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A nova ordem imperial e o sacrifício racional da ONU
(Luis Fernando Novoa Garzon, 2003-10-01)

19 de agosto de 2003, às 16:30 horas, mais uma terça-feira "imprevisível". O prédio que sediava o escritório da ONU no Iraque era o alvo. Sérgio Vieira de Melo e sua equipe, encarregados de balizar a transição do Governo coalizão anglo-americana para um Governo civil iraquiano, foram executados em uma operação militar e premeditada. O direcionamento exato da detonação para que a onda de impacto atingisse o terceiro andar das instalações comprova o papel destacado que teve a inteligência nas diversas etapas do empreendimento. Sem infiltração no interior do quartel general da ONU não haveria conhecimento da distribuição exata dos gabinetes e dos horários rotineiros de reunião. Sem infiltração nas empresas de segurança e de reconstrução da infra-estrutura do país que afluíram ao Iraque não seria possível realizar um ataque com um veículo-bomba, com opção de escolha de horário e local.

A operação foi um sucesso de logística e coordenação entre equipes altamente profissionalizadas. Ações que demandam alta tecnologia, fornecimento e grandes deslocamentos de capital financeiro necessariamente estão integradas a estratégias econômicas e geopolíticas muito bem posicionadas. O perfil técnico e organizativo da operação não condiz com o perfil "irracional e insano" de seus pretensos autores. Sabe-se bem a origem dos loucos racionais, a matriz dessa barbárie tão civilizada.

Não pode haver discussão. Troca-se a investigação pelo preconceito quando se imputa sem delongas este e outros atentados a terroristas suicidas. A opinião pública fica sabendo que os soldados norte-americanos acabaram de encontrar "fragmentos de tecido humano em meio aos destroços do caminhão". Isso prova que os ocupantes eram suicidas ou apenas indica que havia pessoas ou corpos dentro do veículo? Qualquer objeto móvel é dirigível à distância. Sondas vão a Marte sob monitoramento, os mísseis de última geração têm uma navegabilidade superior à dos aviões pilotados e até mesmo os ataques artesanais do ETA valem-se alguma técnica de dirigibilidade. Mas quem se lembra? A amnésia abre caminho para as memórias instantâneas. Claro, dos homens-bomba palestinos estereotipados ninguém se esquece. Carregam a marca padronizadora da Besta: atentados genocidas contra alvos civis e ocidentais.

O logotipo em fantasioso design árabe anuncia o fim do Ocidente, como se precisássemos de alguma ajuda "externa" para isso. Escombros de instalações ocidentais são o cenário ideal para a construção dos mitos, apocalípticos e salvacionistas, pela ordem. Panfletos "encontrados" próximos do local da explosão proclamam a eventual autoria. A organização imaginária e seu nome imaginativo não se encaixam em nenhuma tradição do vasto e heterogêneo mundo islâmico. As Vanguardas Armadas do Segundo Exército de Maomé avisam que "não haverá paz até a morte dos estrangeiros", ou seja, dos ocidentais. Quem aceita tal premissa e risco precisa invertê-los, matando antes. O terror revelou a verdadeira vocação da razão ocidental: a guerra preventiva e permanente como uma incessante auto-afirmação às custas da destruição daquilo que se lhe opõe.

A Doutrina Bush é a doutrina de sobrevivência do capitalismo global putrefato, disfarçado de "civilização ocidental ameaçada". Não são os islâmicos cansados de guerra e perseguição que pleiteiam a volta do segundo exército de Maomé. O choque de civilizações é o fundamento último da política externa dos EUA. Quem se refere sempre às Cruzadas como modelo de auto-defesa do "mundo livre e cristão" frente ao próximo "levante do Islã" é o Pentágono.

O atentado à sede da ONU tem valor agregado, simbólico e intangível. A espetacularização da obsolescência do multilateralismo como modo de gestão das relações internacionais. Exaurida a metodologia negociadora para se construir hegemonia e enterrados os inconvenientes parâmetros de ação recíproca, pode emergir um novo tipo de ordem internacional há muito tempo desejado nos círculos mais estritos de poder. Os "terroristas" continuam fazendo o favor de tornar legítimo o Império mundial anti-terror.

A ONU decomposta é obrigada a reconhecer que "a segurança no Iraque é responsabilidade dos EUA". Seria mais sincero se dissesse, a "segurança do mundo" . A declaração prepara o terreno para a autorização da instalação de 4 bases militares e para a permanência das tropas norte-americanas, acrescidas por "tropas internacionais", por tempo indeterminado no país. A disputa intestina do grande capital pelo controle das jazidas do Iraque e, por tabela, das dos vizinhos, impõe seu ritmo e cronograma. O destino de trilhões de dólares não se acerta com discursos e prazos formais. Suborno, espionagem, chantagem, execuções, incêndios criminosos e explosões são recursos que nenhum lobby acima de seis dígitos abre mão. Os atentados praticados no país ocupado dão conta dos desacertos licitatórios no processo de privatização do petróleo iraquiano. A seqüência de atos de sabotagem de maio até hoje envolvem unidades de infra estrutura que estão em litígio privado. Enquanto isso, as verdadeiras rebeliões do povo iraquiano são camufladas e reapresentadas. Os cadáveres de civis iraquianos estão ali para isso mesmo, serem incriminados. Os que ousarem exibir os pogrons sociais morrem, jornalistas da Reuters inclusive. A resistência iraquiana ganha os contornos que Rumsfeld e Cheney querem, contando com a ação corretiva local de seus comandos paramilitares, alguns assumidamente mercenários.

Quem considerar a "guerra contra o terrorismo" empreendida pelo Governo Bush como uma cruzada de defesa da civilização ocidental contra grupos fanáticos movidos pelo ódio religioso e ressentimento social, deve reconsiderar toda a história das guerras recentes. É preciso emburrecer retroativamente para ser coerente com a visão da Doutrina Bush. A primeira Guerra do Golfo, em 1991, só aconteceu porque era preciso libertar o povo livre do Kuwait do regime tirânico de Saddam, não é? Quem engolir a alegação da existência de armas de destruição em massa nas mãos de fanáticos islâmicos, deve engolir também todas as outras peças de propaganda de guerra já feitas. Quem absorver o cinismo da justificativa democrática para a última invasão do Iraque, que seja cínico o suficiente para justificar todos os expansionimos passados e vindouros. Então fica combinado: a guerra do Vietnã foi uma guerra em defesa do Governo democrático do então Vietnã do Sul frente às ameaças da sociedade totalitária do norte; e a próxima guerra ao Irã será para livrar a humanidade do risco de que os grupos xiitas obtenham armas atõmicas. Ponha o dedo aqui. Maniqueísmo parcial não vale.

Se acha que o grande problema do mundo é o terrorismo, e não a catástrofe da exclusão crescente, multidirecional étnica, social, econômica e digital, relaxe e jogue sua responsabilidade histórica no primeiro bode expiatório que lhe apresentarem. Jogue nas costas do mais fraco seu próprio fardo. Repita consigo mesmo: eu não tenho problemas, nós não temos problemas, o problema são os outros, mate os outros! Uma questão de modo de vida ocidental. Nosso western way of life.

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Luis Fernando Novoa Garzon, Sociólogo, mestre em Ciências Políticas pela UNICAMP, professor e membro da ATTAC-SP(Ação pela Taxação das Transações Financeiras em Apoio aos Cidadãos). Colaborador da Revista de Cultura Vozes, Cadernos do Terceiro Mundo, Caros Amigos e sites como EconomiaNet, Novae e Oficina de informações. Seus estudos e reflexões concentram-se no diagnóstico da crise global e na elaboração de alternativas frente a ela. 
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