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A natureza da crise da globalização - X
(Giovanni Alves, 2003-11-04)

A crise da globalização assumiu, a partir de 2000, uma nova fase de desenvolvimento com o estouro da bolha financeira no "núcleo orgânico" do sistema mundial do capital - Wall Street/Nasdaq. Nos últimos anos, a queima de capital fictício tem sido significativa, atingindo em torno de 2 trilhões de dólares. A desaceleração da economia dos EUA tornou mais difícil a recuperação das economias européias e japonesas, além de limitar a recuperação das economias subalternas periféricas, atingidas pelo prelúdio da crise da globalização, a partir de 1997 (como é o caso do Brasil). Os atentados de 11 de setembro deram à recessão global uma tonalidade de barbárie intensificada. 

A crise da globalização explicitou, deste modo, a natureza de crise orgânica e estrutural do sistema mundial do capital. Mas o que se discute agora são as perspectivas da retomada de crescimento da economia norte-americana, ou seja, as perspectivas de um novo ciclo de crescimento do capitalismo em seu "centro dinâmico", capaz de reanimar a economia mundial. É o que poderíamos considerar uma nova globalização. Alguns analistas são pessimistas sobre as perspectivas de um crescimento sustentável do "centro dinâmico" do sistema mundial do capital. É o caso de Robert Brenner, que após analisar a natureza da globalização em seu último livro, publicado no Brasil pela Editora Record ("O Boom e a Bolha"), tem emitido opiniões pessimistas sobre a possibilidade de uma nova onda de crescimento mundial.

As contradições da economia capitalista atingiram um patamar insustentável que colocam uma série de restrições a uma saída sustentável da crise da globalização. O que Brenner quer destacar é isso: a sustentabilidade de crescimento da economia dos Estados Unidos é incerta. Mesmo que ocorra uma aceleração significativa da atividade da economia capitalista nos Estados Unidos, existem umas séries de gargalos que devem impedir sua sustentabilidade. Na verdade, a crise cíclica assume uma nova temporalidade, identificando-se, deste modo, com a dinâmica de uma crise orgânica e de uma crise estrutural, como destacamos no artigo anterior. 

Um dos principais gargalos destacado por Brenner, por exemplo, é o aumento do déficit em conta corrente dos EUA e do superávit das economias asiáticas e européias. Este é o resultado de um quarto de século de austeridade econômica e abertura dos mercados de bens e de capitais, de acordo com o neoliberalismo. A redução das taxas de crescimento das economias domésticas tornou a maioria das nações dependentes de suas exportações e, portanto, do contínuo crescimento das importações americanas. É por isso que o mundo capitalista está ansioso pela retomada da economia dos EUA. As bolhas de ações, de imóveis e de títulos nos EUA são nutridas, direta ou indiretamente, pelo fluxo de capitais do mundo capitalistas que convergem para os EUA para cobrir o explosivo déficit externo e manter o valor do dólar. Tal como no Brasil, o suposto crescimento da economia dos EUA é ancorado na entrada de capitais estrangeiros. 

Entretanto, a retomada da economia americana possui um efeito colateral perverso: deve dar vigor ao mercado acionário e as taxas de juros nos EUA poderão se tornar bem mais alta, o que deverá atrair o capital global, prejudicando ainda mais o fechamento do balanço de pagamento das "economias emergentes", carentes de hot money (como é o caso do Brasil). Além disso, se a subida dos juros vier acompanhada de uma desvalorização do dólar diante do euro e yuan (a moeda chinesa), poderá dificultar as exportações dos países "emergentes", acirrando a guerra comercial no "centro dinâmico" do sistema. 

Este é o padrão predatório de crescimento da globalização. A expansão americana, se ocorrer, mesmo que precária, deverá constranger, no limite, políticas alternativas de crescimento nos paises capitalistas subalternos da periferia desenvolvida que se aproveitaram de um pequeno (e medíocre) surto de crescimento, como o Brasil. 

Para manter o fluxo de capitais, os "mercados emergentes" poderão ser obrigados a adotar políticas macroeconômicas ortodoxas - taxas de juros mais altas, salários mais baixos, cortes mais profundos no consumo, maiores superávits fiscais e venda de ativos nacionais a preços aviltantes (se ainda os tiver). Eis o padrão neoliberal adotado pelo Governo Fernando Cardoso e que deverá desafiar o Governo Lula nas condições de uma retomada da economia dos EUA e do aumento das taxas de juros daquele país. B

renner pondera que, por outro lado, se a recuperação americana não ocorrer os paises desenvolvidos - como União Européia e Japão, continuarão patinando e a periferia desenvolvida, como o Brasil, pode esperar recessões mais profundas. As políticas neoliberais na periferia industrializada tornaram paises como o Brasil bastante vulnerável ao novo humor da economia mundial, imersa na crise estrutural do capital e na volubilidade dos fluxos de capital financeiro. 

O surgimento de governo pós-neoliberais no ápice da crise da globalização (como o Governo Lula) abre novas contradições políticas de amplo espectro. São governos burgueses que são obrigados a lidar com o paradoxo de ir além do padrão neoliberal e, ao mesmo tempo, não romper com o mercado financeiro, tendo em vista a vulnerabilidade externa acentuada constituída nos últimos governos neoliberais. Tal paradoxo pós-neoliberal explica o pendulo de Lula, sua oscilação entre a esquerda e a direita. 

Por outro lado, o desafio do crescimento sustentável da economia brasileira vincula-se a capacidade dos governos pós-neoliberais de restringirem a vulnerabilidade externa, o que significa adotar como condição mínima, o controle de capitais (adotada por paises como China, Taiwan e Cingapura). É uma medida necessária, embora não suficiente, pois apenas criaria as condições internas para um novo modo de desenvolvimento, que dependeria é claro de novos acordos com o capital estrangeiro e uma nova articulação geopolítica e geocomercial não apenas do Brasil, mas do bloco continental aonde se insere nosso País (o que demonstra a relevância das negociações na OMC e sobre a ALCA). 

Na verdade, sob a crise da globalização, a margem de manobra para os governos pós-neoliberais é bastante restrita. A natureza da crise - orgânica e estrutural, dá uma nova dinâmica ao ciclo capitalista, além de colocar desafios inéditos para políticas de crescimento e desenvolvimento locais, nacionais e regionais, cada vez mais dependentes de constrangimentos globais, dados pelo capital financeiro, o "senhor dos anéis" da globalização. 

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Giovanni Alves é professor de sociologia da UNESP - Campus de Marília
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