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Jovens comunistas e o futuro do Brasil
(Lucas Mendes, 2002-02-03)

Estive participando do acampamento regional da juventude comunista dia 21, 22, e 23 de dezembro de 2001 aqui em Santa Bárbara do Sul. Entre todos e entre as duas plenárias que se realizou, tenho certeza, eu era o único anti-comunista que lá estava.

Lendo os trechos do manifesto oficial lá elaborado, publicado no jornal Gazeta da Produção, não há dúvidas; a doutrinação, a cegueira ideológica que não permite estes caros jovens enxergar mais que a visão marxista possibilita e as consciências mais oníricas, para não dizer esquizofrênicas, foi possível perceber de forma contundente. No seio da idiotice coletiva é necessário estar, além de fora, mais importante ainda é estar acima dela, para se fazer algum julgamento de forma sustentada e que tenha algum valor. Caso contrário, a visão e o julgamento é conturbado devido o sujeito também estar inserido na confusão.

Palavra lá expressada com muito vigor e uma certa compulsão foi "consciência". Eles pregavam solenemente que precisam adquirir a simpatia de cada vez mais jovens, para transformar estes jovens alheios ao que lá se discutia, em jovens "conscientes".

Aparentemente tudo bem, é por isso que falo que a tal retórica é bastante comovente àqueles jovens alheios e imaturo por natureza, tornando-se muito fácil se influenciar pelas palavras que fluíam naquele reduto de "consciência" e “sabedoria” juvenil que lá havia injustamente concentrado entre 4 paredes.

Agora sairemos da linguagem convencional e transcendemo-nos para entender o que lá significava a ambição pela "consciência" dos jovens que a grande maioria deles nem sabiam que estava acontecendo aquela solenidade intelectual ou se sabiam o interesse era pífio.

Quando eles falavam em "consciência" (a aquisição dela) é a "consciência" de ver, julgar, concluir os fatos e a história como todos aqueles que lá estavam. Pelo menos lá todos enxergam os fatos da mesma forma, a dialética marxista é reinante e unânime entre os encéfalos daqueles meus companheiros de idade. Portanto, a "consciência" que lá se proclamava, era a consciência para a transformação social, do sistema social. Por isso, deduz-se que quando falam em "conscientizar" outros jovens de igual modo como aqueles "conscientes" que lá estavam, só pode se supor que desejam que outros jovens tornam-se "conscientes", ou seja, tornam-se comunistas.

E assim se sucede a difusão e a revolução gramsciana sem ao menos eles próprios saberem do que se trata. A legítima ingenuidade da astúcia! De Gramsci até muitos sabem da existência ou então pelo menos já ouviu falar. Mas sobre seus escritos quase ninguém. À um deles quando falei, não naquela mas em outra oportunidade, ele se erigiu com aquele ar de profunda sabedoria e conhecedor de sujeitos – como direi? - "interessantes" e disse-me: Ah, Gramsci era um "intelectual orgânico". - Ta e daí? O que você me diz sobre isso? Nem ele no altar de sua elevada "consciência" tinha ciência que ele próprio era um "intelectual orgânico". Pensava ele que ser "intelectual orgânico" era uma particularidade de Gramsci ou então (para o jovem) uma virtude própria de Gramsci.

Gramsci foi o formulador dessa expressão "intelectual orgânico" da mesma forma que "intelectual tradicional" e não enunciou aquela palavra para se autodefinir, mas descreveu as duas para dicotomizar toda a sociedade. Pobre daqueles jovens que vierem a adotar essa "consciência" tão ambicionada por esses meus companheiros de idade.

Aquela "sabedoria" ora reduzida e concentrada em alto grau em poucas mentes juvenis ainda grita e vocifera contra o neoliberalismo "que amargura as nações em subdesenvolvimento e o exemplo mais concludente, para eles, é a quebradeira e crise social argentina". Culpar o neoliberalismo pela pobreza dos povos, não passa de clara retórica fundamentada na falsidade, na mentira e pela própria falta de estudo que nesses jovens comunistas é condição sine qua non.

Que liberalismo há em manter o câmbio do país atrelado ao dólar quando os mais importantes países, os quais mantêm relações comerciais, desvalorizam suas moedas num regime de câmbio flutuante? Que liberalismo há no pesado ajuste fiscal seguido religiosamente pelo governo argentino? Que liberalismo há em manter uma pesada carga fiscal e tributária em cima das pessoas e empresas? Que liberalismo há em barrar compras de produtos de alta tecnologia do Brasil? Enfim, que liberalismo há em impor aos cidadãos o corralito, mostrando um totalitarismo sem escrúpulos, já que vivem numa democracia? E no auge da confusão, a sociedade que luta por uma nação próspera culpa os bancos por isso.

No Brasil é pior ainda. O neoliberalismo é a causa até mesmo da gripe que o sujeito enfrenta. Essas concepções pervertidas, diante do excessivo anúncio besta e ideológico, só desmoraliza as idéias liberais. É claro que a falta do verdadeiro estudo é proposital, pois o objetivo não é em conhecer, em interpretar a sociedade, mas sim, transformar a sociedade antes mesmo de discerni-la. Esse é o pressuposto que sustenta toda essa massa de jovens que sonham com a república socialista e almejam a "conscientização" de seus companheiros de idade.

É claro que fui lá só para escutar, pois sinceramente, não teria coragem de levantar questões totalmente oposta àquelas que lá se "debatiam" unanimemente pelos "conscientes" jovens da região. Portanto, não tinha o intiuto de colocar formiga no doce das crianças.

Sou convicto, que enquanto entre nós permanecer e não eliminarmos o dogma implícito de que o saber seja utilizado para fins ideológicos e políticos (aí me refiro também às escolas), a catástrofe cada vez estará mais perto de nós até que um dia ela estará entre nós e ninguém entenderá o que estará acontecendo e o porquê. Ah! Talvez aleguem o neoliberalismo. Mas faço parte dos que defendem a consciência individual e a verdadeira educação para a cidadania. Ou seja, a verdadeira oportunidade de saber. Só a partir daí poder-se-á tomar decisões e agir em prol do bem comum. Pena que entre eles e eu, a realidade que nos cerca está bem mais perto deles, embora eles não percebam (ou fingem não perceber). Enquanto isso, permaneço fora aqui e ali, conversando com meus botões.


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Lucas Mendes
é acadêmico de Economia - UNIJUÍ - RS
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