» Opinião

Planejamento Estratégico e os impactos sociais e econômicos das atuais tendências demográficas
(Vivaldo José Breternitz, 2003-07-22)

Parte I

A correta interpretação das tendências demográficas é fundamental para a qualidade do planejamento estratégico em todos os níveis. O objetivo deste trabalho é apresentar nossas preocupações acerca dos impactos sociais e econômicos das atuais tendências, em especial daquelas que podem mais fortemente influenciar os países latino-americanos; obviamente há impactos sobre outras áreas, em especial sobre o meio ambiente, que, no entanto, não serão objeto de aprofundamento neste texto. Diversos órgãos da ONU (Organização das Nações Unidas) vêm produzindo dados a respeito do assunto, sendo essas as principais fontes que utilizamos e relacionamos nas referências bibliográficas; quando os dados forem provenientes de outras fontes, estas serão mencionadas expressamente. 

Em 1950, o mundo tinha 2,5 bilhões de habitantes (GASPARI, 2002). A ONU prevê que a população mundial, atualmente cerca de 6,1 bilhões, estará ao redor de 8,9 bilhões em 2050 e cerca de 10,5 bilhões em 2100. Esse crescimento estará concentrado em oito países: Índia, Paquistão, China, Nigéria, Congo, Bangladesh, Eritréia e Indonésia, com a Índia superando a China em número de habitantes ao redor de 2025 e atingindo em 2050 1,5 bilhão de habitantes, tornando-se pais o mais povoado. Cabe lembrar que as previsões da ONU nessa área têm sido acuradas: em 1958 a organização previa que no ano de 2000, quando atingimos 6 bilhões, a população estaria em 6,3 bilhões - um erro muito pequeno para fins de planejamento estratégico. 

Essas informações já nos permitem vislumbrar alguns problemas decorrentes do crescimento desequilibrado: metade da população mundial vive nesses países, que ocupam 13% da superfície da terra. Os 48 países considerados pela ONU como "menos desenvolvidos", terão sua população triplicada até 2050, com alguns deles, como Congo, Burkina Faso, Angola, Uganda, Somália, Nigéria e Libéria crescendo mais de 300% - a maior taxa de crescimento é esperada para o Iêmen (450%). A nossa América Latina deve saltar dos atuais 519 para 806 milhões em 2050 (o Brasil, de 170 para 244 milhões, contra 52 milhões em 1950 - MOREIRA, 2000). 

Esse crescimento, segundo o "World Population Prospects - The 2002 Revision", editado pela Divisão de População da ONU em fevereiro de 2003, só não será maior em função do aumento das taxas de mortalidade em razão da Aids; esse documento prevê que até 2010 a epidemia manterá a dinâmica ora observada, acreditando-se em reversão a partir daquele ano.

Estes países menos desenvolvidos, em especial os da África, são uma bomba relógio: o padrão de vida será o mais baixo, o analfabetismo o mais alto, a infra-estrutura a mais carente, os governos os menos estáveis; os conflitos étnicos permanecerão sacrificando os mais pobres. Carência de água e de comida, doenças e degradação ambiental gerarão cada vez mais problemas. Pode-se porém olhar para esses países sob outro ângulo, o das oportunidades geradas pelos imensos investimentos que ali se farão necessários. 

Mas há situações opostas: até 2050, alguns países da Europa devem sofrer declínio acentuado em sua população (a menos que fortes movimentos migratórios alterem essa tendência): a Bulgária deve perder 43% de sua população, Ucrânia 40%, Rússia 28%, Itália e Hungria 25%, Espanha, Suíça e Áustria 20%, etc. - o decréscimo em toda a Europa deve estar ao redor de 10%, apenas com alguns países como França e Noruega apresentando pequeno crescimento. Dentre as demais grandes economias, o Japão e a Alemanha devem perder cerca de 14% ao passo que os Estados Unidos devem crescer cerca de 40%. 

Mas os desequilíbrios acima mencionados não são os únicos problemas demográficos com que nos defrontamos. Melhores cuidados médico-sanitários e de alimentação elevarão a expectativa de vida no nascimento para cerca de 70 anos nos países mais pobres e para 83 nos mais ricos (a maior estará no Japão, com 88 anos). Na América Latina e Brasil, respectivamente, deveremos saltar de 70 para 78 e de 67 para 77; em 1950, a expectativa de vida no Brasil era de 46 anos (GASPARI, 2002). Ainda no Brasil, a população de 65 anos de idade ou mais, que era composta de 7,7 milhões de pessoas em 1995, compreendendo menos de 5% do total da população, chegará a 2050 a mais de 38 milhões de pessoas, perfazendo nada menos do que 18,4% da população (MOREIRA, 2000). Esse fenômeno já está ocorrendo: dois terços das pessoas que atingiram 65 anos, em toda a história da humanidade, estão vivas hoje!

A queda nas taxas de natalidade a níveis que não permitirão a reposição da população na maioria dos países da Europa e Japão torna o cenário mais complexo. Estima-se que para a manutenção da população seja necessária uma taxa de natalidade de 2,1 filhos por mulher; nos últimos anos têm se registrado taxas que oscilam de 1,2 na Itália e na Espanha a 1,9 na Irlanda, além de 1,4 no Japão; . Estes números, embora de maneira menos drástica, tendem a se reproduzir em outros paises ocidentais: 2 nos Estados Unidos, 2,7 na América Latina e 2,3 no Brasil. 

Para os países com tendência a decréscimo na população, vislumbram-se dois caminhos: aumento nas taxas de natalidade, atualmente difícil de ser obtido por razões como busca da independência econômica pelas mulheres, necessidade de altos investimentos em estruturas de suporte à mulher e às crianças, etc. O segundo caminho é o do incentivo às migrações, que esbarra em questões políticas, de preconceitos, de qualificação dos possíveis imigrantes, etc. Além disso, a massa de imigrantes requerida para simples manutenção dos níveis atuais de população nesses países, cerca de 700 milhões até 2050 apenas para os atuais componentes da União Européia, transformaria os nativos em minorias dentro de seus próprios países, tornando as migrações ainda mais difíceis de serem concretizadas - como exemplo pode-se dizer que hoje cerca de 10% da população alemã é constituída por estrangeiros, o que ajuda a explicar atitudes xenófobas. De qualquer forma, como nesse campo as respostas são muito lentas, acreditamos que os países afetados por esse tipo de problema precisam começar a planejar (e agir) rapidamente antes que a situação se agrave. 

O aumento da expectativa de vida gera também sensível envelhecimento da população como um todo. Atualmente, o país com a mais alta média de idade é o Japão (41 anos), seguido pela Itália (40). Em 2050, a maior média será a da Espanha, com 55 anos, seguida pela Itália (54) e Japão (53). 

O envelhecimento da população traz à baila outro problema sério, o das aposentadorias. Quase todos os planos de hoje se baseiam na premissa de que a contribuição da força de trabalho atual sustentará a aposentadoria dos idosos. No Brasil, já vivemos um problema sério nessa área, problema que se manifesta também em inúmeros outros países, como veremos a seguir, considerando em idade de aposentadoria as pessoas com 60 ou mais anos de idade e em idade de trabalho as entre 15 e 59 anos, conforme critérios adotados pela ONU. 

É inevitável que a idade para aposentadoria precise ser elevada e os benefícios reduzidos, com todas as implicações relacionadas a essa elevação: desemprego, trabalho informal, educação continuada, garantia de emprego, etc. Na Europa, para cada 100 pessoas em idade de trabalho, há 35 em idade de aposentadoria; em 2050, esse número mais que dobrará, devendo ir a 75, com o pico no país "mais velho", a Espanha, onde se espera uma relação de quase 100 para 100. No Japão, a relação irá de 37 para 94 e nos Estados Unidos de 26 para 49. Na América Latina, sairemos de 13 para 39 e no Brasil, de 12 para 42. Considerando-se que na Alemanha de 1980 cada aposentados tinha 20 trabalhadores para sustentá-lo, pode-se perceber como o cenário vem se deteriorando rapidamente. 

O trabalho informal ou em tempo parcial tende a agravar o problema, pois estes trabalhadores contribuem menos que o ocupante de um posto de trabalho convencional. Mudança nos sistemas de capitalização, aumento das contribuições, melhoria dos processos de administração e outras medidas similares podem minorar o problema, mas não resolve-lo. Na sociedades que estão envelhecendo, a tendência deve ser a redução dos benefícios a um nível básico, cabendo aos indivíduos proverem a acumulação de valores como forma de garantir aposentadorias acima desse nível básico, abrindo espaço para empreendimentos nessa área. Raciocínio análogo pode ser aplicado à área de saúde.

Em termos de mercado de trabalho, há desafios a serem enfrentados: trabalhadores mais velhos tendem a se tornar menos produtivos, como regra geral. Isso ocorre por receberem menos treinamento (há relutância dos empregadores em investir nesses profissionais) e por ser a experiência acumulada menos relevante numa situação em que a tecnologia muda rapidamente. Fatores de natureza física e psicológica decorrentes do envelhecimento também podem contribuir para essa queda. 

O desenvolvimento da capacidade de inovação é e será crucial. Usualmente profissionais jovens tem um papel determinante na criação e difusão de novos conhecimentos, graças à sua predisposição para a aceitação de riscos, maior mobilidade (aceitação de transferências), educação e treinamento atualizados, etc. A falta desses profissionais será um problema sério. REYNOLDS (2000) demonstra como o número de "start-ups" (empresas criadas por empreendedores) tem correlação com o crescimento econômico, e que esses empreendedores concentram-se na faixa etária compreendida entre os 25 e 44 anos. KELLAWAY (2002), referindo-se ao Estados Unidos, diz que existem 45 milhões de pessoas com idade entre 35 e 44 anos, e apenas 37 milhões entre 25 e 34, ou seja: o potencial de inovação, ao menos no que se refere aos aspectos quantitativos, tende a cair. 

Outra alteração importante será no perfil de demanda. Diferentes faixas etárias têm diferentes necessidades, gostos, etc; dessa forma, algumas indústrias serão beneficiadas e outras prejudicadas. A queda de população trará efeitos negativos a praticamente todos os setores. 

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