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Empreender sem dor O Brasil é um país de empreendedores.
Pelo menos é o que diz a matéria do USA Today. Deixamos os Estados Unidos
para o segundo lugar. Com tanta gente abrindo seu próprio negócio, o prêmio
do “bloco do eu sozinho” já é nosso. A taça virá fazer companhia a
Jules Rimet. Na galeria dos sonhos derretidos. Negócio aberto não é negócio fechado.
É candidato às gordas estatísticas dos que não chegam ao quinto ano.
Muitos fracassos ocorrem por culpa do próprio empreendedor, que quis
empreender sem dor. Ou passar a dor para o sócio. Meu pai sempre dizia que,
numa sociedade, um entra com a experiência e o outro com o dinheiro. No
final, o primeiro sai com o dinheiro e o segundo com a experiência. Um problema típico do empreendedor é não
compreender o mercado. Na época em que eu tinha metade da idade e o dobro
da energia, acreditava que se todo mundo voltasse a viver no mato, o mundo
seria melhor. Minha santa ingenuidade não me permitia ver que, ainda que
resolvesse o problema da distribuição de riqueza, criaria o problema da
distribuição de mato. Não haveria mato para todos. Mesmo assim fui morar na cidadezinha de
Alto Paraíso, na Chapada dos Veadeiros. Tão pacata, que alguns a chamavam
de Alto Paradeiro. Lá decidi investir no empreendimento de um francês.
Investir não é bem a palavra. Emprestei meu sítio e o forno a lenha para
ele montar sua padaria. A única num raio de duzentos quilômetros de
cerrado. Como siriema não come pão, emprestei
também uma velha Variant para o produto poder chegar ao mercado. Onde se lê
produto, leia-se pão de trigo integral e bolo feito com açúcar mascavo. E onde se lê mercado, leia-se uma população acostumada a
comer de tudo, menos alimento macrobiótico. Enquanto durou, o negócio
garantiu o sustento do francês e de sua família. Almoçavam e jantavam pão.
Com bolo de sobremesa. Enquanto o produto do francês ia ao
mercado e voltava incólume, há quem fracasse antes de chegar ao mercado. Geralmente é o empreendedor que
luta até à morte para defender sua idéia. Está mais apto a brigar do que
a abrir uma empresa. Esqueça
tentar ajudá-lo. Vive na defensiva e não aceita sugestões. E quem joga na
defesa nunca descobre o caminho do gol. Existe também o empreendedor que acredita
ser vítima de uma conspiração de investidores, que decidiram arruiná-lo.
Adora viver sua fantasia de perseguido e incompreendido. No fundo não quer
colocar seu plano em prática, pois não tem certeza dos resultados. Não
faz e não erra. Já ouvi falar de um empreendedor do tipo
desconfiado. Parece ter inventado um motor que funcionava a água, ar,
pensamento ou algo até mais barato. Gastou sua vida procurando quem
quisesse investir no protótipo. Mas não mostrava o projeto, se é que
tinha algum. Primeiro a inseminação de fundos. Ver o filho, só depois de
nascido e funcionando. Mas há o empreendedor sociável, que
conta tudo e até demais. Você
se sente na obrigação de avisá-lo dos furos de seu projeto. Mas após
ouvir meia dúzia de “Eu sei, mas...”, conclui que ele não quer sua
opinião. Quer confete. Alguém que elogie e apóie sua idéia para dar
segurança. Quando encontra um falso estribo, vai em frente. E cai do
cavalo. A Internet revelou uma espécie singular
de empreendedor. Que fala grosso com o dinheiro fácil. Herói de uma guerra
que nunca lutou, pois só coloca em risco sangue alheio. Não há mérito em
se empreender assim. Na segurança de um passo sem risco, empreender não
exige coragem. Conheci uma senhora assim em Angra dos Reis. Foi logo contando de como havia abandonado sua mansão no Morumbi aos cuidados do mordomo e dos outros empregados, para viver uma vida humilde na casa e no iate que possuía em Angra. “Não sou corajosa?”, perguntou ela, ao terminar a história de sua vida. “Muito!”, respondi. Os textos aqui
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opinião da EconomiaNet
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