Brasil: Neoliberalismo? (Márcio C. Coimbra, 2001-11-18)
Quando ligamos a televisão e lemos os
jornais, somos bombardeados de conceitos e idéias acerca do Brasil. Um
dos mais difundidos é aquele que diz que o país vive em sistema chamado
de “neoliberal”.
O que é neoliberalismo ? Pelo que pesquisei, é um novo conceito de
liberalismo. De qualquer forma, em decorrência daquilo que o termo nos
leva a pensar, tem a sua base formada no pensamento liberal. Lendo os
artigos de alguns dos pensadores de esquerda mais influentes do país,
percebi que o neoliberalismo, para eles, se define como a política econômica
de abertura indiscriminada do mercado nacional ao internacional. Portanto,
a esquerda se apresenta radicalmente contra o neoliberalismo.
Infelizmente, o termo começou a ser usado como clichê, se encaixando
perfeitamente na definição acima mencionada, tornando-se de aplicação
restrita a política econômica externa. Porém, se o neoliberalismo
deriva do liberalismo clássico, será que a definição deste termo se
encerra neste conceito simplista que nos é transmitido todos os dias ?
Liberalismo é a conjunção de dois aspectos da vida em sociedade que se
baseiam na liberdade. Um deles é a pequena presença do Estado no plano
pessoal. O outro é pequena presença estatal no plano econômico. Será o
Brasil um país liberal ? Em alguns aspectos sim. Existem garantias
fundamentais inerentes ao liberalismo em nossa Constituição, a começar
pelo respeito ao Estado de Direito e as instituições democráticas, e
desaguando no direito a vida e a liberdade. Estas são liberdades
pessoais. Analisando até este ponto, acredito que a esquerda brasileira
é liberal, no plano pessoal. Porém, a diferença fica clara quando é
analisado o aspecto econômico. Os liberais acreditam na liberdade de
mercado, onde, baseado no empreendedorismo e na livre-iniciativa,
acredita-se que o Estado deve fornecer condições básicas iguais,
proporcionando, desta forma, a oportunidade para que os cidadãos
desenvolvam suas potencialidades. Para isso, o Estado deve interferir de
modo mínimo no mercado, concentrando suas atividades nas áreas de saúde,
segurança e educação. Já, a esquerda, acredita na firme intervenção
do Estado na economia, atuando em todas as áreas produtivas, provendo,
todos os tipos de serviço para sociedade, desde a educação até produção
de bens. Todos seriam funcionários do Estado.
Apesar de o Brasil ter conquistado a posição de país liberal no que
tange a liberdade pessoal, estamos longe de ser uma país liberal em
termos econômicos. Existe uma abertura ao mercado externo, não muito bem
conduzida. Entretanto, internamente, a intervenção estatal na economia
ainda é brutal. Existem várias provas, entre elas, podemos citar leis e
atitudes do poder executivo, como a excessiva carga tributária (uma das
mais altas do planeta); uma legislação trabalhista da década de 40
(inibindo a livre-iniciativa que em decorrência disto, não abre novos
postos de trabalho); a possibilidade de elaboração de medidas provisórias
que podem mudar as regras do jogo a qualquer momento; sem contar o compulsório
bancário retido no Banco Central, tornando o preço do crédito alto,
resultando em um aumento das taxas de juros. A intervenção econômica
interna que o governo brasileiro exerce sobre as empresas deve baixar com
urgência. Ou seja, enquanto o Brasil não aprender a aplicar corretamente
o liberalismo internamente, não haverá possibilidade de sucesso.
Portanto, o Brasil não é um país liberal, pois assemelha-se mais a uma
social-democracia, (que não esqueçamos, é o partido do Presidente, o
Partido da Social-Democracia Brasileira) que consiste em pequena presença
do Estado no plano pessoal, mas grande presença estatal no plano econômico.
Logo, se o Brasil não é um país liberal, chamá-lo de neoliberal seria
pura demagogia.
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Márcio C. Coimbra, colunista da Economiabr.net é especialista em Direito Internacional
Atualmente cursa MBA em Direito Econômico
na Fundação Getúlio Vargas. É
autor do livro "A Recuperação da Empresa: Regimes Jurídicos
brasileiro e
norte-americano"
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