanto o
falecido e a história... Bem! Só mesmo os tolos para quererem escrevê-la
por antecipação.
No pensamento de Marx (1818-1883), o comunismo expressava o ideal de uma
sociedade voluntariamente cooperativa e sem a presença do Estado que
tenderia a desaparecer. Lênin (1870-1924) e seus sucessores na ex-União
Soviética transformaram o comunismo numa doutrina que pregava o controle
totalitário de todos os aspectos da vida social. A sociedade, radicalmente
homogeneizada, passou a ser controlada por uma pequena elite, dita
representante do interesse operário. O Absolutismo retirou do homem a
motivação e espírito empreendedor, privando-o ainda da liberdade de
discordar. O resultado todos conhecem. Por outro lado, a cooperação voluntária
preconizada por Marx é utópica. O bicho homem está longe de ser
cooperativo o que, diga-se de passagem, é um paradoxo. O convívio em
sociedade pressupõe algum tipo de cooperação entre os indivíduos. É o
que ocorre entre as formigas e as abelhas, por exemplo, irracionais porém
sociáveis. Neste ponto confesso que os termos racional e irracional me
confundem.
Na presente utopia temos o capitalismo global, fundamentado na propriedade
privada de todos os meios de produção e distribuição, dirigidos por
indivíduos ou corporações e sujeitos às regras do livre mercado. Em
princípio, o sistema estimula a iniciativa e capacidade empreendedora dos
indivíduos. O livre mercado estabeleceria, teoricamente, a competição
entre os diversos agentes, resultando no autocontrole do binômio preço-qualidade.
Indiretamente o sistema também fomentaria a cooperação entre empresas ou
grupos de trabalhadores em busca de maior competitividade. Novamente,
sistema e agentes não comungam do mesmo grau de racionalidade.
A lei de mercado deu lugar à lei do mais forte e, não necessariamente,
mais competente no sentido amplo do termo. Desta forma, a filosofia do
sistema também foi desvirtuada. Temos de novo uma espécie de Absolutismo
que não aceita contestação. É a estupidez se repetindo com novo rótulo.
O curioso é que o "Manifesto Comunista" de Marx e Engels, apesar
de não ter conseguido apresentar uma solução satisfatória, fez um diagnóstico
preciso e atual do vício capitalista.
Hoje, como resultado dessa nova utopia, temos um Mundo completamente anacrônico.
Perto de 1 bilhão de desempregados; superprodução de alimentos de um lado
com milhões de subnutridos de outro; cerca de 60% da população global
abaixo de um padrão decente de vida; 10 trilhões de dólares especulativos
circulando pelos mercados financeiros mundiais sem produzirem um único
prego; trabalho infantil e semi-escravo em países subdesenvolvidos e até
mesmo em alguns desenvolvidos e, finalmente, como aberração maior do
paradigma da propriedade privada, o imenso contingente dos sem nada.
Afora isso, temos também o pseudo progresso tecnológico, conseqüência da
volúpia selvagem que transforma experimentos de laboratório, passíveis de
investigação mais profunda e séria, em produtos de prateleira. – O
Mundo tem pressa! – Dizem os deslumbrados. Mas pressa de quê? Pressa de
destruir o meio ambiente? Pressa de reduzir o homem a uma mera mercadoria?
Pressa para chegar a lugar nenhum? Ciência sem consciência e rigor não é
ciência.
A pressa que realmente deveríamos ter, ou seja, a de sanar os desatinos que
colocam em risco o futuro do planeta, está totalmente obstada pela
irracionalidade. Como está bom para quem está por cima hoje, que se danem
os de baixo e o futuro das próximas gerações. Neste sentido, é
perfeitamente compreensível, embora reprovável, atitudes agressivas contra
o establishment, como as ocorridas contra a Organização Mundial do Comércio
na Suíça. Aos de baixo realmente só resta uma saída. Partir para a ignorância
já que gritar e ulular, como prescrevia Nelson Rodrigues, não bastam para
mostrar o óbvio. Parece que o fim da pré-história humana ainda está por
ser escrito. O Fórum Mundial Social de Porto Alegre pode ser o começo de
um sistema mais inteligente. A Internet, mesmo que parcialmente controlada e
desvirtuada, pode ser um caminho.
Os textos aqui publicados
são de responsabilidade de seus autores e podem não expressar a opinião
da EconomiaNet
Publicado em Fecereiro de 2001
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Cesar Boschetti é físico, com mestrado e
doutorado na área de materiais semicondutores e dispositivos optoeletrônicos
para o infravermelho. Trabalha como Tecnologista no LAS - Laboratório
Associado de Sensores e Materiais (http://www.las.inpe.br/)
do INPE - Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (http://www.inpe.br). Além de publicações
científicas em revistas especializadas nacionais e internacionais, escreve
regularmente críticas e crônicas para os dois principais jornais da região
do Vale do Paraíba.
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