Uma borboleta voando
pode mudar sua vida? (Raúl Candeloro, 2001-09-10)
Todos os grandes matemáticos, usando a
Teoria do Caos, dizem que uma borboleta batendo as asas do outro lado do
mundo pode provocar um tufão na Indonésia. É que todas as coisas no
universo estão de certa forma ligadas, e o bater de asas de uma borboleta
pode provocar uma reação em cadeia que termina gerando um tufão.
Se isso pode acontecer, então porque é que não pode fechar sua empresa?
Ou mudar sua vida? Já parou para pensar nisso? São tantas variáveis
acontecendo na vida que a maioria das pessoas simplesmente desiste de
tentar escolher seu destino.
Chuck Yeager foi o primeiro humano a quebrar a barreira do som, voando no
seu Bell Aviation X-1. Na época muitas pessoas diziam que a
‘barreira’ era impenetrável, e que ele e seu avião desintegrariam
assim que atingisse a velocidade Mach 1 (a velocidade do som).
É claro que a barreira não era impenetrável coisa nenhuma. Era apenas
um mito. Anos mais tarde, na sua biografia, Yeager escreveu que "a
verdadeira barreira não estava no céu, mas na nossa cabeça – no
conhecimento e experiência dos vôos supersônicos".
Da mesma forma, vemos todos os dias pessoas voando baixo, vagarosamente,
porque acham que existe alguma ‘barreira’ para uma performance melhor.
Uma barreira que os impede de crescer. E geralmente colocam a culpa em
fatores externos.
Mas a sua vida não precisa ser assim. Você não precisa viver de susto
em susto, de crise em crise, sempre apagando incêndios, sempre perguntado
o que virá pela frente, sempre voando baixo. Como assumir o controle?
Já faz algum tempo que sabemos que o futuro será diferente do passado.
Mas insistimos em nos recusar a acreditar que nossa vida será diferente
do que esperamos que ela seja. A maioria de nós ainda acredita que o
futuro será uma continuação do presente, como uma estrada reta que se
perde no horizonte.
De acordo com Alvin Toffler, é uma percepção linear, previsível, de
que A leva a B que leva a C. Só que a prática mostra que o futuro não
é uma continuidade do presente, mas sim uma série de descontinuidades.
E o pior é que nossa educação, ao invés de ajudar a quebrar essas
‘barreiras’, na verdade acaba reforçando-as. As escolas foram
desenhadas com a certeza de que todos os problemas do mundo já foram
resolvidos, e que o professor conhece todas as respostas.
Então a função do professor passa a ser apresentar os problemas aos
alunos, e depois as respostas. Nos ensinam as perguntas e as respostas,
mas não a pensar. Por isso a dificuldade quando as perguntas mudam.
Para agarrar o futuro você precisa largar o passado. A única forma de
impedir que sua vida seja uma sucessão de descontinuidades é tendo uma
estratégia de vida. Se não você é jogado de um lado para outro, de
acordo com o vento ou a maré. Ou uma borboleta batendo as asas. E não
consegue nunca ir de A para B ou C.
Como diria Toffler, não precisamos que nos ensinem apenas como fazer
alguma coisa, mas sim a imaginar o que é possível.
É como quando o primeiro avião conseguiu voar. A partir desse momento,
mudou completamente o contexto do desenvolvimento da aviação. Cada avião
que caía provava aos cínicos, de forma evidente, que era impossível
fazer um avião voar.
Mas quando ele finalmente voou, tudo mudou. As mesmas informações começaram
a ser interpretadas de um modo diferente. As quedas passaram a ser vistas
como evidências dos erros, de como as coisas não deveriam ser feitas. As
pessoas simplesmente começaram a pensar de forma diferente.
A mesma coisa aconteceu com Chuck Yeager e a velocidade do som. As
barreiras estavam apenas na cabeça – no conhecimento e na experiência.
Bastou alguém dedicar-se a derrubar essas barreiras através de uma boa
estratégia para provar que estavam erradas.
Se você quer quebrar suas próprias barreiras e voar alto, precisa de uma
estratégia. Estratégia de vida começa com uma proposição diferente de
valor, de missão pessoal. É uma forma de definir um território onde você
é de alguma forma único.
Estratégia é fazer escolhas. Principalmente, escolher o que fazer
diferente, e também o que não fazer. Por isso mesmo você é obrigado a
escolher, já que não dá para ser ou fazer tudo.
Esse é outro ponto que deve ficar muito claro: para ter uma boa estratégia
você tem que aprender a dizer não. Todos os dias aparecem nas nossas
vidas novas propostas de negócios, muitas altamente tentadoras.
Uma pessoa sem estratégia vai acabar distraindo-se ao perseguir negócios
que parecem lucrativos, mas que na verdade não tem nada a ver com a
estratégia a longo prazo, nem com sua missão de vida. Acabam sugando
recursos, tempo e energia, desviando-se da sua missão, confundindo ainda
mais sua vida.
As melhores estratégias sempre levam a um objetivo maior. Se não tiver
um objetivo bem claro em mente, começará a tomar decisões que
inevitavelmente diminuirão sua eficiência.
A essência da estratégia é estabelecer limites. A pessoa sem estratégia
está disposta a tentar qualquer coisa. Principalmente, copiar os outros.
Você tem que fazer menos coisas, mas fazê-las muito melhor. Você tem
que encontrar e desenvolver vantagens, e não apenas eliminar
desvantagens. Criar diferenças, e não apenas copiar: esse é o segredo.
Para terminar, a grande dúvida: vale a pena ter uma estratégia num mundo
que muda constantemente? Ela não será uma camisa de força, uma corrente
que produz rigidez e inflexibilidade?
Algumas pessoas podem pensar: "As coisas estão mudando rapidamente,
então preciso mudar rapidamente também. Logo não posso ter uma estratégia,
porque ela me tornaria mais lento".
Acontece que grandes conquistas só são alcançadas por pessoas com
objetivos claros e estratégias definidas. Pessoas que não apenas
imaginaram voar alto ou quebrar barreiras, mas também bolaram planos para
chegar lá.
Por isso Michael Porter defende justamente a idéia contrária: uma boa
estratégia na verdade acelera o processo, porque permite que você tome
decisões de acordo com seus objetivos.
Peguemos um exemplo como a tecnologia: não adianta comprar todas as
bugigangas e novidades tecnológicas que aparecem se isso não tem um
objetivo muito claro.
Você não vai aumentar sua produtividade simplesmente porque tem mais
aparelhos disponíveis. Você tem que saber para onde quer ir e, com base
nisso, tomar as decisões.
Resumindo: ter uma estratégia é ser diferente. Você não é apenas mais
uma pessoa – você está ali para trazer algo novo para o mundo, para
mudar o mundo, para mudar para melhor a vida das outras pessoas.
Uma vez que você tenha sua estratégia claramente definida, todas as
perguntas serão fáceis de responder: ou ajudam você a alcançar seus
objetivos, ou não. E finalmente você terá controle da sua vida.
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Raúl Candeloro (www.raulcandeloro.com.br), é palestrante e editor da
revista VendaMais®, além de autor dos livros Venda Mais e Negócio
Fechado e responsável pelo site VendaMais® (www.vendamais.com.br).