» Opinião

Planejamento Estratégico e os impactos sociais e econômicos das atuais tendências demográficas
(Vivaldo José Breternitz, 2003-07-22)

Parte II 

De maneira geral, bens e serviços que podem ser comercializados no mercado internacional são menos afetados por alterações no perfil demográfico doméstico, pois podem compensar eventuais perdas com exportações; já os que não tem essa possibilidade, como o setor de transportes terrestres, usualmente são atingidos de forma mais intensa. Os setores afetados podem também diminuir o impacto sofrido através de alterações de design, canais de distribuição, marketing, etc. , adequando-os aos gostos e necessidades de uma população mais idosa. Há ainda aqueles setores que obviamente sofrerão grandes perdas, como os da área de construção civil, em face da redução da necessidade de novas casas, embora a necessidade de adaptação das construções existentes possa diminuir um pouco o impacto dessas perdas. 

Dentre as áreas que certamente serão beneficiadas está a da saúde. Remédios, hospitais, serviços de apoio aos idosos, biotecnologia, etc., devem esperar grande crescimento. O aumento da população idosa deve beneficiar a indústria do lazer, embora devam ser necessárias alterações no perfil de serviços prestados por essa área, mesmo com idosos do futuro devendo ser mais ativos que os da atualidade, principalmente em função da mudança de valores e melhoria das condições de saúde da população idosa.

Outras indústrias são relativamente imunes às alterações por terem entre seus usuários pessoas de todas as faixas etárias, como os serviços financeiros, por exemplo. Alguns serviços financeiros deverão ser beneficiados pelo envelhecimento da população, em especial os relativos ao gerenciamento de investimentos destinados à complementação das aposentadorias pagas pelos governos. Pessoas aposentadas ou em vias de aposentadoria demandarão informações e gerenciamento de recursos adequados aos seus projetos e características pessoais e familiares; novos produtos poderão ser necessários. No Brasil já observamos quantidade considerável de idosos operando em bolsas de valores via Internet, utilizando serviços bastante satisfatórios fornecidos por corretoras de valores; muitos desses investidores dão a essa atividade um certo caráter lúdico, que até há pouco tempo não havia. 

As finanças públicas também serão afetadas. Segundo a Organisation for Economic Co-operation and Development - OECD (2001), entre 40 e 60% das despesas públicas nos países industrializados são influenciadas por fatores de natureza demográfica, em especial aposentadorias de funcionários públicos, saúde, escolas públicas, etc. Apesar da pouca disponibilidade de dados, pode-se afirmar que idosos respondem pela maior parte dessas despesas, havendo então tendência de crescimento devido ao envelhecimento da população. Simulações efetuadas pela OECD, considerando nações industrializadas, mostram que esse crescimento, se mantidas as regras atuais, podem levar a grandes desequilíbrios orçamentários, com as conseqüências típicas dessa situação, como aumento de taxas de juros, de impostos, etc., gerando grandes problemas a essas economias.

Acreditamos ter ficado claro que há razões para preocupações quanto aos impactos sociais e econômicos das atuais tendências demográficas. Elas gerarão uma série de desastres de naturezas diversas se não houver imediata ação, em especial nas áreas social e econômica, que foram as consideradas neste trabalho. Esses desastres podem ser minimizados se determinadas ações, quase sempre impopulares, forem tomadas imediatamente, enquanto a estrutura populacional ainda permitir essas medidas. As empresas têm mais tempo para planejar, pois podem alterar o rumo de seus negócios mais facilmente; já os governos precisam adotar estratégias muito claras, visando principalmente dar um formato mais favorável ao desenvolvimento populacional. 

Dentre essas estratégias, conforme dissemos anteriormente, pode-se adotar políticas que valorizassem as famílias e as crianças, especialmente nas economias industriais, procurando tornar mais simples permitir que mulheres conciliem carreira e filhos. 

Contra os imigrantes sempre existiram objeções. A mais freqüente é a de que eles concorrem com o trabalhador local. Os fenômenos americano, australiano e canadense desmentem esse mito. Não será fácil para os europeus entenderem que o imigrante talvez não entre apenas para tomar um emprego e usufruir um bom hospital. Ele pode gerar riqueza, pagar impostos, consumir. Talvez essa seja uma mudança de atitude a ser conseguida urgentemente. 

Problemas gerados pela imigração poderiam ser minimizados por programas de integração dos imigrantes às sociedades que os recebessem e de esclarecimento às populações nativas acerca das conseqüências do envelhecimento e redução da população. A participação dos políticos, é fundamental nesse processo. Talvez os versos "Dêem-me seus esgotados, seus pobres", de autoria da poetisa americana Emma Lazarus (1849-1887), gravados na base da Estátua da Liberdade como um hino de misericórdia aos imigrantes, nunca tenham sido tão atuais

A proteção das áreas sociais, em especial aposentadorias e saúde também é muito importante. Mudanças estruturais são necessárias: simplesmente aumentar contribuições ou diminuir benefícios podem minorar os problemas, mas não os eliminam. Parece ser inevitável uma entrada mais cedo no mercado de trabalho (obviamente para as economias mais evoluídas) e uma retirada mais tarde. Medidas destinadas a incentivar a melhor qualificação e a mobilidade dos trabalhadores serão úteis. 

Ainda temos algum tempo até que essas alterações passem efetivamente a gerar problemas realmente muito sérios. Além do encaminhamento de medidas destinadas a enfrentar-los, devemos procurar aumentar a conscientização de nossos políticos, líderes empresariais e outros formadores de opinião. A conjugação dos estudos sobre os aspectos sociais e econômicos com os impactos sobre outras áreas, em especial no meio ambiente, devem ser acelerados. Ainda há tempo. 

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REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
- GASPARI, Elio. A Ditadura Envergonhada. São Paulo: Companhia das Letras, 2002. 
- KELLAWAY, Lucy. O retorno da caneta tinteiro. Revista Exame-, São Paulo, edição de 25/12/2002.
- MOREIRA, Morvan de Mello. 2000. Envelhecimento da população brasileira: aspectos gerais. In O envelhecimento da população brasileira e o aumento da longevidade - Subsídios para políticas orientadas ao bem-estar do idoso, org. Laura L. Rodríguez Wong. Belo Horizonte: CEDEPLAR/UFMG e ABEP.
- OECD - Organisation for Economic Co-operation and Development (2001): Fiscal Implications of Aging: Projections of Age-Related Spending. Disponível em http://www.olis.oecd.org/olis/2001doc.nsf/linkto/eco-wkp(2001)31, acessado em 12/01/2003. 
- ONU - UNFPA United Nations Population Fund: The State of the World Population 2001, Footprints and Milestones, Population and Environmental Change, 2001.
- ONU - United Nations Population Division: Replacement Migration: Is It a Solution to Declining and Ageing Populations?, 2000.
- ONU - United Nations Population Division: World Population Prospects - The 2002 Revision, 2003.
- ONU - United Nations, Department of Economic and Social Affairs: World Population Projections to 2150, 1998.
- ONU - United Nations, Department of Economic and Social Affairs: World Population Prospects: The 2000 Revision, 2001.
- REYNOLDS, Paul D. et al (2000).: Global Entrepreneurship Monitor, Executive Report 2000. Disponível em http://www.gemconsortium.org/document.asp?id=139, acessado em 26/12/2002

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Vivaldo José Breternitz vjbreternitz@mackenzie.com.br  é professor da Universidade Presbiteriana Mackenzie e consultor de empresas.
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