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Utopias em xeque

Para Marx (1818-1883), o comunismo significava uma sociedade cooperativa e sem a presença do Estado que tenderia a desaparecer. Lênin (1870-1924) e seus sucessores resolveram ir na contramão. Transformaram o comunismo em Totalitarismo de Estado, privando o indivíduo de motivação criadora e liberdade de discordar. O resultado da estupidez é bem conhecido por todos. Além disto, a cooperação preconizada por Marx, infelizmente, é utópica ou, quem sabe seja mais apropriado dizer, inteligente demais para os padrões humanos. É paradoxal, mas parece que na disputa entre a estupidez e a inteligência, esta última acha-se em franca desvantagem.

De estupidez em estupidez chegamos ao atual capitalismo selvagem. Um sistema fundamentado na propriedade privada dos meios de produção-distribuição, dirigido por indivíduos ou corporações e sujeito às regras do livre mercado. A definição é bonita e vai direto ao nosso ego. A liberdade do mercado globalizado foi elevada à condição de lei Divina pelos fundamentalistas neoliberais. Quem ousa discordar disso é imediatamente tachado de esquerdista retrógrado. Entretanto, a falácia da modernidade e do progresso para todos torna-se a cada dia mais insustentável. Tudo não passa de uma quimera. Os "vencedores" acham que terão paz num mundo coalhado de miséria e ignorância. Os "bem sucedidos" crêem no destino belo e formoso sobre milhares de milhões de "incompetentes" excluídos. Os "iluminados" acreditam que terão mais chances que as baratas num amanhã com água e ar infectados pelos interesses mesquinhos.

Trata-se de uma forma de terror amplamente aceita pela neoestupidez globalizada. Um sistema que exclui e reduz as chances de paz e segurança para o futuro do homem. Essa seita do Capital como fim único, do Darwinismo Econômico como lei e do individualismo como estratégia, pode massagear o ego de muita gente mas, definitivamente, não atende a humanidade. Isso é óbvio. Não é preciso ser profeta para perceber isso. As disputas em nome de religião ou outra coisa qualquer é apenas uma máscara para o instinto estúpido e mesquinho do homem. Infelizmente, essas pendengas estúpidas encontram abrigo na fragilidade do ser degradado pela exclusão. O miserável faminto, por puro instinto de sobrevivência, precisa apegar-se a qualquer coisa que dê algum sentido a sua condição absurda.

É nesse bizarro caldo de cultura que o submundo do crime tece sua teia. Enquanto o Estado e as demais instituições, "democráticas e civilizadas", não derem ao indivíduo um mínimo de dignidade e esperança, qualquer coisa é melhor que a indiferença cínica da sociedade de consumo. Estamos nos transformando em gado. Nossa atitude bovina perante as injustiças sociais já é quase uma "normalidade". Tal qual andróides pré-programados, exaltamos o consumismo que faz da abundância de alguns a escassez da maioria. Achamos graça na banalização midiática de nossas virtudes e defeitos. Só ficamos chocados quando a farsa do Maravilhoso Mundo Novo é brevemente exposta por algum evento inesperado e de grande impacto cinematográfico. De resto limitamo-nos a encolher os ombros. Estamos armando a pior e mais terrível de todas as bombas. A bomba social e ambiental, solução derradeira para nossa arrogância de verme pensante.
- E daí !! Quando essa bomba estourar eu já estarei morto mesmo !!
- Pois é, meu caro otimista acomodado!! É por essa razão que o futuro é das baratas.

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Cesar Boschetti
é físico, com mestrado e doutorado na área de materiais semicondutores e dispositivos optoeletrônicos para o infravermelho. escreve regularmente críticas e crônicas para os dois principais jornais da região do Vale do Paraíba, além de publicações científicas em revistas especializadas nacionais e internacionais

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