O Aço e a Defesa
Comercial (Márcio C. Coimbra, 2001-09-02)
O Brasil se aproxima de rodadas de negociação
muito importantes no plano internacional. A próxima reunião da OMC, a
realizar-se em Doha, Qatar em novembro, será um grande desafio para a
diplomacia brasileira. Entretanto, vale ressaltar que o sucesso destas
negociações depende muito de um esforço conjunto que deve ser realizado
entre o Itamaraty, empresários e negociadores.
A agenda de Doha ainda não está fechada,
e além disto, estas tratativas tomaram um contorno especial ultimamente,
pois elas serão fundamentais, especialmente para a definição de parâmetros
de discussão para a Alca, com a possibilidade de inserção do debate
acerca de regras comuns, impondo limites para as barreiras comerciais de
cada país.
A defesa comercial de um país é realizada diante de uma série de
mecanismos, que, dependendo da sua forma de aplicação podem ser
considerados abusivos, ou seja, prejudiciais ao comércio e podem levar o
país que se sente lesado a formular uma denúncia perante a OMC, que
depois de avaliações pode aplicar sanções, como no caso das medidas
compensatórias. Os diversos países do globo, inclusive os 142
participantes da OMC, adotam alguns mecanismos de defesa da indústria
nacional, que resumidamente podem ser classificados como medidas
antidumping, subsídios e salvaguardas. O dumping ocorre quando o preço
de produto importado é menor que o preço praticado no mercado do país
exportador.
Logo, o país cria barreiras ou taxas
elevadas de importação para inibir a entrada de concorrência. Os subsídios
podem ser considerados uma contribuição pecuniária ou de outra ordem
que o Estado concede a qualquer empresa ou particular, configurando uma
espécie de ajuda, o que no comércio internacional auxilia na redução
do valor dos produtos exportados, tornando-os mais competitivos.
As medidas de salvaguarda são aplicadas
quando um produto é importado em grande volume prejudicando o mercado de
fabricantes domésticos. Esta medida busca diminuir o impacto das importações
no mercado nacional até uma futura adequação da indústria a estas
novas regras.
O debate sobre a proteção da indústria do aço sempre foi um assunto
delicado na política norte-americana. O setor começou a receber benefícios
estatais diante da política econômica intervencionista americana da década
de 40. Como resultado desta política, a indústria americana do aço
constituiu um dos mais bem articulados grupos de lobby com o escopo de não
perder esses benesses. Este grupo atua com vistas a criar medidas que
inibam a importação, baseado em subsídios e medidas antidumping. Sua
base é caracterizada pelo conhecido "triângulo do aço",
constituído por empresas, sindicatos e políticos que visam constituir
barreiras que inibam da livre concorrência com agentes externos em seu país.
Apesar de a chamada "bancada do aço"
não ser tão numerosa quanto se imagina, constituiu-se como uma das mais
articuladas e inteligentes, inserindo-se nas mais importantes comissões
da Câmara dos Deputados dos EUA.
Como resultado desta articulação consistente, nenhum presidente
americano conseguiu suportar a pressão da "bancada do aço". Até
aqueles que tinham como orientação econômica as teses da Escola de
Chicago, baseadas na liberdade econômica e livre comércio, como Ronald
Reagan, não conseguiram acabar com o paternalismo inserido nesta indústria.
Bush parecia ser o primeiro presidente que enfrentaria o problema com
coragem, pois tem sua política baseada na abertura das barreiras que
interferem no livre comércio.
Contudo, o poder da "bancada do aço"
pareceu mais forte, uma vez que o presidente necessita destes votos para a
aprovação do TPA (Trade Promotion Authority - antigo fast track) no
Congresso. O TPA é de fundamental importância para as negociações
comerciais norte-americanas conduzidas pelo executivo.
Apesar de o Brasil ser extremamente mais protecionista que os EUA, (a alíquota
média de importação americana está em torno de 3% e no Brasil este número
chega a 16%). Sob os olhos da ITC (International Trade Commision), o aço
produzido no Brasil já está sofrendo com as barreiras para entrar em
solo americano. Políticas antidumping, subsídios e sobretaxas são um
reflexo da atitude de defesa comercial americana, além da recente decisão
do Eximbank de cortar financiamentos.
Antes de entrar em litígios
internacionais, cabe ao Brasil realizar uma inteligente articulação que
possa derrubar medidas protecionistas que inibem o livre comércio. A
simples imposição de barreiras a produtos americanos de nada adianta,
pois somente cria mais receio de ambos os lados. A interconexão entre os
tabuleiros da OMC e Alca é a saída mais inteligente para ambos os países
implementarem regras claras de defesa comercial que viabilizem o livre comércio
e derrubem barreiras protecionistas.
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Márcio C. Coimbra - marcio.coimbra@uol.com.br,
é advogado habilitado em Direito Mercantil pela Universidade do Vale do
Rio dos Sinos e especialista em Direito Internacional pela Universidade
Federal do Rio Grande do Sul. Atualmente cursa MBA em Direito Econômico
na Fundação Getúlio Vargas. É
autor do livro "A Recuperação da Empresa: Regimes Jurídicos
brasileiro e
norte-americano", Ed. Síntese (www.sintese.com)