Um presente de
grego: Pedro Malan anuncia meta de inflação de 3,25% para seu sucessor
em 2003 (Fernando Gomiero, 2001-08-05)
O governo brasileiro, mantém a postura
assumida desde o início do Plano Real e, corroborando seu discurso de que
a indexação não voltará a fazer parte do dia-a-dia do povo brasileiro,
como na época da hiperinflação, definiu em 3,25% a meta de inflação
para 2003. O anúncio foi feito por Pedro Malan que, todavia, não terá
responsabilidade sobre o cumprimento da meta, pois o encargo de realizar
tal proeza será do seu futuro sucessor no Ministério da Fazenda.
Para este ano, a meta central de inflação é de 4%, podendo oscilar
dentro da faixa de 2% a 6%, isto é, com uma tolerância de 2 pontos
percentuais, tanto para cima como para baixo, e já se prevê enormes
dificuldades para alcançá-la. Isto porque, com as abruptas depreciações
cambiais encarecendo o produto importado, o racionamento de energia elétrica
provocando um choque na oferta, somados aos exagerados aumentos das
tarifas públicas, o mais provável que aconteça é a meta máxima de 6%
ser ultrapassada. Se isto ocorrer, o governo se verá em apuros para
explicar ao FMI as razões do fracasso.
É um beco sem saída. Ignorar o problema em nada vai ajudar e evitar o
estouro é uma missão complicada e quase impossível. O BC pode até
tentar uma revisão da meta para este ano e propor medidas mais flexíveis
para a definição dos índices (metas de inflação menos apertadas) para
os próximos anos. Ou, em última instância, repetir a velha manobra de
apelar para um novo aperto na política monetária, elevando ainda mais as
já absurdas taxas praticadas pela entidade. O resultado seria uma maior
restrição ao crédito e ao consumo, com os conseqüentes e inevitáveis
prejuízos para o crescimento econômico. O Ministério da Fazenda nem
pensa em tirar o pé do freio. Não dá tréguas e manda outro abacaxi
para o BC: meta central de 3,5% para a inflação do ano que vem,
tolerando "generosamente" uma oscilação entre 1,5% e 5,5%.
Mais um castigo para a gloriosa entidade.
E a situação da dívida pública? Com as seguidas desvalorizações do câmbio
e os juros nas alturas, ela explode e já chega nos incríveis 51,9% do
PIB, um exagero para os padrões internacionais. O estouro da conta
deveu-se a estes dois indicadores econômicos, já que são eles os
responsáveis pela correção de nada menos que 80% da dívida. Fato que
inclusive já levou o governo a admitir a inviabilidade de estabilizá-la
em 46,5% do PIB, como era seu objetivo. É um quadro extremamente
preocupante, que só faz cair cada vez mais a credibilidade do Brasil
perante os investidores externos, diante do temor de um calote, por mais
remota que pareça tal possibilidade.
O anúncio das metas de 3,5% e 3,25% para a inflação de 2002 e 2003,
respectivamente, aumenta sensivelmente a pressão sobre a atividade econômica
que, só com o racionamento de energia já vinha dando sinais de
desaceleração. Isto porque o BC, a julgar pela excessiva cautela e
conservadorismo demonstrados nas últimas reuniões do COPOM, dificilmente
deverá recuar e baixar as taxas de juros a níveis mais toleráveis, pelo
menos o suficiente para empurrar a economia de encontro ao almejado
crescimento de 7% do PIB.
Em vista dos inúmeros problemas impostos pela atual conjuntura, com
racionamento de energia, intensificação em dose cavalar da crise
argentina e seguidas depreciações cambiais, seria de bom alvitre que o
Ministério da Fazenda trocasse a teimosia de pescar índices com rede de
malha fina, por uma postura mais compatível com a realidade atual. Por
que não trabalhar com metas centrais de 4%, por exemplo, pelo menos para
os próximos dois anos, se é sabido que os índices propostos são
inatingíveis? Seria uma medida muito mais coerente, que, pelo menos daria
ao BC a chance de mudar seu discurso e imprimir uma política monetária
mais flexível, reduzindo o impacto das crises sobre o crescimento econômico
e seus reflexos.
É inquestionável a importância de se apresentar, a cada ano, índices
inflacionários inferiores ao ano anterior até chegar aos 3% desejáveis
para a esperada convergência macroeconômica entre os países do
Mercosul, inclusive com a adoção da moeda única para o Bloco Econômico.
Porém, tampouco se pode negar que, com a atual conjuntura das crises e
desaceleração da economia mundial, este é um objetivo que não pode ser
encarado com prioridade, pelo menos até que a situação se normalize.
É absolutamente necessário e urgente que haja uma mudança de
mentalidade da equipe econômica do governo, para que seus órgãos hajam
em sintonia e exclusivamente a serviço dos interesses da Nação. Senão,
seremos obrigados a aceitar o fato que o sonho do crescimento econômico
sustentável ao longo dos anos, já era, não passou de um sonho fantástico.
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Fernando Gomiero, 22,
aluno do 4º ano do curso de Administração – UNIP
E-mail: fernandogomiero@uol.com.br
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