Mercosul: a crônica de uma morte premeditada (Luis Fernando Novoa Garzon, 2001-11-03)
Esperando o Norte
Sabe-se que o messianismo político foi um ingrediente decisivo nas vitórias eleitorais de Carlos Menem, Fernando Collor e Fernando Henrique Cardoso em contextos de descontrole inflacionário, demandas sociais reprimidas e expectativas populares super-dimensionadas. Mas poucos perceberam que o messianismo, além de eficiente recurso eleitoral, tornou-se também uma variável-chave na formulação das políticas econômicas do Brasil e da Argentina. O fundamentalismo de mercado obteve a proeza de converter o planejamento econômico em sebastianismo, de sofismar o debate estratégico em vigílias por milagres. As elites econômicas locais e sua tecnoburocracia conexa confiaram a terceiros suas responsabilidades políticas, acreditando que receberiam três graças:
a) a moeda se estabilizaria ancorada no mercado de capitais de curto prazo;
b) os investimentos se avolumariam na medida em que fossem maiores as facilidades de deslocamento do capital estrangeiro e maiores as oportunidades de negócios a ele oferecidas;
c) a tecnologia seria transferida automaticamente a partir das relações de parceria no interior das redes transnacionais atraídas para a região.
Esses fundamentos fariam algum sentido se as promessas da política econômica tivessem sido cumpridas com o devido respeito. A devoção farisaica escondia, no fundo, a ausência de projeto estratégico e de consenso entre as elites políticas. Esse projeto mínimo compreenderia: racionalização da máquina estatal, política de arrecadação e de ajuste fiscal, políticas de estímulos à exportação de produtos com maior valor agregado e políticas industriais e agrícolas conglomeradoras e inovacionais.
Esperando a morte
Os Governos de Brasil e Argentina, destituídos desses instrumentos de intervenção, tiveram que apelar para o bezerro de ouro do endividamento interno e externo, através da venda de títulos de curto prazo, remunerados com juros crescentes. Esse mecanismo de financiamento não só comprometeu o equilíbrio fiscal como estrangulou ainda mais o já combalido setor produtivo de ambos, com impacto extremamente negativo nas respectivas balanças comerciais. Economias assim tão vulnerabilizadas não teriam como se imunizar frente aos efeitos de qualquer crise internacional. Despidos de todas as proteções, o que poderia livrá-los do mal?
A crise asiática em 1997 e depois a russa em 1998, produziram uma formidável fuga de capitais no Brasil acarretando a desvalorização do real em 1999 e a necessidade de um novo acordo com o FMI. A partir desse momento, com a impossibilidade de continuar realizando superávits comerciais junto ao Brasil e com o fim do estoque de empresas privatizáveis, a Argentina teve que enfrentar o seu martírio. A recessão norte-americana, reconhecida somente em 2001, e seu efeito imediato de reconcentração de capitais teve um impacto catastrófico sobre a Argentina , que insistiu em manter a mesma política cambial e monetária. As bolsas de Buenos Aires e de São Paulo e o mercado de câmbio na região sinalizam: os investimentos estrangeiros estão de partida.
Países desmantelados e falidos não tem nenhum poder de negociação internacional. Brasil e Argentina só podem então esperar, esperar sua sorte, esperar incansavelmente Godot e a globalização. Mas quem chega, no final, é Pozot, o FMI com seu cordão de países-escravos. A nobre missão: assegurar a "sustentabilidade" das duas economias, ou seja, garantir a continuidade de pagamento dos extorsivos contratos de dívida. As dezenas de bilhões de dólares pagas como serviço de dívida externa por esses países cumprem não apenas o papel de lastreamento da orgia especulativa dos bancos credores internacionais. Essa duradoura hemorragia financeira serve antes de tudo para impedir o surgimento de pólos econômicos rivais na área de influência norte-americana.
Existe um sub-reptício papel geopolítico do FMI: impor camisas-de-força ao
países devedores ou blocos de países que adotem uma dinâmica centrífuga ao Império. E há o explícito papel econômico da Área de Livre Comércio das Américas: rearticular os setores econômicos dinâmicos sobrantes dos países latino-americanos em uma meta-rede hegemonizada pelos oligopólios norte-americanos.
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Luis Fernando Novoa Garzon,Sociólogo, Professor Universitário e membro do ATTAC(Ação pela Taxação das Transações Financeiras em Apoio aos Cidadãos)-Brasil