A Liberdade na América
(Márcio C. Coimbra, 2001-10-07)
“Nós o povo dos Estados Unidos, a fim
de formar a mais perfeita União, estabelecer a Justiça, assegurar Tranqüilidade
doméstica, prover a defesa comum, promover o bem estar geral, e assegurar
a Benção da Liberdade para nós mesmos e nossa Posteridade, determinamos
e estabelecemos esta Constituição para os Estados Unidos da América”.
Este é o preâmbulo da Constituição dos Estados Unidos da América,
assinada na Filadélfia em 17 de setembro de 1787. Naquele momento nascia
a federação de uma nação baseada nos valores da democracia e da
liberdade. Hoje, depois de mais de 200 anos de aplicação destes valores,
os EUA vivem um dilema: o da limitação das liberdades individuais como
forma de se proteger do terrorismo.
Voltemos no tempo. Os Estados Unidos foi
um país construído por imigrantes. Estas pessoas deixaram principalmente
a Inglaterra e a Irlanda com o objetivo de viver em um local livre de
perseguições políticas ou religiosas, onde o Estado não tivesse o
poder de retirar suas liberdades. Desta forma foram sendo construídas as
treze colônias iniciais. Logo, quando os “Founding Fathers” surgiram
com a idéia de unificação das treze colônias, as resistências foram
enormes, pois o povo tinha receio de delegar poderes a uma federação que
pudesse retirar suas liberdades futuramente. Desta forma foi tomando corpo
a noção americana de Estado, procurando limitar os poderes dos governos,
bem definidos por Thomas Paine, em sua obra publicada em 1776, intitulada
“O Senso Comum”: “O governo, mesmo nas melhores condições, é um
mal necessário; (...) também aqui se vê o propósito e a finalidade do
governo, a saber: liberdade e segurança”. Portanto, na sua visão, a
função do Estado era garantir princípios básicos: o direito a vida, a
propriedade e o cumprimento do Estado de Direito.
Então, com extrema habilidade, foi
constituída a federação norte-americana. A principal característica
desta nova união entre estados que se formava na América era o seu poder
limitado. O povo aparecia como figura soberana e o Estado aparecia em sua
forma mínima, uma inovação para aqueles anos. A forma de amadurecimento
deste sistema era formado pela aplicação plena dos valores democráticos,
baseados na Constituição, que encontrava a liberdade como seu traço
fundamental, como observou Alexis de Tocqueville no seu livro “A
Democracia na América”.
Entretanto, o mais brutal atentado
terrorista da história, em 11 de setembro, fez uso do maior valor
americano, a liberdade, consolidada por George Washington 200 anos antes e
maior pilar da sociedade norte-americana, para assassinar pessoas de
dezenas de nacionalidades diferentes.
Hoje o governo americano está tomando
decisões que nenhum governante daquele país gostaria de tomar: a diminuição
das liberdades individuais com vistas a proteger a sociedade de novas
atrocidades terroristas. Não existe nada mais doloroso para a sociedade
americana do que ver tolhidos, mesmo que momentaneamente, os princípios e
valores que guiaram o país desde sua fundação.
Vejamos o preâmbulo da constituição
americana. Lá encontramos os fundamentos da federação, como assegurar a
Benção da Liberdade e Tranqüilidade doméstica, além de estabelecer a
justiça. Estes são os valores que estão sendo trabalhados pela equipe
do presidente Bush. Até onde é possível estabelecer a tranqüilidade e
justiça sem afetar a benção da liberdade?
A melhor mensagem que o governo dos EUA
pode passar ao seu povo é mostrar que os valores que guiaram os Estados
Unidos não se modificarão e que a liberdade continua sendo a pedra
fundamental de uma sociedade democrática. Neste momento, lembro das sábias
palavras de Thomas Jefferson: “O preço da liberdade é a eterna vigilância”.
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Márcio C. Coimbra, colunista da Economiabr.net é especialista em Direito Internacional
Atualmente cursa MBA em Direito Econômico
na Fundação Getúlio Vargas. É
autor do livro "A Recuperação da Empresa: Regimes Jurídicos
brasileiro e
norte-americano"
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