Alca: por uma nova América
(Ronald Domingues, 2002-09-23)
A Cúpula das Américas
Em 1990, o então presidente dos Estados Unidos, George Bush, lançou a
Iniciativa para as Américas, visando o aprofundamento das relações
entre as nações do continente. Em dezembro de 1994 o projeto foi
retomado através da Reunião de Cúpula das Américas realizada entre
todas as nações do continente americano, exceto Cuba, quando se deu início
à constituição da Área de Livre Comercio das Américas (ALCA). A
partir daí iniciaram-se as Reuniões Ministeriais, ou reuniões entre
Ministros do Comércio das nações envolvidas. Em maio de 1997 o Brasil
foi sede de uma Reunião Ministerial, realizada em Belo Horizonte.
A II Cúpula das Américas ocorreu em abril de 1998 em Santiago do Chile,
onde foi criado o Plano de Ação da ALCA: educação como chave do
progresso, fortalecimento da democracia e dos direitos humanos, integração
econômica e erradicação da pobreza. Naquele ano o Canadá assumiu a
presidência das negociações que foi repassada à Argentina em novembro
de 1999. A partir de abril de 2001 o Equador passou a ocupar a presidência
e em novembro de 2002 não haverá mais apenas uma nação presidente e
sim duas: Brasil e Estados Unidos serão co-presidentes do processo da
ALCA. Na reunião ocorrida recentemente em Porto Rico decidiu-se que
nenhum produto ficará fora das negociações e que todos os países deverão
apresentar suas propostas até fevereiro de 2003.
Intercâmbio comercial
Atualmente o intercâmbio comercial do
Brasil com os países que formarão a ALCA é muito grande:
aproximadamente 43% das importações e 48% das exportações brasileiras
(dados de 2001). O comércio entre essas nações tende a crescer
consideravelmente uma vez que o projeto prevê a implementação da ALCA a
partir de 2005 e redução a zero, até o ano de 2015, de 85% das tarifas
de importação entre os 34 países.
Ainda existem muitas indefinições relacionadas a barreiras não-tarifárias,
direitos intelectuais e à proteção de setores específicos. Segundo o
Ministro das Relações Exteriores, Celso Lafer, o Brasil só vai aderir
à ALCA caso os EUA acabem com a política de subsídios a produtos agrícolas.
A maior discordância surgiu quando os representantes dos Estados Unidos
passaram a alegar que sua política de concessão de créditos e garantias
não podem ser consideramos como subsídios.
O Brasil exige ainda que os EUA alterem sua legislação antidumping que
impede o livre acesso do aço brasileiro ao mercado norte-americano. Por
outro lado, os norte-americanos reivindicam medidas severas do governo
brasileiro para proteger a propriedade intelectual e as patentes, ou seja,
combater a "pirataria". Além disso, eles defendem a proibição
por parte de todas as nações americanas de importação de bens
produzidos através do trabalho infantil ou da depredação da natureza.
O economista inglês Francisco Panizza
afirma que "a ALCA pode ser muito boa para a América Latina se a
negociação for bem feita e abrir a possibilidade de se exportar os
produtos agrícolas brasileiros que hoje são barrados pelo protecionismo
americano". Richard Lapper, do jornal britânico Financial Times
escreveu recentemente: "Eu vejo a atração da ALCA para países como
Brasil e a Argentina, mas não vejo a atração para os Estados
Unidos".
O Brasil e o mundo
O Brasil tem alcançado sucessos extraordinários em suas negociações
bilaterais. Como exemplo, temos os acordos recentemente fechados com a
China, Índia, Rússia, África do Sul e México. Juntos eles são responsáveis
pela facilitação de nossas exportações de soja, café, peças de automóveis
e até jatos aéreos. Tudo isso sem falar nos acordos fechados no âmbito
do Mercosul com a Bolívia, União Européia, Comunidade Andima, Chile,
dentre outros.
Segundo o Ministro do Desenvolvimento, Alcides Tápias, o Governo Fernando
Henrique Cardoso sempre considerou a ALCA como uma possibilidade e não
uma certeza. Além disso, trabalha-se com a idéia de que o Mercosul não
deixará de existir. Ë preciso considerar que o Mercosul é uma união de
nações semelhantes, onde não vemos muitas vantagens comparativas.
Acabamos competindo quase sempre nos mesmos setores, como é o caso da
agricultura argentina que chega a superar a brasileira em termos de
produtividade.
Emissários e outros representantes do presidente George W. Bush têm
indicado que existe uma proposta de um grande acordo bilateral entre
Brasil e Estados Unidos a ser oficialmente revelado a no final de 2002. O
acordo teria uma maior ênfase na redução de barreiras e o período
seria propício uma vez que o presidente norte-americano já teria o
resultado das eleições legislativas locais. É claro que o Brasil tem
interesses em manter relações comerciais com o maior número de países,
especialmente, com os EUA.
O risco ALCA
Cada país procura proteger setores ineficientes enquanto defende o livre
comércio para seus produtos competitivos. No Brasil, os setores que se
beneficiarão com a ALCA serão aqueles mais desenvolvidos e mais bem
organizados como o setor têxtil, agronegócios, siderúrgico, cervejas e
refrigerantes, autopeças, papel e celulose, embalagens, brinquedos,
cimento e aeronáutico. Paralelamente às negociações, deve haver um
processo de modernização do processo produtivo no Brasil, disseminando
novos conceitos de gestão empresarial e fazendo reformas no sistema
tributário. O foco deve ser a redução do chamado "Custo
Brasil".
É preciso entender que dentro de alguns anos o mundo estará dividido em
quatro grandes blocos: asiático, europeu, americano e "excluídos".
Onde estará o Brasil? A ALCA vai existir com ou sem a participação do
nosso país e ao ficarmos fora dela é provável que venhamos a
experimentar fortes reduções no intercâmbio comercial e
consequentemente nos investimentos diretos estrangeiros. Assistir o
processo de globalização e não participar dele é condenar o país a
permanecer à margem da história econômica mundial.
Torna-se importante negociar o melhor acordo, obtendo concessões que
nunca existiriam sem a ALCA. Ao ser implementada a partir de 2005 ela será
o maior bloco comercial do mundo, com 738 milhões de habitantes e um PIB
de mais de US$ 11 trilhões. O maior risco da ALCA é ficar fora dela.
____________________ Ronald Domingues, Economista, formado pela Universidade Federal de
Juiz de Fora. Criador do site www.ronalddomingues.com
Atua no mercado financeiro através de análise macroeconômica e análise
fundamentalista de empresas. Receba artigos deste autor por
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