» Artigo

Justiça infinita contra a manipulação
(Gislene Bosnich, 2001-09-22)

Um belo dia a justiça infinita sentiu-se ferida e perguntou à dívida eterna porque tanta hostilidade e esta respondeu: É o preço da história construída.

Esta história construída ao longo do século XX ainda pode custar muito a nós, trabalhadores, cujo papel é denunciar ativamente o rumo que o mundo pode tomar a partir de um tal dia 11 de setembro; um dia como outro qualquer fosse qualquer outra a nação a ser atingida, aliás como foram outros dias em que as mortes parecem ter valido menos. Não escreve sob a pecha do inédito. Nem tenho as respostas. Possuo muitas dúvidas; o que não me impede de escrever a quem compartilha, no mínimo, destas dúvidas.

A perspectiva que se abre contraditoriamente parece querer fechar-nos na clausura do capitalismo e de sua generalidade banalizada por pessoas que escrevem e falam o que bem entendem para uma platéia desconhecida que, na maioria, tem pouca condição de desempenhar um entendimento crítico.

Parece que o American way of life vai ruir junto com as conquistas mínimas. E Hollywood não vai fazer nenhum filme sobre a liberdade de expressão que esta indústria mesma forjou.

As rádios norte-americanas começam a impedir a veiculação de uma série de músicas (Stairway To Heaven ? Led Zeplin, por exemplo) que tenham relação com o episódio que abalou a dita dignidade norte-americana; um cartaz estampado em postes de Nova Iorque diz, em letras que nos remetem aos filmes de faroeste; Procura-se Vivo ou Morto Osama Bin Laden. A resposta é tão destrutiva quanto os aviões que se chocaram com as torres e o prédio do pentágono. Mas parece que é comum esperar este tipo de atitude dos Estados Unidos da América, que se tornaram o baluarte do modus vivendi, como diria uma amiga, da contemporaneidade.

E agora a nova ordem para os norte-americanos é: consumam!, consumam! E, ao que tudo indica, a indústria que vai crescer mesmo e reativar seu antigo padrão guerra-fria de produção é a indústria bélica.

Um jornal brasileiro publicou que Osama teria relação com o narcotráfico latino-americano. Parece que não surtiu o efeito desejado. Daqui a pouco vão dizer que Osama tem filho na favela da Rocinha no Rio de Janeiro. Quer dizer que o terrorista mais famoso do mundo passou incólume todos estes anos pelas polícias federais da América Latina? Por que será que só agora uma notícia como esta vem à tona? A notícia tem sempre o pé na verdade? Ou esta ?verdade? é feito mercadoria? Vende-se quando interessa ou guarda-se para um melhor momento de especulação? Será que é para trazer os governos latinos para o comando dos Estados Unidos, utilizando notícias nebulosas para justificar a adesão aos ataques-respostas. E se os governos latino-americanos não apoiarem? Pois, com certeza - se não manipularem tudo completamente - a população e mesmo os trabalhadores não apoiarão o apoio à retaliação norte-americana.

Caro leitor, desconfie das afirmações mais contundentes, pois, acreditar nelas também é uma forma de adesão ao imperialismo que cria necessidades de consumo e de raciocínio, de compreensão. (Se quiser desconfiem inclusive desta, mais saibam que não escrevo raivosa, e sim: indignada por toda a manipulação) Eles dizem sempre, quando muito, as suas verdades que trancafiam qualquer mínima liberdade de expressão real que conquistamos parcamente ao longo de mais de duas décadas de ditadura. E não me refiro as eleições, por favor, refiro-me a poder escrever agora o que penso de forma sensata a partir do que a realidade histórica e cotidiana nos deixou de herança. Amnésia ? o filme ? pode parecer a história de um homem, mas pode ser uma metáfora para nos fazer saber como a ausência de memória e de interpretação desta memória nos torna suscetíveis as mais pavorosas experiências.

A América Latina não pode ser de novo subserviente aos mandos e desmandos norte-americanos. Não nós, trabalhadores, pelo menos. Não aderir à proposta de retaliação pode significar também o enfrentamento direto com a potência imperialista. Nos precisamos lutar contra a especulação. Eles podem dominar nossas ações conscientes e libertárias, como já fizeram. Eu cresci na ditadura e isto tem um peso, uma herança grotesca, quando aos seis anos minha professora foi retirada da sala por dois policiais. Era 1978. Eu não entendia muito. Não entendia porquê, para a ditadura, havia dois parágrafos nos livros de história. E nada sobre torturados e mortos. Nenhuma linha sobre a operação Brother Sam. E agora, há muito tempo, depois de compreender o enredo: eu não quero envelhecer sobre outra ditadura. Nós não podemos deixar isto acontecer novamente, por tudo que lutamos e que precisamos continuar a lutar. Não à direita, não à direita extrema, que se expressa no terror. Chega desta dominação rota, rasgada e estúpida. Nós temos mais força, nós contruímos a riqueza da humanidade. Nós, os que trabalhamos.

________________
Gislene Bosnich, jornalista e socióloga, repórter da Gazeta Mercantil S/A - Informações Eletrônicas. bosnich@zipmail.com.br

Os textos aqui publicados são de responsabilidade de seus autores ou fontes e podem não expressar a opinião da Economiabr.net