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Anos de Economia Brasileira: Vamos Comparar?
(Gustavo Grisa, 2003-10-13)
O grande assunto desta semana é o balanço do comportamento da economia
brasileira nos últimos 100 anos, iniciativa elogiável do IBGE. As
conclusões encontradas na imprensa têm praticamente a mesma linha: nossa
economia cresceu como poucas no mundo, mas não distribuímos nossa renda.
O balanço é parcialmente positivo e traz o gosto amargo de uma economia
perversa que não passa ao cidadão médio os benefícios do bem estar.
Essas conclusões são apressadas, simplistas e trazem um certo ranço de
mau humor. É sempre saudável olhar pela janela e ver como se comportaram
outros países no mesmo período. Depois da comparação, podemos tirar
conclusões mais objetivas. Alguns números falam por si:
-A renda per capita do Brasil cresceu 8 vezes durante o século XX,
enquanto a do México cresceu 6 vezes, da China 5 vezes, da Argentina e do
Chile triplicou, e da Índia quase dobrou. Apenas a Coréia do Sul teve
desempenho superior, multiplicando sua renda média por 10, em grande
parte pelo excelente desempenho desde meados da década de 70.
-O nosso PIB multiplicou-se por 41, enquanto o do México aumentou 25
vezes, do Chile 14 vezes, da Argentina 17, da China 11. A Coréia é
novamente o único país de nossos “comparáveis” que cresceu mais, 51
vezes.
-Até meados da década de 60, o Brasil apanhava feio do México. Em 1900,
nosso PIB era do mesmo tamanho da Argentina, e 10 vezes menor do que o da
Índia. Aí sim, éramos um país desigual e atrasado.
-Se considerarmos o período até 1980, concluiremos que o Brasil cresceu
mais do que qualquer outro país no mundo, a despeito de cíclicos
desacertos de política e gestão e da persistência de mazelas sociais e
de um sistema educacional insuficiente.
-Perdemos a direção em algum momento entre o final dos anos 70 e a década
de 80, demorando um pouco para corrigir. Se mantivéssemos a tendência
histórica nos últimos 20 anos, o Brasil seria 50% mais rico do que é
hoje.
-Jamais seria leviano a ponto de afirmar que a percepção de desigualdade
social no Brasil é exagerada, pois convivemos todos os dias com seus traços
mais explícitos. Mas a verdade é que poucos países no mundo ofereceram
tamanha mobilidade social, o Brasil não é uma sociedade fechada. E
tivemos que ultrapassar a herança maldita na primeira metade do século
de uma sociedade colonial, preconceituosa e atrasada.
-Se analisarmos os indicadores, o Brasil da primeira metade do século
tinha produtividade e condições sociais equivalente às que encontramos
hoje em países africanos.
-Temos de ter coragem neste momento, e encontrar os caminhos para
continuar crescendo. Muitos países se perderam nas curvas do populismo e
do obscurantismo. Derrapamos por algum tempo, mas voltamos ao círculo
virtuoso na década de 90, e ainda estamos na periferia do caminho,não
nos afastamos dele.
-Cuba, China e a Albânia têm menor desigualdade social do que o Brasil
por causa de um dado muito simples: quase todos são pobres, inclusive a
pseudo-classe média,o que não é o nosso caso. A assimetria é própria
do processo de crescimento. O que temos de melhorar são nossos mecanismos
compensatórios e fortalecer ainda mais as instituições. Olhar para o
futuro incluindo, procurando um processo amplo, sem jamais obstruir a
economia.
-Entender os caminhos do mundo é fundamental para mantermos a boa
performance. Esses indicadores são a prova máxima de que desenvolvimento
não se faz da noite para o dia, mas a tarefa de chegarmos até aqui foi
árdua. Daqui para diante, cada avanço será mais complexo e a competição,
mais ferrenha.
-O processo mais perverso de reprodução de pobreza é não crescer, não
se reciclar e não saber perceber o futuro.
Obs.Utilizei como critério trabalho multilateral realizado pelo grupo
editorial francês Les Echos na publicação “Un Siècle d´économie”
(1999), utilizando dados da OCDE. Os números do IBGE são ainda melhores
para o Brasil: o PIB multiplicou-se por 110, e a renda per capita por 12.
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