» Opinião

O que o projeto da ALCA representa?
(Giovanni Alves, 2003-11-04)

O projeto da ALCA (Área de Livre Comércio das Américas), que reúne um conglomerado de 34 países, 800 milhões de habitantes e uma economia conjunta de 11 trilhões de dólares, representa o mais importante projeto hegemônico dos Estados Unidos das Américas no pós- II guerra mundial. Ocorre num momento de crise estrutural do capital, crise da civilização do capital que, nos últimos trinta anos, contribuiu para o desenvolvimento das políticas neoliberais, da mundialização financeira e do complexo de reestruturação capitalista que atinge as mais diversas esferas da vida social.
Estamos ainda imersos no interior da crise da ordem sócio-metabólica do capital que deve ser de longa duração. É uma crise de civilização que atinge, com intensidade e amplitude, seupólo hegemônico e o núcleo dinâmicoda economia capitalista muindial – os Estados Unidos da América. Mais ainda: os EUA representam uma potência industrial-militar global que se encontra, na década de 2000, diante de uma série de contradições internas que procura deslocar, como tem feito no decorrer da construção de sua hegemonia secular, para a periferia do seu subsistema continental.
Deste modo, o processo de integração continental possui uma função histórica: deslocar contradições internas ao núcleo do sistema hegemônico para permitir a recomposição de seu padrão de desenvolvimento capitalista. Como resultado, tende a ampliar e intensificar os traços essenciais de uma lógica de desenvolvimento sistêmico baseada na exploração, desigualdade e exclusão (no interior de um processo de modernização crítico).
O projeto da ALCA tal como proposto pelos EUA apenas repõe num patamar superior os problemas estruturais da ordem hegemônica do capital no continente americano. Todas as análises de impacto da ALCA nos “parceiros” dos EUA indicam o aprofundamento das desigualdades de classe, de região e de países, principalmente em relação ao Império do Norte. No caso do Brasil, a opção ALCA tende a impor uma especialização ainda mais regressiva do que a verificada nos primeiros anos de abertura comercial da gestão Collor/Cardoso. O que sugere que o projeto americano da ALCA é mais um sinal de regressividade da ordem sócio-metabólica do capital, levada a cabo pelo seu pólo hegemônico.
Estes são os limites da negociação política levada a cabo entre os EUA e os demais “parceiros” comerciais. A lógica societal que representa a Casa Branca é a lógica de um sistema sócio-metabólico crítico, que dilacera o tempo e espaço territorial das sociabilidades periféricas ainda integradas à dinâmica produtiva. Para poder recompor sua hegemonia sistêmica, os EUA e seu bloco de poder corporativo precisam, mais do que nunca, dissolver os nexos de modernização ainda autônomos no interior de seu próprio subsistema metabólico. Os limites de uma negociação comercial são a própria lógica sistêmica que determina os interessas das partes interessadas. Diante dela, a política se cala e surge uma área de indefinição estrutural que se prolonga no tempo (vide Acordos da OMC pela nova liberalização comercial, que se arrastam há anos).
O que não significa que o projeto da ALCA não seja implementado. Talvez não se viabilize como propõe os EUA. Talvez surja uma nova agenda de integração capaz de viabilizar a ALCA, ou alguma forma de integração subcontinental, tendo em vista que tais acordos de integração regional ou continental, apesar de terem sido, até agora, apropriados pelos interesses hegemônicos do capital, possuem, em si, um sentido civilizatório pressuposto: criar um espaço de integração cada mais amplo entre economias nacionais capaz de colocar em nosso horizonte político, a necessidade de irmos além das províncias nacionais, como condição estrutural (e geopolítica) para irmos além do próprio capital como sistema mundial sócio-metabólico.
Eis a contradição dilacerante de uma ordem mundial que coloca, em seus dispositivos de reprodução sistêmica, elementos de sua apropria negação. Mas cabe salientar, para aqueles que não apreendem o sentido dialético de tal proposição analítica que, o que se coloca como possibilidade concreta– a integração continental dos povos da América Latina e Caribe através do intercâmbio comercial (e quiçá, político e social) – é absolutamente frustrado pelo capital. O que significa que o projeto da ALCA é, em si e para si, tal como proposto pelos EUA, mais um elemento regressivo dessa ordem mundial em crise. É, se implementado como querem a Casa Branca, um ato superior de regressividade civilizatória ou de barbarismo, como tem sido a política da globalização nas últimas décadas.
O que nos consola é que o xadrez político no Brasil e na Argentina, paises importantes no Continente Americano, é bastante diferente daquele que havia nos primórdios da década neoliberal. O que coloca dificuldades políticas imensas para implementar o projeto da ALCA tal como a Casa Branca deseja. Com certeza, os próximos anos serão tempos interessantes. E diante desses elementos críticos para a reprodução hegemônica do Império do Norte, só nos resta dizer, como Marx citando Esopo: Hic Rhodus, Hic Salta. [1]

Notas
[1] A frase “Hic Rhodus, hic salta!” é tirada de uma das fábulas de Esopo e utilizada no O 18 Brumário de Karl Marx. Nessa fábula um fanfarrão gabava-se de ter testemunhas para provar que certa vez executou um notável salto em Rodes, uma das 7 Maravilhas do Mundo Antigo. Entretanto ele recebeu a seguinte resposta: "para que citar testemunhas se é verdade? Aqui está Rodes, Salta aqui!". Em outras palavras: Mostra aqui mesmo, na prática, o que és capaz de fazer. O fanfarrão nesse caso seria o Governo Bush, diante dos desafios de "construir" a ALCA segundo os interesses de um Império em crise. Vamos ver na prática, o que os EUA serão capazes de fazer.

____________________
Giovanni Alves é professor de sociologia da UNESP - Campus de Marília
Outros artigos do autor
 


Enviar para amigo

Fazer comentário

Imprimir a página

Os textos aqui publicados são de responsabilidade de seus autores ou fontes e podem não expressar a opinião da EconomiaNet - www.economiabr.net