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Enfim o BC dá sinais de flexibilização da política monetária
(Fernando Gomiero, 2002-03-03)

A excessiva cautela que marcou o comportamento da maior autoridade monetária no ano passado, está sendo deixada de lado. Pelo menos é o que parece, a julgar pela recente redução da taxa de juros, que baixou de 19% para 18,75%, atitude que surpreendeu o mercado após doze meses sem qualquer redução. Um recuo de 0,25 ponto percentual que pode marcar o início de uma postura mais flexível do BC na condução da política monetária.

Em 2001, com apenas três tacadas a instituição elevou a taxa de juros em 3,75 pontos percentuais: ela saiu de 15,25% para 15,75% em março, uma dose cavalar de 2,5 pontos percentuais elevou-a para 18,25% no mês de junho, e voltou a subir em julho, desta vez para 19%. Neste patamar os juros ficaram congelados até fevereiro deste ano, quando o COPOM (Comitê de Política Monetária do BC) decidiu baixá-los em 0,25 ponto percentual, fixando-os em 18,75%  ao ano.

 É pouco? Não parece grande coisa, é verdade, mas, muito mais do que os reflexos sobre os demais fundamentos macroeconômicos, que só serão sentidos no intervalo de nove meses,  é a enorme contribuição que esse 0,25 ponto percentual representa para a dívida pública: em valores absolutos, um alívio do tamanho R$ 750 milhões anuais em economia para os cofres do Tesouro, já que nada menos que 52,6% dela está vinculado a títulos pós-fixados, cuja correção é atrelada à taxa Selic. E, como a dívida pública é um indicador de peso na avaliação da vulnerabilidade de um país, para o Brasil tal economia ainda significa bons dividendos lá fora.

Além disso, qualquer exagero na dose poderia iniciar uma reação em cadeia indesejável para os planos do BC em manter os índices inflacionários compatíveis com as metas estabelecidas para o ano. Uma meta central de 3,5% que, todavia, tolera uma margem de erro de 2 pontos percentuais, para cima ou para baixo, quer dizer, o índice anual poderá oscilar dentro da faixa de 1,5% a 5,5%. Para atingi-la o BC conta com o bom comportamento dos preços durante o ano, o que deve ocorrer, pois o choque de oferta provocado pelo racionamento já está sendo neutralizado com a normalização da produção nas indústrias.

Outro fator que deve ajudar o BC no comprimento das metas é a estabilização da taxa de câmbio no intervalo de R$ 2,30 a R$ 2,50. É uma injeção de tranqüilizantes na equipe econômica, que hoje conta com um cenário bastante diferente que o do ano passado, quando a moeda norte-americana atingiu a astronômica marca dos R$ 2,80. Mesmo porque o mercado internacional já entendeu que a economia brasileira não está atrelada à da Argentina.

Os aumentos das tarifas públicas, dos preços controlados pelo governo e dos alimentos foram os maiores responsáveis pelo não cumprimento da meta máxima de 6% para a inflação no ano passado, por parte do BC. Juntos, eles contribuíram com nada menos que 4,77 pontos percentuais na composição do índice  de 7,67%, não dando qualquer chance à entidade monetária. Por isso, tudo o que o BC não quer para este ano, já que as tendências são favoráveis para a economia, é que o comportamento desses preços volte a incomodar pressionando os índices inflacionários.

As perspectivas são boas e o Brasil precisa tirar o máximo proveito deste momento favorável. Câmbio “estabilizado” e juros com tendência de queda são sintomas de aquecimento da atividade econômica e aumento da demanda, com a conseqüente elevação da renda e do consumo, da geração de empregos e do próprio crescimento econômico. Com direito até de sonhar com o tão desejado ciclo virtuoso e sustentado.

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Fernando Gomiero, 22, Administrador de Empresas
E-mail: fernandogomiero@uol.com.br
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