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A Interconexão das Crises
(Márcio C. Coimbra, 2001-09-10)

O mercado mundial está em desaquecimento. Os resultados da desaceleração econômica em alguns países, onde está incluída a maior economia do planeta, a norte-americana, pode ser sentida nos quatro cantos do globo. Entretanto, a interdependência econômica existente entre as nações não é uma novidade deste início de século. A globalização, dentro deste contexto, acontece há muito mais tempo do que imaginamos, assim como a interconexão das economias.  A fundamental mudança entre os dias de hoje e o passado reside na velocidade da troca de informações, o que faz com que as crises econômicas mundiais se espalhem com maior rapidez do que ocorria no passado. Como resultado das diversas crises ocorridas nas mais diferentes economias nacionais nos últimos tempos, os países buscam mecanismos que possam atenuar o reflexo destes terremotos.

A vulnerabilidade das economias tem sido uma das grandes questões em debate. Mas como é possível saber se uma economia é sólida ou vulnerável? O grau de solidez da economia de um determinado país é um reflexo da sua estrutura. Se um país possui uma estrutura sólida, baseada em uma política definida e regras claras, não intervencionistas, o seu grau de defesa para um terremoto econômico internacional é maior, pois são atraídos capitais de qualidade, que não fogem diante de uma crise. Entretanto, se um país abusa de práticas intervencionistas e regras legais instáveis, a sua possibilidade de sofrer com o abalo de outras economias será largamente aumentado, pois a estabilidade econômica, dentro outras, estará baseada na captação de capitais voláteis, gerando uma alta dependência externa.

As crises econômicas, dependendo de cada país, podem ser definidas como cíclicas ou estruturais. No caso de uma economia de maior solidez, as crises tendem a ser cíclicas, pois são resultantes de movimentos normais do mercado. A estabilidade estrutural destas nações opera pequenas correções para que a crise se afaste sem maiores traumas. É o caso das crises vividas atualmente por países como os Estados Unidos, Inglaterra e Alemanha, por exemplo. Com pequenos ajustes, estes tendem a normalizar sua situação.  Entretanto, outros países possuem graves distorções, o que os leva a viver crises estruturais.  É o caso vivido hoje pelo Japão, Brasil e Argentina, para citar alguns exemplos. Além disto, em função de seus defeitos estruturais, que levam a falta de investimento, estas nações sofrem com as oscilações das fortes economias em seus períodos de crises cíclicas. Dois claros exemplos são Brasil e Argentina, que sofrem os reflexos de uma crise cíclica vivida pelos países estáveis, majorada em função da sua falta de estabilidade estrutural (motivo da crise interna argentina).

Logo, para atenuar os efeitos das crises ocorridas em outros mercados, a receita reside na implantação de profundas reformas estruturais. Especialmente no caso do Brasil, as reformas estruturais passam pelo estabelecimento de regras claras e estáveis para o assentamento de capitais de qualidade, respeito pelo cumprimento dos contratos, flexibilização de legislações extremamente protecionistas e intervencionistas como na área tributária e ambiental. Revisão da vetusta legislação trabalhista nacional, hoje praticamente sem sentido, visto que somente 45% dos trabalhadores são empregados dentro dos ditames da CLT. Em suma: é necessário criar ambiente para o surgimento de novos mercados e empresas, diminuindo a intervenção estatal.

Portanto, se o Brasil adotar reformas pontuais e necessárias, além de se tornar um país com empresas mais competitivas, gerando emprego e riqueza, poderá estar preparado para enfrentar eventuais crises em mercados internacionais. Ademais, encontrará, além da estabilidade monetária já conseguida, uma estabilidade estrutural, gerando desenvolvimento. Deste modo, durante eventuais crises cíclicas, necessitará somente de pequenos ajustes, como diminuição da taxa de juros e da carga tributária, incentivando consumo e gerando empregos, como estão fazendo o FED e a Casa Branca. De outro modo, se as reformas citadas não forem implementadas, continuaremos a basear nossa estabilidade financeira nas altas taxas de juros para captação de capitais voláteis e continuaremos a sofrer fortemente com as oscilações do mercado internacional. O abrandamento dos efeitos da interconexão das crises ocorre através do desenvolvimento do mercado existente e incentivo a abertura e ao surgimento de novas empresas e negócios através da diminuição do intervencionismo.

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Márcio C. Coimbra
- marcio.coimbra@uol.com.br, é advogado habilitado em Direito Mercantil pela Universidade do Vale do Rio dos Sinos e especialista em Direito Internacional pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Atualmente cursa MBA em Direito Econômico na Fundação Getúlio Vargas. É
autor do livro "A Recuperação da Empresa: Regimes Jurídicos brasileiro e
norte-americano", Ed. Síntese (www.sintese.com)


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