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Atraso tecnológico, desigualdades sociais e desvios de recursos públicos:retrato de um Brasil que não dá certo
(Marcus Eduardo de Oliveira, 2001-10-29)

Recentemente, a Organização das Nações Unidas (ONU) concluiu profícuo estudo acerca de temas de extrema importância para se compreender as economias de um modo geral, no que concerne à qualidade de vida, em épocas de profundas transformações, decorrentes do atual e avassalador processo de “globarbarização”. Os temas em pauta são: tecnologia e desigualdades sociais. Em ambos os casos, o Brasil continua a apresentar resultado pífio. Pelo menos é o que se comprova à luz das posições alcançadas pelo Brasil num ranking bastante abrangente de países analisados (167 países para o caso da tecnologia e 87 para o caso de exclusão social) pelos técnicos da ONU.

No tocante a questão tecnológica (incluindo pesquisa e desenvolvimento, criação tecnológica e capacidade de formação profissional), o Brasil alcança o 43° lugar, com pontuação de 0,311 (quanto mais próximo de 1, melhor capacitado tecnologicamente encontra-se uma Nação), sendo próximo aos patamares alcançados por Bolívia e Trinidad e Tobago.

Um pouco pior é a avaliação referente ao IDH (Índice de Desenvolvimento Humano) que avalia três fatores: a) nível de renda per capita; b) investimentos em educação; e c) investimentos em saúde. O Brasil alcançou a 69° posição (IDH de 0,75) – também quanto mais próximo de 1, melhor o grau de igualdade -, se posicionando atrás de Uruguai, Venezuela, Chile, Colômbia e Argentina. Ou ainda, atrás de países sem a menor tradição em qualidade de vida, como são os casos de Letônia, Suriname, Brunei, Malta, Eslovênia e outros.
Além do IDH, o Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (Pnud) elaborou também o IPH (Índice de Pobreza Humana), que faz estimativas de exclusão social no mundo. Nesse caso, os estudos comprovam que – tomando como base  o ano de 1.999 -, 9% da população brasileira (15,1 milhões de pessoas) vivia com até US$ 1/dia. Num ranking de 87 países mensurados, o Brasil ocupa a 17° posição, atrás de Guiana, Paraguai, Belize, Panamá e Líbano.

Ao mesmo tempo em que a ONU concluía e divulgava esses dados, a Fundação Getúlio Vargas, no Rio, também concluía e divulgava estudos (com base no ano 2.000) acerca dos vexatórios índices de pobreza e indigência que marcam a população brasileira, trazendo à tona um quadro desolador, da mais completa desigualdade social. De acordo com esses estudos, coordenados pelo professor Marcelo Néri (FGV, RJ), o Brasil conta com 50 milhões de miseráveis (indigentes), perfazendo um total de 29,3% da população. Desse total, 45% possuem idade inferior a 15 anos, o que, por si só, compromete o desenvolvimento futuro desse público jovem, restando-lhes, à frente, somente o subemprego e as condições cada vez mais precárias de subsistência.

Muito mais importante do que conhecer o tamanho desse perverso quadro, é estudar maneiras de combater tal situação. No estudo, Néri aprofunda essa questão chegando a afirmar que se cada brasileiro, excluindo os 50 milhões de miseráveis, contribuíssem com R$ 14,20/mês, chegando a um montante da ordem de R$ 1,7 bilhão, seria perfeitamente possível varrer a fome e a desnutrição de nosso país. Portanto, a fome e a miséria não são varridas do Brasil por pura falta de vontade de quem governa os destinos dessa Nação.
Basta atentar ao fato de que, somente o rombo verificado na SUDAM, da ordem de R$ 2 bilhões, bastaria para erradicar essa terrível situação. Some-se a esses  escândalos, vários outros, tais como os R$ 170 milhões desviados do prédio do TRT (caso Lalau), o dinheiro gasto na emenda que permitiu a reeleição do presidente da República (caso FHC), a fortuna “inexplicada” do ex-presidente do senado, Jader Barbalho (caso Banpará), a ajuda “suspeita” aos bancos Marka e FonteCindam  (caso Salvatore Cacciola e Chico Lopes), os bilhões de reais gastos com o PROER (caso FHC, Bamerindus, Nacional e tantos outros).

A somatória desses fatos pode ser interpretada na triste conseqüência verificada tanto pelos estudos da ONU, como da FGV. O Brasil somente é atrasado tecnologicamente porque não levam (os governantes) a sério essa questão, ao relegar, a segundo plano, investimentos em pesquisa e desenvolvimento (P&D), ciência e tecnologia (C&T), em educação, em infra-estrutura. A taxa de investimento na área de tecnologia, historicamente, não consegue superar 1,5% do produto interno bruto; enquanto que os investimentos em educação, não superam os 4$ do PIB. Já no que tange as desigualdades sociais, somente à péssima distribuição de renda (a terceira pior do mundo) consegue colocar às claras o fato do Brasil apresentar elevada massa de miseráveis. Simplesmente por um processo de acumulação de renda, expressos nos seguintes dados: os 10% mais ricos, abocanham quase 47% da produção interna; ao passo que o mesmo percentual de pobres (10%), somente tem acesso a 10% dessa mesma produção.

Isso permite acrescentar que a concentração de renda e riqueza está nas mãos de aproximadamente 400 mil famílias, não mais do que 2,5 milhões de brasileiros. Diante de tudo isso, fica a inevitável pergunta: é possível o Brasil dar certo desse jeito?


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Marcus Eduardo de Oliveira
é economista, com especialização em Política Internacional. É professor do SENAC, da FAC-FITO e da Faculdade de Vinhedo.
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