Empregos Industriais, Produtividade e a Velha Retórica (Gustavo Grisa, 2003-11-04)
Os empregos industriais estão diminuindo em todo o mundo. Segundo estudos dos economistas da Alliance Capital, publicado pelo Wall Street Journal, entre 1995 e 2002 foram perdidos 22 milhões de empregos no setor industrial em todo o mundo, uma queda de
11%. A exceção são economias que se beneficiaram da formação de blocos econômicos, como o Canadá e o México (NAFTA) e a Espanha (UE). As razões da diminuição histórica dos empregos na indústria é conhecida: ganhos de produtividade e avanços da tecnologia.Na China, os empregos manufatureiros caíram de 98 milhões para 83 milhões em 7 anos, enquanto que o PIB industrial mais do que dobrou neste período.
O dado mais interessante do estudo da Alliance Capital é que o Brasil é o campeão de perda de empregos industriais dentre os 20 países pesquisados. Perdemos praticamente 20% de nossos empregos industriais de 1995 (19,9%), o que já seria o suficiente para provocar ânimos exaltados e chavões furiosos “contra o FMI e o neoliberalismo de FHC”.
É bem verdade que a abertura sem critério para exportações e as flutuações do câmbio provocaram um efeito sanfona no setor produtivo brasileiro que não ajudou muito. Tampouco o baixo crescimento da economia a partir de 1999.
Mas aumentamos a produtividade de nossa indústria como poucos outros países no mundo, melhorando os padrões de gestão e de excelência na produção, tanto que as taxas de desemprego global não foram brutalmente afetadas no período. O setor serviços de certa forma evoluiu e absorveu parte desta mão-de-obra.
O problema estrutural são os cronicamente sem-emprego. Os que perderam seu emprego e nunca o terão de volta, por não ter qualificação suficiente para agregar a produtividade necessária do investimento em um posto adicional de trabalho no setor industrial ou até mesmo de serviços. Ou pior, aqueles que jamais terão emprego na economia formal, pelos mesmos motivos. A figura romântica do operário com pouca instrução e dependente de esforço físico para trabalhar está em extinção. As indústrias intensivas em mão-de-obra devem ser transferidas para países com condição sistêmica inferior à nossa.
Isso significa que temos que ganhar corpo em setores de maior valor agregado, gerando receita para repartir socialmente em programas que visem exatamente a formação de profissionais mais bem qualificados. Profissionais bem qualificados provêm de cidadãos decentemente desenvolvidos, com boa educação, saúde e estrutura social. E com uma visão pragmática de mundo.
Temos que eliminar de vez as ilusões e retórica da sociedade industrial. Esse era um dos propósitos no planejamento estratégico do governo norte-americano ainda na década de 60 - preparar os EUA para a sociedade pós-industrial. Os avanços mais recentes na economia da informação fizeram os EUA aumentar vertiginosamente o bem-estar médio de suas famílias mesmo com perda sistemática de empregos no setor industrial durante toda a década de 90 (de 1997 a 2002, os norte-americanos perderam 11,3% dos seus empregos na indústria).
Um bom começo seria controlarmos a fábrica de ilusões do populismo. O sinal mais anacrônico de nosso atraso foram os chavões eleitorais das últimas eleições: José Serra prometia 8 milhões de empregos, Lula venceu a eleição prometendo 10 milhões. Algo impensável em um panorama de ganho – saudável, é bom que se diga- de produtividade industrial.
A livre movimentação do trabalho (não dos trabalhadores), os deslocamentos criados pelos blocos econômicos e os ganhos de produtividade estão mudando profundamente o conceito de trabalho e emprego. O que podemos concluir de imediato é tão somente que o entendimento de mundo que tínhamos já não serve. Talvez outros tenham se dado conta disso antes de nós. Esse é o jogo global da competitividade.