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Alca: Yes, nós temos bananas!
(Luis Fernando Novoa Garzon, 2001-09-24)

Quando uma economia gigantesca, dona do maior PIB do mundo, propõe a economias debilitadas e defasadas uma zona de livre de comércio, o que se pode aguardar, senão o controle avassalador de todo o mercado liberado?

Esse é o objetivo da Área de Livre Comércio das Américas (Alca).
Esse projeto é a realização do ´destino manifesto´ dos EUA, o sonho americano: a unipolarização econômica do mundo. A ALCA é o instrumento de aperfeiçoamento e potencialização da hegemonia norte-americana, através de uma recomposição de países periféricos num bloco sob total controle das grandes multinacionais norte-americanas.

O projeto Alca aos poucos vai ganhando os contornos adequados para convencer as burguesias latino-americanas das vantagens (para elas) desse novo enquadramento. Será uma negociação no varejo, na qual cada país sacrificará o resto de sua autonomia econômica (moeda, subsídios, compras governamentais, patentes) em troca de uma ligeira abertura do mercado norte-americano, para produtos primários, que fique bem claro.
A abdução e condução dos demais países latino-americanos, portanto, é dada como mais ou menos certa e não necessitaria da Alca para acontecer. A adesão do Brasil é que a mais cobiçada. E o que é que o Brasil tem que tanto interessa ao Tio Sam?

Os dotes nacionais são inúmeros e invejáveis: a) um mercado interno que apesar de elitizado conta com mais de 30 milhões de consumidores; b) abundantes e valiosos recursos naturais, como a biodiversidade, petróleo, minérios metálicos; c) conjunto de empresas altamente competitivas ainda sob controle interno como a Petrobras, Furnas, Votorantim, Bradesco, Embraer, etc; d) mão-de-obra relativamente qualificada e absolutamente mal paga; e) grande extensão de áreas de plantations, fornecedoras de matérias-primas agrícolas; f) um conjunto precioso de filiais de multinacionais com grande capacidade de reexportação.

Sim, o Brasil é o maior filão da Alca, mas não é só. Mais do que absorver os fatores econômicos postados no território e vinculá-los às estruturas oligopolistas norte-americanas, trata-se de eliminar um rival potencial e que ocupa um espaço residual no comércio mundial e regional que consideram lhes pertencer.
Mantidas as linhas da política econômica e, conseqüentemente, da política externa do Governo FHC, o melhor que podemos esperar é disputar um lugar privilegiado no quintal-senzala. Será um espetáculo deprimente de empurra-empurra entre Brasil, México, Argentina e Chile, para ver quem se mostra mais subserviente e lucrativo ao senhor capital na sua grande Casa Branca.

A postura de resistência de FHC a uma ´Alca indesejada´, sem contrapartidas por parte dos Estados Unidos visa apenas a valorizar a adesão do Brasil. Mesmo que os EUA apresentem uma versão de Alca com a abertura do mercado norte-americano, isso significaria trocar alhos por bugalhos, sacrificar setores industriais de ponta e de serviços sofisticados, por uma maior presença no mercado norte-americano de commodities agrícolas e minerais, e no mercado industrial rebaixado que é o de calçados e têxteis. Isso seria sacrificar nosso mais promissor perfil produtivo, jogando-nos na vala comum de países como El Salvador e Honduras, que além dos tradicionais plantations, vêm se especializando em indústria têxtil, por exemplo. 

Até mesmo as multinacionais situadas no Brasil irão sofrer uma radical remodelação. Muitas unidades serão fechadas ou mutiladas (veja o caso da Crysler no Paraná), em função de custos que serão reavaliados continentalmente . O Governo FHC, apesar do tom nacionalista, na prática está a nos colocar ao lado das Repúblicas das Bananas.

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Luis Fernando Novoa Garzon
, é sociólogo, professor universitário e membro da coordenação do ATTAC/Brasil

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