Seguindo à risca (Fábio de Moraes Jorge, 2001-10-14)
A preocupação clara em defender os interesses econômicos externos no mercado de capitais brasileiro, exposta pela postura do nosso Presidente, parece mais com a de um CEO de um grande grupo empresarial, competentíssimo, com senso de oportunidade, visão estratégica e antecipação nas ações.
Paralelamente, cultiva-se na mídia a insegurança do povo, fazendo-nos achar que somos possíveis alvos - Ora! Sinceramente!, esquecer que somos um país periférico na economia mundial (e cada vez mais, perpetuando-se essa política atual) é um absurdo! -, influenciando, dessa forma, a opinião pública a tender para o lado oposto ao que se verificava informalmente nos dias seguintes a 11 de setembro, onde era claro uma sensação de acerto quanto às expectativas sobre o cenário hegemônico atual nas relações internacionais econômicas, comerciais e políticas. Me fazendo lembrar de uma expressão muito antiga, que toda criança escuta: "Quem brinca com fogo ..." que de alguma maneira nos fazia refletir um pouco mais antes de tomar alguma atitude - com o tempo vamos desaprendendo, mas isso é outra história.
Ao contrário dos "acionistas", nós brasileiros, que, teoricamente representa, o governo se preocupou rapidamente em ser o primeiro a apoiar os Estados Unidos e se candidatar a representante na "subamérica" (já que nós, com a nossa peculiar passividade quase esquizofrênica, admitimos que eles são a América) da superpotência na marcha para liderar a coalizão mundial na sua guerra da vez: a Guerra contra o terror, ou mal, ou loucos, ou fanáticos, ou Bin Laden, ou o que quer que seja, ninguém sabe mesmo. Dessa maneira recebemos o elogio de ser o único país na América Latina com condições de liderar essa caçada junto ao nosso "redentor", causando quase um atrito diplomático com o México, que também queria o posto de preferido do "chefe".
Convocamos reuniões extraordinárias de cúpula, evocamos tratados de "mil novecentos e Garrincha dando um drible", enquanto os "EUA S.A" suspendem sanções comerciais, principalmente BÉLICAS, a países que sofriam embargos acusados de violar direitos humanos, construírem armas nucleares, apoiar atos terroristas, como a Índia e o Paquistão, e possivelmente Irã, Síria e China, para poderem vender armas para todos que apoiam a luta pela "Paz Mundial"(?).
Sanções estas que fizeram a industria bélica brasileira encolher mais de 400% desde a década de 80, mais um fator para aumentar a dependência de investimentos externos. Entretanto, a preocupação atual da equipe do governo dirigida na ponta dos dedos, todos os cinco, pelo nosso governante eleito é de garantir a atratividade do Brasil para os investidores que esqueceram momentaneamente de continuar falando, e nós acreditando, que somos importantes estrategicamente, que se continuarmos agindo como dizem não há o que temer etc. Atitude coerente com a linha que segue a administração atual, já que o Brasil é um dos países que mais dependem do capital estrangeiro no mundo, cerca de US$ 60 bilhões /ano, e caminhando a passos largos para o topo. Talvez depois de acalmado o cenário se tenha a intenção de pedir uma promoção ao "chefe", lembrando-o de que fomos os primeiros a aderir.
Tivemos a segunda maior desvalorização da moeda nacional, não levando em conta a Turquia, que tem a inflação nos três dígitos, enquanto na maioria das grandes economias as moedas nacionais valorizavam-se; como medida paliativa mantivemos a taxa de juros enquanto no resto do mundo reduziam-se as mesmas; e a taxa de risco subiu 18.9%, superando a alta da taxa Argentina que enfrenta atualmente um quadro péssimo.
Segundo analistas do mercado "(...) não há razão para tamanha desvalorização. A culpa é dos especuladores (...)".Ora! Os especuladores, como o nome já diz, vivem de especular, estão prontos para exercer sua função a qualquer momento, o fazem aonde é mais fácil. Dessa maneira estamos agindo identicamente, salvo as distintas naturezas, aos EUA, culpando e chamando de monstros nossa própria criação. Atacar as causas é muito complicado, força a admissão de erros que a vaidade, prepotência, ideologia, covardia, ou o que quer seja, ou tudo isso (ninguém sabe mesmo), não permite.
Agora que foi declarado oficialmente pelo caubói número um do mundo que quem não apoiar a ação bélica norte-americana é inimigo, estamos fadados a ter nossa posição quanto a questões de importância monumental no desenho futuro das relações entre as sociedades na terra, dirigida pela opinião pública de um povo que, em grande parte, sem a ajuda de um mapa mundi e alguém para apontar, dificilmente saberiam onde se localiza o Brasil. Talvez esse fato seja um alívio para o nosso representante maior, que quando algum ato inexplicável passa pelo filtro rigorosíssimo dos grandes meios de comunicação, ainda tem que dar explicação para esse monte de subdesenvolvidos, subsistidos e subnutridos "subamericanos", nós.
Agora que não teremos mais a preocupação de dar opinião em nada estrategicamente relevante para a humanidade, podemos continuar cegamente a seguir a cartilha, pois como sempre dizem:" (...) não há o que temer, o cenário tende a se estabilizar (...)". Me ocorre outra frase dos tempos de criança, simples e útil como todas as outras: "Passsarinho que acompanha morcego ...".
__________________ Fábio de Moraes Jorge, 24 anos é engenheirando de produção - Escola de Engenharia- UFF - Niterói - RJ. Além de Consultor Júnior em Gerência de Pequenas e Médias Empresas. Outros artigos do autor