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Internet na China e em Cuba: lição para todos nós Em aula que ministramos há algumas semanas, lembramos aos nossos
alunos que uma das coisas a que só damos valor quando perdemos é a
liberdade. Todos nós, usuários da Internet, estamos acostumados a esse
mundo meio anárquico que é a Web: cada um diz o que quer (freqüentemente
deixando de lado preceitos mínimos de educação), muitas vezes fazendo a
apologia do ódio, racismo, drogas, pornografia, etc. Evidentemente, a mídia
convencional enfrenta realidade semelhante, sendo o bom senso a única
alternativa razoável para controle (no bom sentido) do que se divulga; a
alternativa mais eficaz é a censura, que no entanto acaba sempre sendo
utilizada como forma de privar-nos da verdade e, principalmente, como forma
de ocultar os desmandos dos poderosos do momento. Diante desse panorama, acreditamos ser útil verificarmos o que está
acontecendo na China; não custa lembrar que esse país é governado por uma
ditadura feroz, que controla a maior população da Terra com punho de ferro
- nas últimas décadas, milhões de chineses morreram de fome ou vítimas
de programas de limpeza ideológica, tudo como resultado dos esforços do
regime para se manter. Agindo de forma coerente com o que tem feito em outras áreas, o
governo chinês acaba de implantar medidas para controle dos internautas
chineses: nos chat rooms, somente poderão ser discutidos temas previamente
aprovados pelo governo, sendo as salas monitoradas; as notícias
deverão obrigatoriamente ser provenientes das agências oficiais; notícias
de agências estrangeiras necessitarão de aprovação especial do governo
para serem veiculadas - tudo isso com um detalhe: essas regras valem apenas
para os sites mantidos por órgãos do governo - sites mantidos por
particulares não poderão divulgar qualquer tipo de notícia! Aqueles que
desobedecerem a essas determinações estarão sujeitos a advertência e a
seguir suspensão, temporária ou definitiva; evidentemente, com um governo
ditatorial, outras medidas poderão ser tomadas contra webmasters e outras
pessoas ligadas aos sites. Profissionais que acompanham o mercado prevêem que essas regras
farão com que os que mantém os sites se autocensurem, que aumente a oferta
de conteúdo neutro, como material sobre esportes, culinária (num pais onde
há fome...), etc. Oficialmente, o governo proibiu que sites revelem segredos de
estado, proponham a queda do regime comunista ou movimentos separatistas,
discutam problemas étnicos (a China é formada por inúmeras culturas e
etnias) e divulguem "o culto do mal" - esse item parece
especialmente destinado a proibir a presença na Web da seita "Falun
Gong", que há algum tempo vem desafiando o governo chinês. O uso da Internet cresceu na China em meados dos anos 90 - em
dezembro de 2000, os internautas chineses eram 22 milhões; desde seu
aparecimento, os líderes chineses tem tentado utiliza-la apenas como uma
ferramenta de agilização de negócios e de educação, tentando de todas
as formas impedir que a Web se torne uma ferramenta para manifestação de
dissidência política (de qualquer tipo) - quando o presidente da Iugoslávia
Slobodan Milosevic foi forçado a abandonar o cargo em outubro passado,
a mídia estatal ficou em silêncio, enquanto o assunto, inclusive com
apelos à luta pela democracia, foi discutido pela Internet. Confirmando a validade de nossas opiniões acerca do tema, o jornal
El Pais, de Madrid publica em sua edição de 29 de dezembro algumas informações
acerca de como a Internet vem sendo tratada em Cuba, pais cujo grau de
democracia pode ser avaliado pelo fato de ter seu governo controlado pelo
mesmo homem há mais de 40 anos! Em Cuba, o Governo exige que o uso da Internet esteja "de
acordo com os princípios éticos da Revolução" e "não afete os
interesses e a segurança do país" - evidentemente isso pode parecer
bastante razoável, mas para aqueles que conhecem um pouco a relação
discurso "versus" prática dos regimes totalitários, fica claro
que isso significa que apenas aqueles cidadãos que gozam da
confiança do governo podem acessar a rede, o que resulta em 40 mil
internautas para uma população de 11 milhões (0,36%) - só para
ilustração, no Brasil temos 9,7 milhões de internautas para cerca de 170
milhões de habitantes (5,7%). Como ferramenta para controle do uso da rede, o governo cubano dispõe,
desde 1996, do decreto-lei 209, que entre outras
coisas atribui prioridade para conexão "às pessoas jurídicas e
instituições de maior relevância para a vida e desenvolvimento do país"
- em bom português, apenas àqueles em que o governo confia - e pelos
números, parece que confia em poucos... Além disso,
existe uma comissão formada por representantes de diversos órgãos do
governo que aprova as conexões e regula o uso da rede, mais uma vez
configurando o controle quase que total de seus usuários. Mesmo nos locais
de trabalho de onde o acesso é possível, os controles são muitos: poucos
tem acesso às senhas que permitem a conexão, as visitas a sites mantidos
por jornais e revistas do exterior são proibidas, etc.. Pretextos também não faltam: o governo afirma que os computadores
são poucos, que as linhas telefônicas além de escassas são de má
qualidade, que antes de pensar-se em Internet há que se pensar na garantia
de educação e saúde a toda a população, etc. Fica uma dúvida: que relação
tem a garantia de saúde e educação com o acesso à Internet?
Será que a rede não pode ser uma ferramenta útil, talvez indispensável,
para a educação? Ou será que, vivendo na contramão da História o
governo da ilha sente-se confortável em ser um dos 20 do mundo que pratica
esse tipo de restrição? Mas, a necessidade desenvolve a criatividade: assim como
foram pirateados com parabólicas caseiras canais de TV do estrangeiro (também
proibidos, que foram em seguida codificados pelo governo e em uma semana
decodificados pelos mesmos piratas), internautas cubanos vem utilizando a
rede com o uso de senhas obtidas clandestinamente - geralmente compradas de
funcionários corruptos das organizações autorizadas a se conectarem. Como dissemos na referida aula, evidentemente, o controle total da
Internet por qualquer governo será muito difícil (felizmente). No entanto,
para nós que não vivemos esse problema, talvez essa seja uma lição
acerca do valor da democracia e da liberdade, bem como uma lembrança da
responsabilidade que cada um tem pelo que circula na rede. Seria bom também
se prestássemos um pouco mais de atenção ao que dizem alguns de nossos
políticos e artistas, que embalados pelo magnifico sol das praias cubanas e
pelos excelentes charutos e rum cubanos, vivem propondo a
implantação do modelo cubano de governo e organização social em nosso país.
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... | Vivaldo José Breternitz (vjbreternitz@yahoo.com)
é professor universitário e executivo de instituição financeira.
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