.
 • Economia > Opinião

Davi e Golias?
Marco Antonio Lima

Recentemente, a revista inglesa The Economist publicou matéria onde abordava o novo papel a ser desempenhado pelas nações emergentes no contexto da OMC. Chegou a citar o Brasil como um dos países que teriam o papel de procurar exercer uma participação mais ativa nas grandes decisões da organização. Um dos exemplos dados foi a cruzada dos grandes produtores agrícolas, o Brasil no meio, contra os subsídios dos governos europeus. Segundo a revista, a participação mais ativa de países como o Brasil e a China (em um futuro próximo) se tornaria necessária para dar mais peso e credibilidade às decisões daquele órgão. Tratava-se, é certo, de exercício teórico, pois ainda não existe, em termos concretos, nem a desejada postura democrática e imparcial dos componentes da OMC; como também ainda falta a necessária fibra aos diplomatas e burocratas brasileiros, no sentido de fazer valer os interesses nacionais. Mas parece que há uma oportunidade para se mudar este quadro.

O contencioso comercial entre Brasil e Canadá, que começou como uma disputa entre duas empresas de aviação, evoluiu para uma verdadeira batalha diplomática envolvendo programas de financiamento oficiais, subsídios diretos e manobras políticas diversas; colocando em confronto as áreas de comércio internacional dos dois países. O motivo inicial do combate não é de se desprezar. Trata-se de uma encomenda de 150 aeronaves pela companhia regional norte-americana Air Wisconsin, estimada em um milhão de dólares. Pelos cálculos da Embraer, esta venda geraria entre 700 e mil empregos no Brasil. Sabe-se que a Bombardier pretende abrir uma nova fábrica, com a demanda gerada pela encomenda. Após meses de ataques e contra-ataques, tudo indica que os canadenses venceram a disputa, à custa de generosos subsídios do governo canadense. Ou seja, exatamente o crime que eles vinham acusando o Brasil de praticar. Como a luta continua no interior da OMC, pois o Canadá ainda detém o direito de retaliar comercialmente o Brasil; os golpes seguintes passaram a ser dados abaixo da linha da cintura: em função da crise gerada na Europa pelo chamado “mal da vaca louca”, o Canadá resolveu embargar as importações de carne brasileira. Não seria assim tão grave se os EUA e o México, parceiros dos canadenses no Nafta, não tivessem seguido o mesmo caminho. A atitude canadense, de caráter evidentemente retaliatório, foi cinicamente explicada como uma medida sanitária.

O desenrolar dos acontecimentos deixa bastante clara uma questão: o Brasil precisa rever sua política comercial externa, se é que pretende sobreviver na economia globalizada. Ao contrário do que acreditam os mais ingênuos, o comércio internacional é uma arena de tubarões, onde os mais fortes devoram os mais fracos sem nenhuma piedade. Isto nos leva a uma preocupação prioritária: a aceleração das negociações para a implementação da Alca. É fato mais do que claro que a maioria das empresas brasileiras não está preparada para enfrentar a competição com as norte-americanas, nem aqui e muito menos lá fora. Se no caso da Embraer, que é uma ilha de excelência na indústria nacional, possuindo um produto superior ao de seu principal concorrente; as dificuldades estão se revelando dessa ordem; imaginem então o que ocorreria com indústrias menos desenvolvidas? O caso da Embraer é ainda mais significativo porque envolve um produto de alta tecnologia, com grande valor agregado, ou seja, o tipo de produto que estamos acostumados a importar, e não a exportar. O que nos sugere que, na visão canadense, e talvez dos demais países desenvolvidos (quiçá da própria OMC), o Brasil continua sendo um exportador de commodities. Além do problema das barreiras comerciais a nossos produtos agrícolas, será que agora teremos também teremos de enfrentar barreiras em relação a produtos industrializados? Os EUA recentemente declararam que o aço é um produto “estratégico”, e deram sinais de que sua importação deverá ser restringida ou até mesmo proibida (é sintomático, se considerarmos que o maior produtor mundial de aço é a China).

O que tudo isto significa então? Provavelmente, que o Brasil será obrigado a uma tomada de posição. No caso do imbróglio com o Canadá, não há como voltar atrás. Se recuar, o Brasil estará abrindo um precedente perigoso; além de comprometer irremediavelmente o futuro de seu maior exportador, a Embraer. A alternativa então, seria enfrentar os canadenses, num confronto do tipo Davi x Golias. Lembrem que a história é pródiga em nos mostrar que praticamente todas as grandes potências tiveram, no início de sua ascensão, de enfrentar um inimigo mais poderoso. Assim, os EUA iniciaram a sua era derrotando a Espanha; o Japão derrotando a Rússia; a própria Rússia, derrotando uma combinação de forças norte-americanas, inglesas e francesas e tornando-se a União Soviética. É claro que ninguém está sugerindo que iríamos invadir o Canadá. Mas, nos dias atuais, os confrontos são de outra ordem. Talvez o que tenha irritado tanto os canadenses seja o fato de seu adversário ser um país subdesenvolvido, onde a maior parte da população nunca viu um computador de perto. Fosse uma França, uma Itália, ou até mesmo uma Espanha; seria mais fácil de engolir. Mas é difícil de aceitar que o país do futebol possa fabricar aviões melhores que os seus. Mas a verdade é que fabrica, e agora cabe aos brasileiros mostrar ao mundo que pode e deve ter o direito de concorrer de igual para igual com a parte de cima. Mas isso certamente não será fácil, e nos exigirá sangue, suor e lágrimas. Será que nosso governo terá coragem suficiente para encarar esta disputa?

O governo norte-americano, sabiamente, separou suas atividades comerciais das diplomáticas. Os representantes comerciais dos EUA têm liberdade para brigar o quanto for preciso, e desagradar a quem quer que seja, se necessário for, em nome dos interesses de suas empresas. Com isso, seu corpo diplomático não precisa “sujar as mãos”. No Brasil, onde a tibieza (disfarçada de neutralidade) é uma tradição de longa data no corpo diplomático, talvez esta fosse uma medida de bom tamanho. Assim, nossos diplomatas não precisariam passar pelo dissabor de uma refrega comercial, e continuariam cuidando de manter nosso país uma nulidade política internacional. Mas, na área comercial, a tão desejada “neutralidade” seria, com toda certeza, uma sentença de morte.

Os textos aqui publicados são de responsabilidade de seus autores e podem não expressar a opinião da EconomiaNet
Publicado em Fecereiro de 2001

 

..

Marco Antonio Lima, Administrador de Empresas, com especialização em Marketing.  desenvolve atividades nas áreas de Assessoria e Treinamento Empresarial

Outros artigos do autor
--------------------------------------------
Davi e Golias?
Brasília joga xadrez

--------------------------------------------

The Economist Brasil comércio exterior internacional exportação OMC Canadá países emergentes economia The Economist Brasil comércio exterior internacional exportação OMC Canadá países emergentes economia The Economist Brasil comércio exterior internacional exportação OMC Canadá países emergentes economia The Economist Brasil comércio exterior internacional exportação OMC Canadá países emergentes economia The Economist Brasil comércio exterior internacional exportação OMC Canadá países emergentes economia The Economist Brasil comércio exterior internacional exportação OMC Canadá países emergentes economia The Economist Brasil comércio exterior internacional exportação OMC Canadá países emergentes economia The Economist Brasil comércio exterior internacional exportação OMC Canadá países emergentes economia The Economist Brasil comércio exterior internacional exportação OMC Canadá países emergentes economia The Economist Brasil comércio exterior internacional exportação OMC Canadá países emergentes economia The Economist Brasil comércio exterior internacional exportação OMC Canadá países emergentes economia The Economist Brasil comércio exterior internacional exportação OMC Canadá países emergentes economia The Economist Brasil comércio exterior internacional exportação OMC Canadá países emergentes economia The Economist Brasil comércio exterior internacional exportação OMC Canadá países emergentes economia The Economist Brasil comércio exterior internacional exportação OMC Canadá países emergentes economia The Economist Brasil comércio exterior internacional exportação OMC Canadá países emergentes economia The Economist Brasil comércio exterior internacional exportação OMC Canadá países emergentes economia The Economist Brasil comércio exterior internacional exportação OMC Canadá países emergentes economia The Economist Brasil comércio exterior internacional exportação OMC Canadá países emergentes economia The Economist Brasil comércio exterior internacional exportação OMC Canadá países emergentes economia The Economist Brasil comércio exterior internacional exportação OMC Canadá países emergentes economia The Economist Brasil comércio exterior internacional exportação OMC Canadá países emergentes economia The Economist Brasil comércio exterior internacional exportação OMC Canadá países emergentes economia The Economist Brasil comércio exterior internacional exportação OMC Canadá países emergentes economia The Economist Brasil comércio exterior internacional exportação OMC Canadá países emergentes economia The Economist Brasil comércio exterior internacional exportação OMC Canadá países emergentes economia The Economist Brasil comércio exterior internacional exportação OMC Canadá países emergentes economia The Economist Brasil comércio exterior internacional exportação OMC Canadá países emergentes economia The Economist Brasil comércio exterior internacional exportação OMC Canadá países emergentes economia The Economist Brasil comércio exterior internacional exportação OMC Canadá países emergentes economia The Economist Brasil comércio exterior internacional exportação OMC Canadá países emergentes economia The Economist Brasil comércio exterior internacional exportação OMC Canadá países emergentes economia The Economist Brasil comércio exterior internacional exportação OMC Canadá países emergentes economia The Economist Brasil comércio exterior internacional exportação OMC Canadá países emergentes economia The Economist Brasil comércio exterior internacional exportação OMC Canadá países emergentes economia