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O amor na visão de um keynesiano e um liberal
(Volney Aparecido de Gouveia, 2002-01-17)

Em tempos de colapso do "Consenso de Washington", tentei sintetizar num artigo as diferenças de visão entre um keynesiano e um neoliberal. Dado o academicismo do tema, aproveitei o tema amor para tentar distinguir as principais diferenças conceituais dessas duas vertentes do pensamento econômico.

Keynesiano:  Gostaria de fazer uma declaração: estou cansado dessa história de neoliberalismo. As pessoas não se amam como antigamente. Tudo gira em torno da eficiência, da competição, do mercado, essas coisas de tecnocratas do FMI. Os sentimentos de solidariedade, humildade e esperança foram colocados em estado de dormência profunda. Aqueles que ainda prezam por esses valores são tachados de antiquados,  retrógrados e dinossauros.

Neoliberal: Mas você não percebe que hoje as pessoas são mais livres do que antes? Hoje elas podem ir ao cinema, votar no candidato de melhor proposta, financiar o carro novo, ir aos Shopping Centers comprar produtos importados. Os tempos modernos são isso mesmo. Não há tempo para contemporizar sobre o amor. O amor  é muito subjetivo e implacável. Quando você o tem, está sujeito ao sofrimento e à angústia. Isso sem falar no amor não correspondido. É terrível...

Keynesiano:  Ah! Mas você admite então que o amor é importante. Essa aceitação passiva da “modernidade” é uma forma de fuga e medo de encarar o amor. Creio ser importante que haja um estímulo governamental no mercado das paixões para que as pessoas se curtam mais. O Estado deveria bancar programas que estimulassem a união de casais, dando todo suporte possível para o alcance de suas felicidades.

Neoliberal: É ridículo falar em intervenção do Estado num momento em que o mundo todo está diminuindo seu papel no mercado! E o déficit público? E os gastos adicionais que isso representaria? Que abortemos a possibilidade de amor a qualquer custo para viabilizarmos a modernidade que precisamos.  Como já se disse no passado, vamos deixar o bolo da modernidade crescer agora para que possamos distribuí-lo no futuro na forma de amor, entretenimento, cultura, etc...

Keynesiano:  Essa história de bolo já conhecemos. Não vamos sacrificar um sentimento nobre em nome do futuro. Como dizia Keynes, no longo prazo estaremos todos mortos. Continuo achando que o Estado deve estimular a demanda agregada  do amor. Deve-se estimular as pessoas a amarem mais. Isso sem dúvida traria vantagens competitivas ao país, uma vez que amando mais as pessoas seriam mais produtivas porque estariam mais felizes. O Estado deveria criar o imposto do amor.  Este imposto incidiria sobre o tempo de união dos casais de forma progressiva, ou seja, ele seria maior quanto mais tempo perdurasse a união. Em caso de rescisão amorosa, os casais deveriam pagar uma taxa por quebra de contrato. Para aqueles que não querem amar, o Estado poderia diversificar o portfólio de produtos: encontros que estimulassem os laços de amizade entre as pessoas, comunidades de trabalho filantrópico, entidades de defesa dos direitos humanos, etc. Para atrair investidores externos, poderia-se firmar contratos com a Associação de Caridade das Irmãs de Calcutá como forma de obter know-how.
Deve-se também diminuir os juros internos para evitar a entrada de capital especulativo e estimular a atividade econômica, pois as pessoas são mais felizes quando estão bem no amor e empregadas - com carteira assinada. Os juros baixos diminuem os custos de produção, elevando a produção e gerando emprego.

A sociedade no geral sai beneficiada. A Igreja, que sofre com a perda constante de fiéis, aprovaria tal investida, pois isso significaria a multiplicação de seu rebanho. Seria também um freio ao crescente ímpeto oportunista de algumas igrejas, que de alguma forma alimentam a visão de neoliberalismo religioso, vendendo ilusões e conquistando mentes desamparadas.
Evitaria-se também gastos adicionais com saúde pública, uma vez que a bigamia perderia força e a monogamia traria menores impactos em termos de doenças infecciosas, diminuindo assim os gastos do Estado com saúde. Ainda mais agora em que mais uma vítima agoniza na UTI: a Argentina.


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Volney Aparecido de Gouveia,
economista formado pela Fundação Armando Álvares Penteado
Ocupação:  Área de Estudos e Projetos VARIG S/A.
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