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Argentina e o Colapso da Credibilidade
(Gilmar Lourenço, 2002-02-15)

Lembro-me como se fosse hoje da comparação que meu professor de economia fez no primeiro ano de faculdade: Qual a semelhança entre um Economista e um Médico Cirurgião? Então respondeu: Se errarem... matam pessoas.

Houve silêncio. Percebemos que lidar apenas com números e cálculos não seriam suficientes. A harmonia entre fórmulas e pessoas tinha de ser perfeita e, se as análises não fossem bem formuladas, acabaríamos com famílias inteiras, quebraríamos empresas privadas e toda a estrutura financeira de um país. Destruiríamos tudo. 

Vejo nesses últimos dias a teoria do meu professor acontecer na prática. Por causa de uma estratégia mal formulada, empresas argentinas estão demitindo aos milhares, o comércio está inflacionando preços e as famílias protestando com a alma e algumas panelas que lhes restam. O povo está perdendo  tudo o que tinha.

A idéia era simples demais se tratando de Macroeconomia: converter a moeda nacional em dólar a fim de romper a hiperinflação e abrir o mercado à competitividade, dinamizando a economia. Tal idéia quebrou a estrutura produtiva do país e deixou milhares de pessoas desempregadas. Os salários de funcionários públicos foram reduzidos e o índice de desemprego no país ultrapassa os 18% da população economicamente ativa. O Brasil está com um índice entre 6 e 7%.
 
Com a justificativa de falta de liquidez, o governo confiscou as reservas bancárias acima de US$ 5 mil. Se o presidente Duhalde falhar, os poupadores correm o risco de não receber esse dinheiro.

Segundo ele, essa medida foi tomada por três motivos. Primeiro: Os bancos não têm dinheiro. O deputado argentino Franco Caviglia denunciou a fuga de 350 carros fortes do país levando milhões de dólares antes do confisco. Segundo: A corrida ao consumo desenfreado causaria uma inflação generalizada (como em 1990 de 1.000%). Terceiro: a especulação pelo dólar levaria a desvalorização do peso às alturas.

O que alivia a população é que as dívidas até US$ 100 mil dólares terão sua conversão de um pra um. Quem paga prestações de US$ 500 dólares ao mês, pagará também 500 pesos. Caso contrário, as pessoas pagariam 700 pesos (considerando a taxa oficial de conversão de 1,40 pesos por dólar) ou mais no mercado livre. Quem de fato perderá são os bancos, algo em torno de US$ 5 a 10 bilhões, perda esta que o governo propôs minimizar através da criação de um imposto temporário sobre exportações de petróleo, repassando o valor arrecadado às instituições financeiras lesadas pelas novas medidas de urgência do governo. Assim permite-se que o impacto da desvalorização tanto para bancos ou famílias seja menor.

Os maiores beneficiados pela desvalorização serão os exportadores argentinos, setor que responde por quase 8% da economia, e o setor de turismo, onde oficialmente a Argentina está 30% mais barata para turistas estrangeiros. Ganhará também a indústria local, que terá menor concorrência em função da elevação no preço de produtos importados.

Os prejudicados são os assalariados que verão uma queda no poder real de compra pela existência da inflação e pelo encarecimento de produtos importados, os bancos e os prestadores de serviços públicos, como telecomunicações, água e energia, empresas impostas a cobrar em peso o mesmo valor anterior a dólar. Por exemplo, se a conta de telefone cobrada pela empresa era de US$ 50 dólares, deve ser também de $ 50 pesos. Ocorre que um peso hoje compra no mercado oficial apenas US$ 0,71. Se a empresa reverte o que recebe em importação de máquinas e equipamentos para investir, está recebendo menos dólar do que antes. Será o caos para elas e novos desempregados surgirão. Atualmente elas estão pressionando o governo a reajustar as tarifas. A inflação em cascata surgirá, decorrente da elevação desses preços.

Então já dá pra diagnosticar o tamanho do problema do país doente: Se os bancos não têm dinheiro, novos investimentos na indústria e comércio não serão feitos por falta de financiamento. Sem investimento não há desenvolvimento. O único meio de evitar isso seria o aumento de consumo. Ele criaria novos recursos para investir. Mas o governo confiscou o dinheiro dos consumidores. Então a última solução para reanimar a economia seria empréstimos externos, que tal? Não. Os empréstimos estão restringidos por falta de pagamento. A curto prazo não há saída.

Os dois maiores problemas que levaram a Argentina a esta situação são:
· A conversão de um peso para um dólar, que encareceram as exportações e baratearam os produtos importados, levando a desintegração do aparelho produtivo nacional;
· A estratégia de gastar mais do que é arrecadado. No final de 2000, a Argentina estava literalmente sem crédito e em 2002 teve que decretar moratória. Importadores da Argentina devem US$ 4,5 bilhões à fornecedores. Desse valor, o Brasil é o país que mais tem crédito a receber: US$ 2 bilhões.

Outro agravante foi a demora em desvalorizar. Sabemos que ela era necessária, apesar de elevar os custos da dívida interna. Mas deveria ter sido antes, a exemplo do Brasil. Quando o governo brasileiro desvalorizou o câmbio em 1.999, não existia crise política como a existente na Argentina. Não estava em recessão como eles estão (o Brasil seguia crescendo a 7 anos) e não tinha decretado moratória antes de desvalorizar. Também Não houve tamanha rejeição do povo como os protestos de panela, que até a filha do presidente argentino participou.

A Argentina foi um dos países mais ricos do mundo no início do século passado. Segundo estimativas de Angus Madison, em 1913 a renda per capita (expressa em dólares trazidos a valor de 1990) (era de US$ 3.797 dólares). Mais alta que a da França (US$ 3.485 dólares) e Alemanha. Essa prosperidade foi impulsionada por gigantescos investimentos feitos pela Inglaterra. “Na ponta do lápis, a Argentina deveria ser tão rica quanto o Canadá ou a Austrália”.

Mas a forma como o Governo argentino conduziu a economia foi errada. Ao invés de promover reformas na última década pra acabar com a inflação, o governo resolveu usar apenas um bisturi monetário: o Currency Board. Apostou na igualdade com a economia americana e perdeu. Ele sabia que um dia não iria conseguir mais dinheiro emprestado e mesmo assim insistiu na crença que tal sistema geraria riqueza. Que riqueza haveria numa economia despreparada diante de importação barata? Onde haveria novos empregos se empresas estão fechando suas portas a 4 anos em virtude da insuficiência competitiva e endividamento? Que riqueza se as exportações diminuíram em função de seu alto preço no mercado?

Houve a sustentação da idéia que tal economia livre acabaria com alguns empregos, mas criariam outros. Pois bem, já vejo um novíssimo: Consertadores de Panelas.

O que o governo conseguiu foi levar um país inteiro para a UTI. E a cirurgia para arrumar toda essa bagunça parece não incluir anestesia. Trata-se, em suma, de uma operação de risco, que está corroendo a paciência e esperança de uma nação de 37 milhões de habitantes. Sua fórmula que acreditava ser mágica está destruindo os padrões econômicos e sociais de uma economia que tinha tudo para ser próspera.

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Gilmar Lourenço
, estudante do 5º ano de Economia da Puc-Campinas. Assistente Financeiro Do Grupo E M S
gilmar.souza@ems.com.br
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