Graças ao controle de capitais, a Malásia
pôde retomar o crescimento econômico sem ter de comprometer outros
fundamentos importantes de sua economia
Parafraseando aquele velho ditado inglês
que diz “no news, good news”, hoje, em determinadas ocasiões, talvez
seja mais apropriado dizer “good news, no news”. Digo isso pensando
num episódio ressente do jornalismo econômico. Trata-se do curioso
descaso da imprensa especializada, que, apesar de todo o aparato eletrônico
que nos pluga ao mundo, conseguiu jogar para baixo do tapete a notável
experiência de heterodoxia econômica da Malásia – aliás, eu só vim
a saber do assunto lendo um improvável artigo no caderno de variedades de
um jornal dedicado a temas do mundo econômico.
Longe dos holofotes, a Malásia, nossa velha companheira de farra, em rota
de submersão, resolveu infringir as regras de boa conduta do FMI e
cometeu o que há de mais herético no mundo das finanças internacionais:
o controle de capitais. No olho do furacão, vendo o seu PIB sofrer uma
queda de -7,4%, o primeiro-ministro malaio não teve dúvida, destituiu o
ministro da economia e decretou que, a partir do dia 2 de setembro de
1998, estrangeiros estariam proibidos de retirar seus capitais do país.
Evidentemente, o homem foi taxado de louco, irresponsável, autoritário
etc. Indignadas, as vigilantes agências de risco expurgaram a Malásia de
seus caderninhos. “No more Malasia!”, praguejava, por certo, a turma
do cassino.
Ledo e feliz engano. O sensato primeiro-ministro malaio acertou em cheio.
Apesar do susto inicial, depois do retumbante “ninguém sai”, o país
recuperou sua autonomia no manejo das políticas econômicas, antes
confinadas ao campo de interesses dos capitais especulativos. Com a chave
do canil no bolso, as autoridades malaias gozaram então do privilégio
– tão raro nos dias de hoje – de poder baixar as taxas de juros e
administrar a sua taxa de câmbio de acordo com as necessidades internas
de sua economia. Em pouquíssimo tempo, não só a produção voltou a
crescer, como o próprio controle de capitais pôde ser abrandado, através
de um sistema que estabeleceu taxas sobre a saída de capitais que
decresciam ao longo do tempo. E, quem diria, mesmo com um passado tão
pouco convencional, o mais impressionante aconteceu: em menos de dois
anos, a Malásia voltou a ser agraciada com a entrada líquida de capitais
estrangeiros.
E aí? E as estrelinhas na caderneta?
Pois é, ninguém quis falar muito sobre esse arrogante pupilo da turma do
fundão. Disseram que o mundo melhorou, que, assim como a Malásia, outros
mais bem comportados também foram bem-sucedidos etc. etc.
Acontece que, ao contrário dos outros, graças ao controle de capitais, a
Malásia pôde retomar o crescimento econômico sem ter de comprometer
outros fundamentos importantes de sua economia. Desobrigada de disputar a
juros os aflitos capitais internacionais, a Malásia teve o êxito de
escapar da ciranda viciada que empurra economias “emergentes” a se
endividarem cada vez mais, quanto menores forem as suas condições de
saldar seus compromissos externos.
Aliás, é interessante comparar a experiência da Malásia com o caso
também exemplar, porém antípoda, de nossa vizinha de Mercosul. Sentada
da primeira fila, a Argentina seguiu como ninguém a batuta do FMI e hoje
se encontra inerte no aguardo da extrema-unção. Depois de inúmeros
pacotes, de pesados ajustes econômicos, com redução de salários, redução
dos gastos públicos, ampliação do desemprego, e um tanto de outras
mazelas, a Argentina é a filha escarrada do engodo neoliberal. Apesar de
não ter enfrentado uma crise aguda como a malaia, a Argentina não foi
capaz de sair do limbo em que se meteu. Contou com empréstimos
“salvadores” do FMI e do Banco Mundial, contou com o pacto “solidário”
dos bancos domésticos, mas hoje, mais do que ontem, e menos do que amanhã,
segue encalacrada sem ter como escapar.
Curiosamente, até outro dia, o ministro Cavallo lotava os salões
brasileiros para falar de suas peripécias. Quanto ao primeiro-ministro
malaio, pago um doce para quem souber o nome!
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Marcelo Manzano
é economista. E-mail: manzano.m@uol.com.br * artigo publicado originalmente na revista Caros Amigos. Publicação autorizada pelo autor