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Para onde vai a globalização em 2002?
(Luis Fernando Novoa Garzon, 2002-01-16)

No segundo ano do século,  a  sustentabilidade do modelo neoliberal chega  ao seu limiar. Até aqui, as elites globalizadas postergaram a crise e adiaram o esgotamento prematuro de um modelo de acumulação iniciado nos idos dos anos 70. Chegaram `a borda do abismo multiplicando irresponsavelmente ativos financeiros, convertendo o mercado de crédito em um sofisticado sistema de agiotagem internacional e absorvendo  sofregamente mercados residuais de países emergentes.

As dívidas externas lastrearam operações malabarísticas dos grandes investidores e mantiveram a delicada posição dos grandes bancos no sistema financeiro, atenuando o temido “risco sistêmico”.  Não casualmente, estes débitos tiveram que ser securitizados e titularizados, ou seja, eternizados.  Já a desregulamentação das transações financeiras fez com que Instituições não bancárias e Fundos de pensão concentrassem volumosos estoques de capital. Uma lógica rentista e hematófaga passou a ditar a dinâmica dos investimentos. O resultado não poderia ser outro: bolhas especulativas, maxidesvalorizações e insolvência generalizada. 

A abertura irrestrita dos mercados dos países periféricos serviu para remodelar a divisão internacional do trabalho vigente, aprofundando sua lógica assimétrica. A montagem de redes transnacionais funda-se em um planejamento espacial que leva em conta dois parâmetros: custos e controle  a longo prazo. No centro, em sociedades minimamente “estabilizadas”, localizam-se os centros nervosos dos negócios: alta tecnologia, marketing e administração. Nas periferias segmentadas espalham-se unidades maquiladoras  com graus diversos de subordinação. 

O livre mercado ditou, duramente, o sucateamento de estruturas econômicas nacionais, regionais e locais. Benefícios, direitos sociais e serviços públicos foram reduzidos a pó no moinho da “competitividade”.  As Sociedades,  com suas velhas classes e hierarquias, adentraram o século XXI em franca  decomposição.  

A cavalaria vem em socorro 

A crise não é conjuntural e  nem será resolvida tecnicamente. No fundo, o capitalismo continua se afogando em suas clássicas e insanáveis contradições : taxas decrescentes de lucro e fragilidade de seus mecanismos de adesão e de identificação. O alarme sistêmico soou e as elites globalizadas não fazem ouvidos moucos. 

A operação de socorro e salvamento teve início com a vitória republicana – sintomaticamente um golpe institucional - nas eleições presidenciais dos EUA. A Administração Bush representa uma tentativa de soldagem do poder transnacional, financeiro e bélico do capitalismo. Um ensaio de unificação  de suas estruturas decisórias informais. Este é o sentido último do projeto unipolar, a que se  convencionou chamar de “Doutrina Bush”.  

Depois do dia 11 de setembro, eliminaram-se os últimos traços da via "compassiva" e gradualista, conduzida antes por Clinton. A “Guerra contra o terrorismo” é antes de tudo uma guerra pela sobrevivência do capitalismo. O cenário ideológico e militar precisava ser refeito para que as variáveis econômicas pudessem continuar operando. “A defesa dos interesses nacionais norte-americanos é a defesa dos interesses da civilização ocidental”, dizem em coro Condoleeza Rice e Donald Rumsfeld. Lição inescapável: a globalização só pode sobreviver na e pela geopolítica.  

As mediações sócio-políticas estão sendo descartadas. O tecido social já não se esgarça, rompe-se irremediavelmente. Pactos são desfeitos e contratos sociais rasgados. O “mundo sem fronteiras” é o capitalismo sem limites éticos ou civilizacionais.  Ninguém espere do “mercado livre” algo tão bizarro quanto distribuição de renda e  serviços públicos universais. Há 30 anos, a opção  social-democrática foi inviabilizada pelo desmonte do Estado,  particularmente do Welfare State europeu. Agora chegou  a vez da “Terceira via”,  “social-liberal”,  ser  obstruída definitivamente pelo unilateralismo e pelo militarismo do novo consórcio de poder global. 

O rei está nu!

A necessidade do prolongamento da guerra imperial para outros países e a crescente desarticulação das economias periféricas, tendo como emblema  trágico o colapso da Argentina, põem a nu a debilidade desse rearranjo . Mesmo assim, muitos continuam cegos para as alternativas, pois vêem o  neoliberalismo e  o “consenso de Washington” como formas ontológicas e naturais da globalização. 

Elites decadentes e tecnocracias apátridas se restringem a realizar  “ajustes” e “correções de rota”. Resta-lhes acreditar que o processo negociador da ALCA possa ser "minimamente soberano". Aguardar a “sensibilidade” e o “bom senso”do capital financeiro  em renegociar a dívida externa em melhores condições e em criar mecanismos de regulação das transações especulativas. Torcer incondicionalmente  para que, em uma conjuntura de repactação da ordem internacional, prevaleçam na sede do Império, práticas interativas e interdependentes. 

Compreensível, pois, que diante do fracasso da política neoliberal na Argentina se diga que o problema foi a “incompletude das reformas liberalizantes”  e que diante de uma nação humilhada e ofendida, se ofereça “um pouco mais do mesmo”. Investidores e banqueiros internacionais, abarrotados de dólares extraídos das forças vivas da nação argentina, acusam cinicamente o Governo de “mau gerenciamento” de suas ordens. 

É preciso recordar que o descolamento do Brasil dos efeitos da crise Argentina é provisório e artificialmente sustentado  por empréstimos-ponte do FMI. O nosso swap é melhor que o deles. Ainda assim, todo esforço tem sido pouco para se negar essa realidade. Freud talvez explique. Sem identidade ,  memória e caráter minimamente estruturados, o melhor a fazer, no caso das elites locais,  é  negar e sublimar o real. Sempre haverá um país, ou região,  em piores condições, disponível para convenientes projeções e auto-enganos.

 As implicações e  consequências dessa postura devem ser enfatizadas:

1) Passividade significa entregar-se à atividade de outrem.
2) A apatia coletiva é condição para  todas as patologias privadas.
3) O poder dos particularismos se constrói no vácuo da vontade geral. 
4) A magnitude da vontade imperial só se ergue sobre o mais estrito  servilismo.

Tempo de disputar hegemonia

Nunca o vácuo de poder foi tão profundo e nunca foi tão urgente a necessidade de seu preenchimento. Segmentos sociais, junto com seus modos de vida e identidades, estão sendo tragados por um imenso buraco negro. As condições objetivas estão dadas para que se constitua um novo bloco histórico. Basta que irrompam novas forças hegemônicas capazes de articular  os fragmentos de resistência popular  em uma grande trincheira internacionalista, multifacetada e multicivilizacional. Agrupamentos e indivíduos aptos para elaborarem pluralisticamente  um projeto de sociedade global igualitária e democrática frente ao controle tirânico do grande capital sobre os povos.  

A polifonia rebelde deve ecoar pelos quatro cantos, mas com síncope e cadência. O cancelamento da divida externa dos paises periféricos, o controle democrático  sobre o sistema financeiro, a imposição de critérios sociais e de desempenho sobre os investimentos transnacionais, a constituição de blocos regionais cooperativos e a pacificação dos conflitos militares com base no desarmamento e no intercambio cultural e econômico são pontos iniciais para uma nova  agenda a ser formulada.

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Luis Fernando Novoa Garzon
,Sociólogo, Professor Universitário e membro do ATTAC(Ação pela Taxação das Transações Financeiras em Apoio aos Cidadãos)-Brasil

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