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Argentina: Que se vayan todos!
(Marcus Eduardo de Oliveira, 2003-08-18)

A ARGENTINA EM NÚMEROS
10,9% foi à redução do PIB em 20024,
5% é a estimativa de crescimento do PIB para 200357
,5% da população estão abaixo da linha de pobreza
27,5% dos argentinos estão abaixo da linha de indigência
17,8% é a taxa de desemprego nacional
13,8% é a taxa de subempregados
37 milhões de pessoas é a população total (censo 2000)
28,2 milhões de pessoas vivem em zona urbana
4,7 milhões de pessoas vivem na zona rural
Fonte: Instituto Nacional de Estatísticas e Censos (Indec) da Argentina.Extraído de Caros Amigos, junho/2003, p.31

O título deste artigo expressa um forte sentimento de desagravo de um povo para com seus políticos, em especial, para com seus últimos governantes (Alfonsín, Ménen, De la Rúa). Evidentemente, estou me referindo à nossa vizinha e combalidade Argentina. Em dezembro de 2001, em meios às manifestações em frente à Casa Rosada (sede do governo), que acabaram por levar à renúncia do presidente Fernando De la Rúa, pouco mais de um ano após sua posse, esse povo vizinho, gritava, em um único coro, na famosa Plaza de Mayo, o slogan que seria, a partir de então, marca registrada dos protestos recentes: que se vayan todos!

Com esse gesto, a população expressava um verdadeiro sentimento de deterioração para com uma classe política que levou a Nação à beira do abismo. Essa mesma Argentina que no começo do século XX, era a sétima economia mais rica do mundo, grande exportadora de cereais e carne, vem amargando, na atualidade, índices vexatórios de pobreza, com uma economia em frangalhos a implorar recursos ao FMI e semelhantes. Na história do capitalismo moderno, conta-se nos dedos os países que fizeram essa escala, ou seja: sair de uma riqueza ostensiva para um índice de pobreza deprimente. 

Nos dias atuais, mais da metade da população vivem em condições de pobreza absoluta. A Buenos Aires de hoje, famosa pela arquitetura européia e pela elegância de suas mulheres, amarga sinais de depauperização estrondosa, com pedintes a te agarrar pelas ruas implorando por alguns centavos de pesos. A Argentina de tanto orgulho e tradição, que num dia qualquer do passado orgulhava-se de dizer que “Deus ajuda a todos, mas atende em Buenos Aires”, sofre hoje as trágicas conseqüências da adoção de um modelo econômico (neoliberalismo) que empurrou o país recessão abaixo, destruindo o emprego, sucateando a indústria, piorando a vida dos seus habitantes. Do estilo soberbo do passado, hoje restam poucas inscrições em camisetas à venda nas galerias da capital. Frases do tipo: “no solo somente perfecto, soy también argentino”, nada mais soam como nostalgia de um tempo áureo. Nesse tempo áureo, pretérito de uma Argentina imponente que se orgulhava de ter parido nomes como Borges, Córtazar, Bioy Casares, Piazzolla, Gardel, Evita, Perón, Che, e, mais recentemente, Mercedes Sosa, Maradona e Batistuta. É desse passado que os argentinos fazem questão de lembrar, como à espera de que o amanhã, seja, ao menos, parecido com esse tempo pretérito. Foi assim, tentando resgatar o passado, que um dos últimos responsáveis pela atual situação de pobreza extrema, conduziu sua campanha eleitoral. Sim, ele mesmo: Carlos Saúl Ménen. Este peronista (que se auto-intitula justicialista) que incorporou o mais puro modelo neoliberal, capaz de manter com os Estados Unidos “relações carnais” espalhou pelos quatro cantos do país cartazes de campanha com a seguinte expressão: con Ménem viviamos mejor. 

Audacioso e prepotente, “esqueceu-se” somente de colocar nesses cartazes que, durante suas duas gestões (1989-1999) a Argentina prostou-se de joelhos perante o capital financeiro internacional, na mais completa bancarrota e submissão ao imperialismo econômico-financeiro. Conquanto, ainda que se propague que o povo não tem memória (pelo menos é que se costuma dizer por aqui), vendo a derrota humilhante lhe carimbar o currículo, aproveitou para realizar mais um ato de covardia, ao renunciar a candidatura uma semana antes das eleições. 

Desse modo, pelas mãos de Néstor Kirschner (também pertencente ao partido Peronista), que acabou presidente eleito com 23% dos votos válidos do primeiro turno das eleições, a Argentina tenta se recuperar dos estragos causados pela dupla Ménem-Cavallo. 

Com Kirschner, a esperança de um futuro mais promissor renasce nos pampas. Quem sabe, a partir de agora, os argentinos esqueçam um pouco o passado, e passam a se preocupar com o futuro. Futuro esse que, junto ao Brasil de Lula, ao Chile de Lagos, a Venezuela de Cháves, ao Equador de Gutierrez, ao Paraguai de Duarte Frutos e, por que não a Cuba de Castro, a América do Sul volta a se projetar no cenário internacional, numa espécie de fortalecimento do Mercosul, a partir de novos integrantes, afastando a real e perigosa possibilidade de inserção a ALCA dos Estados Unidos, de Mr. Bush e asseclas.

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Marcus Eduardo de Oliveira é economista, com especialização em Política Internacional. Mestrando em Integração da América Latina (Prolam-USP). É professor das Faculdades de Vinhedo, da FAC-FITO e da FIZO. Autor de Conversando sobre Economia (ed. Alínea). 
E-mail: prof.marcuseduardo@bol.com.br E-mail: prof.marcuseduardo@bol.com.br 
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