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Para onde vai a
globalização em 2002? No segundo ano do século, a
sustentabilidade do modelo neoliberal chega ao seu limiar. Até
aqui, as elites globalizadas postergaram a crise e adiaram o esgotamento
prematuro de um modelo de acumulação iniciado nos idos dos anos 70.
Chegaram `a borda do abismo multiplicando irresponsavelmente ativos
financeiros, convertendo o mercado de crédito em um sofisticado sistema
de agiotagem internacional e absorvendo sofregamente mercados
residuais de países emergentes. As dívidas externas lastrearam operações
malabarísticas dos grandes investidores e mantiveram a delicada posição
dos grandes bancos no sistema financeiro, atenuando o temido “risco sistêmico”.
Não casualmente, estes débitos tiveram que ser securitizados e
titularizados, ou seja, eternizados. Já a desregulamentação das
transações financeiras fez com que Instituições não bancárias e
Fundos de pensão concentrassem volumosos estoques de capital. Uma lógica
rentista e hematófaga passou a ditar a dinâmica dos investimentos. O
resultado não poderia ser outro: bolhas especulativas, maxidesvalorizações
e insolvência generalizada. A abertura irrestrita dos mercados dos países
periféricos serviu para remodelar a divisão internacional do trabalho
vigente, aprofundando sua lógica assimétrica. A montagem de redes
transnacionais funda-se em um planejamento espacial que leva em conta dois
parâmetros: custos e controle a longo prazo. No centro, em
sociedades minimamente “estabilizadas”, localizam-se os centros
nervosos dos negócios: alta tecnologia, marketing e administração. Nas
periferias segmentadas espalham-se unidades maquiladoras com graus
diversos de subordinação. O livre mercado ditou, duramente, o
sucateamento de estruturas econômicas nacionais, regionais e locais.
Benefícios, direitos sociais e serviços públicos foram reduzidos a pó
no moinho da “competitividade”. As Sociedades, com suas
velhas classes e hierarquias, adentraram o século XXI em franca
decomposição. A cavalaria vem em socorro A crise não é conjuntural e nem
será resolvida tecnicamente. No fundo, o capitalismo continua se afogando
em suas clássicas e insanáveis contradições : taxas decrescentes de
lucro e fragilidade de seus mecanismos de adesão e de identificação. O
alarme sistêmico soou e as elites globalizadas não fazem ouvidos moucos. A operação de socorro e salvamento teve
início com a vitória republicana – sintomaticamente um golpe
institucional - nas eleições presidenciais dos EUA. A Administração
Bush representa uma tentativa de soldagem do poder transnacional,
financeiro e bélico do capitalismo. Um ensaio de unificação de
suas estruturas decisórias informais. Este é o sentido último do
projeto unipolar, a que se convencionou chamar de “Doutrina
Bush”. Depois do dia 11 de setembro,
eliminaram-se os últimos traços da via "compassiva" e
gradualista, conduzida antes por Clinton. A “Guerra contra o
terrorismo” é antes de tudo uma guerra pela sobrevivência do
capitalismo. O cenário ideológico e militar precisava ser refeito para
que as variáveis econômicas pudessem continuar operando. “A defesa dos
interesses nacionais norte-americanos é a defesa dos interesses da
civilização ocidental”, dizem em coro Condoleeza Rice e Donald
Rumsfeld. Lição inescapável: a globalização só pode sobreviver na e
pela geopolítica. As mediações sócio-políticas estão
sendo descartadas. O tecido social já não se esgarça, rompe-se
irremediavelmente. Pactos são desfeitos e contratos sociais rasgados. O
“mundo sem fronteiras” é o capitalismo sem limites éticos ou
civilizacionais. Ninguém espere do “mercado livre” algo tão
bizarro quanto distribuição de renda e serviços públicos
universais. Há 30 anos, a opção social-democrática foi
inviabilizada pelo desmonte do Estado, particularmente do Welfare
State europeu. Agora chegou a vez da “Terceira via”,
“social-liberal”, ser obstruída definitivamente pelo
unilateralismo e pelo militarismo do novo consórcio de poder global. O rei está nu! A necessidade do prolongamento da guerra
imperial para outros países e a crescente desarticulação das economias
periféricas, tendo como emblema trágico o colapso da Argentina, põem
a nu a debilidade desse rearranjo . Mesmo assim, muitos continuam cegos
para as alternativas, pois vêem o neoliberalismo e o
“consenso de Washington” como formas ontológicas e naturais da
globalização. Elites decadentes e tecnocracias apátridas
se restringem a realizar “ajustes” e “correções de rota”.
Resta-lhes acreditar que o processo negociador da ALCA possa ser
"minimamente soberano". Aguardar a “sensibilidade” e o
“bom senso”do capital financeiro em renegociar a dívida externa
em melhores condições e em criar mecanismos de regulação das transações
especulativas. Torcer incondicionalmente para que, em uma conjuntura
de repactação da ordem internacional, prevaleçam na sede do Império,
práticas interativas e interdependentes. Compreensível, pois, que diante do
fracasso da política neoliberal na Argentina se diga que o problema foi a
“incompletude das reformas liberalizantes” e que diante de uma
nação humilhada e ofendida, se ofereça “um pouco mais do mesmo”.
Investidores e banqueiros internacionais, abarrotados de dólares extraídos
das forças vivas da nação argentina, acusam cinicamente o Governo de
“mau gerenciamento” de suas ordens. É preciso recordar que o descolamento do Brasil dos efeitos da crise Argentina é provisório e artificialmente sustentado por empréstimos-ponte do FMI. O nosso swap é melhor que o deles. Ainda assim, todo esforço tem sido pouco para se negar essa realidade. Freud talvez explique. Sem identidade , memória e caráter minimamente estruturados, o melhor a fazer, no caso das elites locais, é negar e sublimar o real. Sempre haverá um país, ou região, em piores condições, disponível para convenientes projeções e auto-enganos. As implicações e consequências dessa postura devem ser enfatizadas: 1) Passividade significa entregar-se à
atividade de outrem.
Tempo de disputar hegemonia Nunca o vácuo de poder foi tão profundo
e nunca foi tão urgente a necessidade de seu preenchimento. Segmentos
sociais, junto com seus modos de vida e identidades, estão sendo tragados
por um imenso buraco negro. As condições objetivas estão dadas para que
se constitua um novo bloco histórico. Basta que irrompam novas forças
hegemônicas capazes de articular os fragmentos de resistência
popular em uma grande trincheira internacionalista, multifacetada e
multicivilizacional. Agrupamentos e indivíduos aptos para elaborarem
pluralisticamente um projeto de sociedade global igualitária e
democrática frente ao controle tirânico do grande capital sobre os
povos. A polifonia rebelde deve ecoar pelos
quatro cantos, mas com síncope e cadência. O cancelamento da divida
externa dos paises periféricos, o controle democrático sobre o
sistema financeiro, a imposição de critérios sociais e de desempenho
sobre os investimentos transnacionais, a constituição de blocos
regionais cooperativos e a pacificação dos conflitos militares com base
no desarmamento e no intercambio cultural e econômico são pontos
iniciais para uma nova agenda a ser formulada.
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