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A coreografia macabra
do Inimigo invisível e do Império onipresente
Desconstrução da história, supressão
de eventos e fatos contraditórios, manipulação do pânico, indução
da histeria, controle da língua e do significado, encarnação do
mal absoluto em um inimigo terrível e imaginário. A partir de 11 de
setembro guerra é paz, liberdade é escravidão e ignorância é força.
Esses são os ingredientes de uma obra-prima de George Orwell, o
profético livro “1984”. Imaginava-se até então que se tratava de
uma parábola datada porque endereçada aos regimes stalinista e
nazista iniciados nos sombrios anos 30. A mensagem universal da obra foi
neutralizada por um recorrente mecanismo de defesa dos donos do poder: o
expurgo em outrem de todos os males da civilização. A “patologia
alemã” ou a “patologia russa” foram construídas para afirmarem a
“sanidade anglo-saxâ” tanto na Segunda Guerra Mundial quanto na
Guerra Fria, respectivamente. Mas para espanto daqueles que fizeram da
democracia e do livre mercado um fetiche e não uma vivência, “1984”
está começando em 2001. Evidências aterradoras disso. Em
uma só tacada e em um só dia o imperialismo norte-americano passou a ser
chamado de “Império do Bem”. O “Mal” absoluto no mundo
contemporâneo passou a se chamar fundamentalismo islâmico. Bin Laden e
seus asseclas fizeram o favor de absorver para si todas as mazelas
próprias das elites capitalistas. Eles têm a marca registrada e
exclusiva de “violentos”, “desumanos”, e de assassinos
“frios e calculistas”. Fazendo cara de susto as elites capitalistas
vêm nos alertar que os islâmicos radicais são “monstros” dispostos
a destruir a “modernidade”, a “democracia” e a “economia de
mercado”. Quem jogou por terra as promessas
luminosas da modernidade senão as neo-aristocracias burguesas e
burocráticas? Quem pisoteou os ideais e os princípios democráticos
senão os lobbies dos feudos econômicos? Quem tornou peça de
ficção o capitalismo concorrencial senão as absolutistas corporações
multinacionais? Nada mais conveniente aos puritanos e
fundamentalistas do que um bode expiatório para projetar seus erros e
eliminar todo o dissenso . O clássico recurso dos imperialismos
para justificarem a expansão de seu domínio e de sua riqueza através da
violência, da megalomania e do racismo. Supremo inimigo esse que propicia a
cimentação e soldagem das incômodas rachaduras do sistema capitalista.
Amado inimigo esse que permite o enquadramento brutal de todas as zonas de
instabilidade do planeta. Esperado inimigo esse, apocalíptico,
extra-territorial e invisível, que inaugura a necessidade de um sistema
de controle e vigilância compatível, um panopticum. Inescapável
conclusão: se o inimigo é capaz de tudo e pode estar em qualquer
lugar, a única forma de submetê-lo é constituir um império
mundial totalitário e onipresente. A recessão econômica e o risco
financeiro sistêmico agudizados após 1997 e a crescente deslegitimação
política e cultural da sociedade consumista e hedonista geraram
instabilidade em níveis insuportáveis para a ordem capitalista global. A
reordenação da geometria do poder internacional conduzida a fórceps
pelos EUA em nome do combate ao terrorismo resultará em: a)
militarização das relações internacionais e realce das disputas
geopolíticas; b) o involucramento das negociações multilaterais no
interior de alianças maniqueístas, com relevo para assuntos de
segurança e controle; c) o estabelecimento de mais um próspero
ciclo de keynesianismo bélico, que servirá como instrumento de
empuxe para a ampliação de investimentos e de lastreamento do
sistema financeiro internacional. Mais uma antiga lição:
guerras são lucrativas e concentram poder nas mãos de determinadas
frações e setores em detrimento de outros. O totalitarismo privado
incrustrado no projeto do Acordo Multilateral de Investimentos perdeu o ar
de espectro para ganhar toda sua carnadura. O “Bem” não negocia, se
impõe. Bin Laden parece ter ouvido o
clamor do Império e veio salvá-lo. Um messias forjado no interior
complexo industrial-militar norte-americano, que outra natureza poderia
ter senão a destrutiva-construtiva? O caos é produzido para que se
produzam novas ordens. E não se trata de conspiracionismo, mas de um
mecanismo de mercado clássico, o de se criar dificuldades e problemas
para se vender facilidades e soluções. Os atentados atribuídos a Bin Laden
desde o começo da década de 1990, quando “rompeu” com os EUA, têm
vínculos simétricos com as violentas reacomodações internas das elites
norte-americanas. Uma potência erguida sob o signo da violência e sobre
a pilha de milhões de cadáveres, não poderia ter outra forma de
estruturação do poder político. O destino de bilhões de dólares e o
poder sobre parte considerável do mundo não são decididos amigavelmente
em um chá de senhoritas. Os que tinham dúvidas quanto ao caráter
canibalístico dessa disputa perderam suas ilusões e alguns,
literalmente, suas cabeças. Os interesses são muito mais
contraditórios em um Império do que em um Estado-nação. Os pactos de
poder não só são mais complexos como abrigam polarizações muito mais
agudas e por isso mesmo violentas. Ao mesmo tempo, a formação
territorial dos EUA dependeu da imposição da lei na terra sem lei. As
instituições nasceram “puras” e puritanas e sem resquícios feudais
no solo americano. Foi com base nessa associação esquizofrênica entre
regras morais superiores e violência heróica que se vislumbrou o
“destino manifesto” dos EUA. Por merecimento e superioridade, os
norte-americanos (brancos) devem governar e liderar o mundo. Alguma semelhança desse mito fundador
com o arianismo nazista não é mera coincidência. Os liberais e os
democratas não se esforçaram tanto à toa. A virulência das
escaramuças entre os oligopólios e os diversos aparelhos
policiais-militares costumam ficar escondidas por detrás de conceitos
como “democracia pluralista”, “ livre mercado político” e “poliarquia”.
Essa assepsia ideológica é extremamente útil quando o núcleo
duro do poder resolve ajustar suas contas. Fica fácil transferir a
responsabilidade de seus atentados, bombas, explosões, execuções para
estrangeiros ou loucos de plantão como Lee Oswald e Thimothy MacVeigh. Poder econômico concentrado, maniqueísmo, violência como língua oficial e racismo. Esse é o sistema político-cultural dos sonhos da extrema-direita. Os atentados do dia 11 de setembro de 2001 e as incriminações e desdobramentos posteriores pertencem a uma lógica terrorista não alheia à da CIA (um Estado terrorista dentro do Estado) e de seus grupos anexos, as Milícias de Montana e de Michigan, o movimento neonazista estadunidense, a Ku Klux Klan e de aliados “oficialistas” no interior do Partido Republicano, como o Vice-Presidente Dick Cheney. Ninguém pode negar que também são ou “foram” bons companheiros da CIA a Máfia, os Cartéis do narcotráfico e os grupos fundamentalistas como o de Bin Laden.
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