Um Choque de Brasilidade (Gilberto Lima Júnior, 2003-05-26)
A área de Comércio Exterior, no Brasil, tem visto, nos últimos anos, mudanças céleres, que, outrora, poderíamos dizer, seriam inimagináveis.
Em meados da década de 90, ousar-se falar em exportação, principalmente junto a pequenos e médios empresários brasileiros, era uma tarefa impraticável. Somava-se à sobrevalorização do Real frente ao Dólar a ausência absoluta da chamada cultura exportadora: "yes" - pensávamos - " só tínhamos bananas".
O tempo passou e, com ele, além da virada no câmbio, o país passou a discutir seriamente o tema exportação. Expressões como consórcios de exportação, modelo italiano de "cluster", arranjos produtivos e tantos outros relativos ao setor ganharam força no discurso pela recuperação da competitividade brasileira.
Com o início das atividades da Apex - Agência de Promoção das Exportações, em 1998, os debates saíram da mídia especializada e ganharam o dia-a-dia do país, entrando em pauta nas rádios, nas televisões e nos jornais de grande circulação.
Sem dúvidas, a Apex passou a representar de forma prática a força do associativismo empresarial, derrubando de vez o mito que existia de que seria muito complicado convencer pequenos e médios empresários a se reunirem em grupo para buscar a qualificação necessária ao trabalho de promoção internacional.
De fato, a visão cooperada sempre foi mais forte no sul do país, herança da cultura européia, mas um verdadeiro trabalho de "catequese", se assim podemos chamar, em pouco mais de quatro anos transformou essa realidade em mais de 150 Projetos Setoriais, contemplando cerca de 8000 pequenas empresas, presentes em mais de 400 cidades do país. Enfim, descobrimos o valor da nossa brasilidade.
Esse mérito da equipe de técnicos da Agência e dos diversos gerentes dos seus Projetos Setoriais contou com a força do entusiasmo da ex-Ministra Dorothéa Werneck, que esteve à frente da Apex até o início deste ano.
É gratificante constatar o rompimento dos paradigmas nesse novo cenário, como no caso de costureiras de Brasília já estarem com seus biquínis sendo comercializados no exterior, inclusive em Milão, umas das capitais mundiais da moda - e olha que Brasília nem tem praia!
Emociona ouvir da boca do povo, na capital do estado do Ceará, por exemplo, que o artesanato local ganhou o mundo; enche-nos de expectativa vermos empresários da área de Tecnologia da Informação brasileira, mormente de Brasília, articulando-se para exportarem suas soluções inventivas para a Arábia, Europa, Chile e Estados Unidos.
O sucesso do consórcio Flor Brasil, de Brasília, está aí para romper o ceticismo e provar que os empreendedores brasileiros aprendem rápido a driblar as dificuldades, quando encontram apoio governamental. Somos mais que criativos.
No caso do Flor Brasil, a coordenadora do Projeto sintetiza sua experiência em números: são 600 mil dólares exportados em 2002! Orgulham também o país os diversos prêmios conquistados pelas jóias brasileiras, em um trabalho fantástico desenvolvido pelo Instituto Brasileiro de Gemas e Metais, IBGM, que coordena cerca de nove consórcios de exportação.
Tantos outros casos de sucesso poderiam ser aqui mencionados, a guisa de exemplos. É claro que a participação das pequenas empresas brasileiras na pauta exportadora ainda continua pequena, se compararmos com a realidade de outras potências mundiais.
Por mais que possamos apontar as barreiras tarifárias e outras dificuldades como causadoras da nossa tímida posição exportadora, a verdade é que, além de combatê-las, temos muito dever de casa a fazer neste campo.
Precisamos ampliar o investimento em Pesquisa e Desenvolvimento. Precisamos elevar o número de pequenas empresas certificadas com padrões de qualidade internacionalmente reconhecidos; aprimorar os modelos de gestão com enfoque na competitividade global; formar profissionais especializados em comércio exterior para atuarem como "traders" para as pequenas empresas e consórcios de exportação; diminuir ainda mais a burocracia; definir uma política exportadora para o país, evitando redundância de ações por parte de dezenas de órgãos públicos reguladores do comércio exterior, às vezes conflitantes; ampliar o acesso das pequenas empresas a linhas de crédito para exportação; reduzir a carga tributária na cadeia produtiva dos produtos, dentre outras ações.
É preciso agregar valor não apenas aos produtos e serviços que exportamos, mas, sobretudo, à Marca Brasil, imprimindo-lhe ainda mais qualidade e credibilidade internacional.
O Made in Brazil precisa ser cada vez mais identificado com a seriedade nos compromissos, com o atendimento aos padrões exigidos, com a qualidade total e com um forte marketing internacional.
Os primeiros movimentos do novo Governo nos mostram que teremos um BNDES e um Banco do Brasil mais próximos da realidade das pequenas empresas, nos fazem ver que a definição de uma política de comércio exterior para o país finalmente poderá ser apontada.
Temos um Ministro-Empresário com histórico de grande sucesso no tema exportador e que nos demonstra uma vontade imensa de resgatar o orgulho de ser brasileiro, que reina na política desenvolvimentista do Presidente Lula.
Quiçá não ouviremos mais perguntas espantosas, como a que já fez um conhecido empresário alemão: "... Mas o Brasil produz software?!" Mal sabia ele que é uma solução brasileira que ajuda a funcionar a Bolsa de Valores de Frankfurt; que nossas soluções permitem apurar em dois dias uma eleição em mais de 5.600 municípios, envolvendo cerca de 90 milhões de eleitores; que somos uma referência mundial em tecnologia bancária; que 90% de nossas declarações de imposto de renda são via internet...
Ao invés do medo de exportar ou morrer, tomara que, agora, vença a esperança de exportar e crescer!
____________________ Gilberto Lima Júnior é bacharel em Comércio Exterior, Pós Graduado em Gestão de Tecnologia da Informação, Consultor em Comércio Exterior com especialização em Consórcios de Exportação e Coordenador do Projeto Brains - Brazilian Intelligence in Software. Outros artigos do autor