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São Pedro, Aneel e os liberais
por Gislene Bosnich

Vamos pedir coerência aos liberais, deixemos o neo para lá. Prega o liberalismo, aquele que remete ao economista Adam Smith - o teórico da mão-invisível, que o Estado não deve intervir na economia, pois o mercado é auto-regulável e outras balelas argumentativas que acabam convencendo metafisicamente algumas pessoas sobretudo àquelas que são proprietárias dos meios de produção. Sabe por quê ? Porque é óbvio que todas as empresas que estão sob controle do Estado interessam aos empresários/capitalistas. 

Todos os setores em que a iniciativa privada puder estar presente; ela estará. Entendamos, e isto é pressuposto, que em todos os setores onde há lucro. Como não somos um país em que os trabalhadores possam optar em que gastar o parco salário que recebem, quando não estão desempregados, acabam mesmo é pagando as contas de água, luz e comprando os quase todos alimentos que faltam para complementar a péssima cesta que, em geral, recebem. E este trabalhador é que vai ser multado. Afinal, como é que vai se gastar menos do quase nada. Só se o trabalhador não tomar banho.  (Aliás, houve um bancário que foi entrevistado e sugeriu isto) Pois bem.

A tragédia da defasagem de energia se avolumou - conforme dados mostrados até pelos apresentadores dos telejornais da Rede Record (Edir Macedo também deve ter seus motivos particulares) - ao longo da década de 90. Não por acaso quando o Presidente Collor de Mello foi eleito e implementou a abertura aconchambrada da economia brasileira, seguindo cambaleante a cartilha liberal já posta em prática pelo menos uma década antes pela Senhora Thatcher e o Senhor Reagan. O presidente Fernando Henrique tratou de corrigir as falhas e tornar o projeto liberal, que privilegia sobretudo a privatização, mais linear em relação ao que mandavam os chefes lá da América do Norte. 

O interessante de toda esta situação é que percebamos o quanto o projeto liberal é sustentado pelo Estado. Agora que falta energia e esta está privatizada a culpa é da agência governamental (ANEEL). Em síntese, a culpa vai ser sempre do Estado, porque irremediavelmente o modo de produção capitalista precisa do Estado para pagar pela viabilização de seus interesses. A coerência que cobro dos senhores liberais não pode, na realidade, existir, pois, não seria o caso de fazer pressão para que os dirigentes das empresas concessionárias investissem aquilo que eles dizem que o governo não fez ? E agora a culpa também está sendo compartilhada por São Pedro. Por gentileza, por gentileza.

Um Estado laico e vergonha na cara não fazem mal a ninguém !  Os jornalistas e economistas-articulistas de plantão nada falam sobre esta contradição imanente. Ao contrário, reforçam junto à opinião pública estes conceitos de que o Estado deve ser mínimo; deve ter intervenção mínima na economia. Mas tudo, absolutamente tudo é opostamente executado. É como eu e outras milhares de pessoas dizemos e explicamos quase que cotidianamente: no liberalismo o Estado só é mínimo para o trabalhador que, se não lutar, acaba perdendo todos os direitos conquistados. 

O liberalismo é a tendência mais expressivamente contraditória, até porque para ser coerente deveria querer privatizar o Estado, mas quem é que acredita que eles mesmos pagariam suas contas ? Por exemplo, o Banco Nacional de Desenvolvimento Social - o famoso BNDES - “empresta” ou melhor “financia” e avaliza as transações dos banqueiros privados que adquirem os bancos estatais, mas quem já ouviu falar ou mesmo leu que o BNDES financiou algum projeto de casa popular. Estou referindo-me a casa e não a pombais.

Cada vez que se abre o jornal e lê-se no editorial a defesa do Estado mínimo é melhor observar o crédito do autor. Porque se ele for assalariado de verdade com alguma consciência crítica e não tiver vendido-a: a opinião não deve ser favorável. Estado mínimo para quem ? Para o Cacciola ?

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Gislene Bosnich, jornalista e socióloga, repórter da Gazeta Mercantil S/A - Informações  Eletrônicas. bosnich@zipmail.com.br

Os textos aqui publicados são de responsabilidade de seus autores e podem não expressar a opinião da EconomiaNet

 

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Gislene Bosnich, jornalista e socióloga, repórter da Gazeta Mercantil S/A - Informações  Eletrônicas. bosnich@zipmail.com.br

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