Keynes
e o Déficit Público
(Alan Henriques, 2002-08-01)
“Um país
se enriquece não pelo simples ato negativo de indivíduos não gastarem
todos os seus rendimentos em consumo corrente. Enriquece-se pelo ato
positivo de usar essas poupanças para aumentar o estoque de capital do país.
Não é o avaro que se torna rico, mas o que aplica seu dinheiro em
investimento frutífero.
O objetivo de concitar o povo a poupar destina-se a criar a capacidade de
criar casas, estradas e assim por diante. Portanto, uma política
destinada a tentar reduzir a taxa de juros pela suspensão de novos acréscimos
ao estoque de capital e, pois, pela contenção das oportunidades e dos
propósitos de aplicação de nossas poupanças é simplesmente suicida”
(JOHN
MAYNARD KEYNES) Inflação e Deflação.
Foram
palavras como essas, que fizeram Keynes dominar boa parte do pensamento
econômico no século XX. Segundo Keynes, somente o Estado teria a
capacidade para conferir equilíbrio e estabilidade ao sistema econômico
de uma nação. Isso deveria ser feito através de medidas para
incrementar o pleno emprego e para desencorajar o entesouramento
individual. Inspirando em parte o “New Deal” do presidente
norte-americano Franklin Delano Roosevelt, a atuação estatal fez com que
a economia americana fortemente envolvida no esforço de guerra, de julho
de 1940 até agosto de 1945, fábricas e estaleiros norte-americanos
produzissem quase 300 000 aviões, 86 000 tanques, 3 milhões de
metralhadoras e 71 000 navios. Apesar de os impostos terem sido aumentados
para custear todo o esforço de guerra, o déficit público
norte-americano subira para 247 bilhões de dólares- antes da guerra o déficit
federal era de apenas 49 bilhões de dólares.
As
sucessivas flutuações econômicas, depressão e desemprego alto, comuns
em países capitalistas e altamente industrializados, levaram Keynes a
estudar os motivos para tais fenômenos da economia capitalista. O
economista britânico concluiu que o grande responsável pela alteração
no nível de emprego é a procura de mão-de-obra e não a oferta, indo de
encontro aos marginalistas.
Keynes
defendeu muitas dessas idéias mesmo antes da terrível crise de 1929, mas
ele só reuniu todas elas em um só corpo teórico em 1936, na revolucionária
obra “Teoria Geral do Emprego do Juro e do Dinheiro”, o impacto político
do livro foi enorme, enquanto a Segunda Guerra Mundial lançava o mundo em
uma frenética corrida armamentista, o que levaria a demanda agregada para
níveis antes nunca vistos, liquidando os efeitos da grande depressão, o
desemprego era bem próximo de zero para fins estatísticos de 1942 a
1945, nos Estados Unidos, a taxa de desemprego mais baixo da história
norte-americana foi de 1,2% em 1944. Só no pós-guerra que a lição
Keynesiana foi aprendida e aplicada nos governos dos países
industrializados : o pleno emprego tornou-se um objetivo explícito da
mais alta prioridade nesses países. O “Keynesianismo” lançou raízes
principalmente nos Estados Unidos, temerosos de que o regresso de 6 milhões
de veteranos pudesse lançar o país em uma nova depressão. Em 1946, foi
aprovada a lei do pleno emprego, pelo governo Truman que transformou em
obrigação legal do Estado manter o pleno emprego mediante empréstimos e
financiamentos de obras públicas.
De fato, com
o estímulo dado com as despesas governamentais, impostas pelo conflito
mundial, a crise do desemprego cedeu lugar à escassez de mão de obra na
maioria dos países industrializados, todo o cerne da análise de Keynes
se faz a partir do conceito de “Demanda Efetiva”(consumo mais
investimento) que crescerá se o Estado gastar mais do que arrecada sob a
forma de tributos (déficit orçamentário) ou se o país conseguir
exportar mais do que importar (excedente na balança comercial).
Segundo
Keynes, o desemprego ou subemprego, seria resultado da demanda
insuficiente por bens e serviços na economia e que o grande responsável
por essa pequena demanda seria o entesouramento, as crises econômicas e
oscilações seriam resultado das variações nas propensões a investir e
ao aumento pelo entesouramento, para resolver essa dicotomia entre consumo
e parcimônia seria preciso dotar o Estado de políticas econômicas
eficazes no tocante a regulação da taxa de juros, mantendo-a baixa o
suficiente para inibir a demanda de moeda para fins especulativos;
incrementando o consumo através de empréstimos públicos que fossem
capazes de absorver os recursos ociosos no sistema econômico e colocá-los
mais uma vez no funcionamento da máquina capitalista.. Isto geraria
segundo Keynes o “Efeito Multiplicador”, ou seja, um aumento no
investimento causaria um aumento proporcionalmente maior na renda.
As Taxas de
Juros para Keynes se constituíam como um prêmio pela renúncia à
liquidez, para os keynesianos, o pior dos cenários econômicos seria com
toda a certeza a propalada “Armadilha da Liquidez”, na qual os que
possuem ativos monetários são unânimes na análise de que as taxas de
juros, já se encontram tão baixas que seria impossível baixá-las ainda
mais. Nessa circunstância entesourariam seus ativos na espera de uma
elevação nos juros. Algo parecido ao ocorrido com a economia japonesa
durante a maior parte da década de 90, acossado por uma recessão as
autoridades monetárias japonesas diminuíram os juros na esperança da
retomada econômica, entretanto, essa política só aumentou a alta taxa
de poupança da economia japonesa afundando o Japão na pior recessão do
pós-guerra.
Os críticos
de Keynes, no entanto, associam o legado econômico do economista inglês,
como um incentivo ao Estado gastador e por vezes perdulário o que teria
aumentado em muito o déficit público, temos como exemplo clássico desse
fenômeno os Estados Unidos, em um momento histórico em que o crescimento
do tipo Keynesiano foi primordial, a década de 60: quando acossado pela
Guerra do Vietnã o Estado norte-americano gastou como nunca, entretanto,
a recusa do governo Jonhson envolvido com programas da “Grande
Sociedade”, em aumentar os impostos incorreu em grandes déficits que
viriam a alimentar a inflação da década de 70.
Com toda
certeza, a mais feliz crítica de Keynes a economia neoclássica foi no
tocante a Lei de Say, que estabelecia que a oferta criaria sua própria
demanda, o que segundo Say impossibilitaria uma crise de superprodução,
justamente o ocorrido durante a grande depressão iniciada em 1929, Keynes
constatou que a Lei de Say se aplicaria somente em uma economia de escambo
e jamais em uma economia monetarizada.
Dos
postulados do Keynesianismo o que mais o aproxima de uma economia
depressiva é a constatação da existência do desemprego involuntário,
no que se diz respeito à demanda pôr moeda, a introdução da demanda
especulativa e transacional por Keynes revela a sua preocupação de que
os agentes econômicos não usassem a moeda apenas para transação
(consumo ou investimento) o que iria influenciar positivamente a demanda
efetiva, e sim também para especulação (entesouramento) o que levaria a
economia a um ciclo recessivo.
Diante de
alguns números, torna-se clara a ligação de Keynes com déficits orçamentários,
nos Estados Unidos país onde o Keynesianismo foi mais fortemente aplicado
principalmente no pós-guerra e na década de 60, como já foi mencionado,
o déficit orçamentário no período de 1947-1967 foi da ordem de apenas
–0.2 elevando-se para –0.8 no período 1961-1967, aumentando ainda
mais para –1.1 no período 1968-1974, esses três períodos a política
econômica norte-americana ficou a cargo dos “Keynesianos Rigorosos”
eles se preocupavam principalmente com a implementação do pleno emprego
através do uso de política fiscal.
Os
resultados colhidos nesses períodos no tocante ao desemprego, mostra bem
isso de 1947-1967 o desemprego observado nos Estados Unidos foi de apenas
4,7% , no período 1961-1968 foi de 5,0% e no período de 1968-1974 foi de
4,9% , ou seja, sempre abaixo do pleno emprego que nos Estados Unidos é
considerado de 5,0%. Esse tipo de política resultou em uma forte inflação
de demanda de 8,8% em 1973 e 12,2 em 1974 as taxas mais altas registradas
na história contemporânea dos Estados Unidos. O Keynesianismo Rigoroso
teve seu canto do cisne quando em 1978, o congresso norte-americano
aprovou a Lei Humprey-Hawkins (Lei do Pleno Emprego e Crescimento
Equilibrado), que estabelecia metas anuais para a moeda e o crédito, era
o início do ciclo monetarista sob a batuta de Milton Fridman que cunhou
uma famosa frase “Não existe almoço grátis no capitalismo” ,ou
seja, em outras palavras alguém teria que pagar pelos déficits
Keynesianos.
O déficit público
nos Estados Unidos, país mais influenciado pelo Keynesianismo se
analisado dentro de um contexto histórico nos mostra, uma ligação
direta entre déficits federais e guerras. A dívida do governo com relação
ao tamanho do PNB, ficou próximo a zero em 1830, chegando até o recorde
histórico de 129% do PNB em 1946, não por coincidência o ano em que o
Keynesianismo estava no centro do debate econômico internacional.
Segundo os
críticos do Keynesianismo simples, o modelo de Keynes centra sua
argumentação sobre a política fiscal, relegando a segundo plano a política
monetária e seus efeitos sobre a economia real, entretanto, talvez a mais
enfática crítica a Keynes e seu legado seja mesmo quanto a questão do déficit
público que teria levado a economia a um crescimento não sustentável, já
que a longo prazo esse déficit não sustentaria a política de pleno
emprego e levaria a uma escalada inflacionária, porém, como dizia Keynes
“No longo prazo todos nós estaremos mortos”.
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Alan Henriques de Araújo é Economista e Estudioso em assuntos militares O autor mantém
site sobre a Marinha
dos Estados Unidos na WEB, com mais de 2.700 visitas é também autor do site
sobre economia internacional e estatística econômica na WEB.
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